O ano é o de 1969. O Festival RTP da Canção é um acontecimento nacional e, para escândalo da moral mais conservadora, Portugal faz coro com Simone de Oliveira a cantar «quem faz um filho, fá-lo por gosto» e leva a progressista «Desfolhada» à Eurovisão. Por Coimbra, avançam as obras do novo edifício do Departamento de Matemática, onde, dentro de semanas, a 17 de Abril, os estudantes vão ser impedidos de falar e o gesto repressivo dará início à crise académica que, a cinco anos da Revolução, faz das capas negras e da Briosa símbolos da luta pela democracia e pelo fim da guerra colonial. A acompanhar os primeiros sinais da primavera portuguesa está João Pardal, um personagem com 20 anos e que acabou de abrir conta no Facebook e Instagram para registar o dia-a-dia na cidade na época – eis o novo projecto da Cooperativa de História Pública Rebobinar para nos aproximar do passado que nos habituamos a situar nos livros, filmes e jornais.
«Procuramos contar a história através de diferentes formatos. Desta vez há um alinhamento de datas – 55 anos da crise académica e 50 anos do 25 de Abril – e pensámos em contar estes eventos históricos na primeira pessoa, enquadrando acontecimentos com importância nacional e dando projecção à história local», explica o investigador Pierre Marie, que conduz a Rebobinar ao lado de Eduardo Albuquerque.
João Pardal é de Coimbra, está no segundo ano do curso de Engenharia, ajuda o pai e a mãe na retrosaria da família que fica na Baixa, «está num relacionamento com Maria da Graça Vasconcelos», gosta de música, de andar de bicicleta e vibra com os jogos da Académica.
«É um estudante comum, com as preocupações da juventude da época. Não é muito militante, nem vem de uma família politizada. Mas por ser adepto da Académica e por estar num curso com ligação à Junta dos Delegados da Faculdade de Ciências de Coimbra» vai despertando para o movimento estudantil. Há também a namorada Graça, que «faz pensar o papel da mulher na sociedade e na Medicina» e o amigo Guilherme, açoriano, que vive numa república, tem um irmão a combater na Guiné e lhe conta também histórias na primeira pessoa de uma das regiões mais pobres do país. Resultado? «Aos poucos, João Pardal vai envolver-se na luta». O estudante que, a 7 de Março de 1969, recusa, por mensagem, um convite para ir ao café Clepsidra à inauguração da cooperativa de esquerda porque «sinceramente, passar a noite a falar de política não [o] entusiasma nada», não será o mesmo que vai estar na final da Taça de Portugal, quando a Académica entrar em campo de luto e transformar o Estado Nacional no maior comício de sempre contra o regime.
Além do original formato narrativo, as redes sociais de João Pardal funcionam também como retratos de Coimbra na viragem dos anos 60 para os 70: há o comércio (e as inundações) na Baixa; «o barulho, as movimentações dos operários, a força das máquinas» nas voltas de bicicleta de João até ao bairro então industrial do Loreto; o pai que é adepto do União; a mãe e a irmã que cantam a «Desfolhada». Os posts são também fontes históricas: há imagens recriadas, mas muita da documentação e referências quotidianas são da época: «Ele vai ao Teatro Académico de Gil Vicente com a Graça e o filme que vão ver era o que estava a passar [Quem tem medo de Virgínia Woolf]”. Ele vai às Assembleias Magnas e os comunicados são os da época», destaca Pierre Marrie, fundador da Rebobinar com Eduardo Albuquerque. A história recriada nos novos quadradinhos, em jeito de diário e que dá para levar no bolso.







