Rasha deixou Juba, no Sudão, por causa da guerra que a fez recear pela própria vida. Abdul relata a sua «viagem de sobrevivência» entre a Síria e a Europa, até chegar a Portugal. Adut conheceu Portugal por fotografias depois de o pedido de asilo ter sido aceite: «Gostei do que vi». Nawal tem o pensamento num futuro melhor para os filhos. Estes são alguns dos protagonistas de My heart is there, my body is here (O meu coração está lá, o meu corpo está aqui, numa tradução livre), um documentário que convida a conhecer um grupo de migrantes e refugiados que encontraram porto seguro em Coimbra, com a chancela da Propella, cooperativa formada pelo interventor social e músico João Doce e o realizador Pedro Cruz.

Como é que tudo aconteceu? Começou com um convite do Observatório de Cidadania e Intervenção Social da Faculdade de Psicologia da Universidade de Coimbra para participarem no projecto TeachMi, com o objectivo capacitar professores a criarem conteúdos educativos mais adaptados a migrantes. O projecto ganhou rapidamente uma vida paralela e assim nasceu My heart is there, my body is here. «Era urgente começar pelo início. E o início são os finais, os utentes, não são os professores. Embora recebam as competências, o que interessa é chegar aos migrantes», conta Pedro Cruz. Pedro é co-autor da curta documental Vou-me Despedir do Rio, galardoada na 21.ª edição do Festival de Cinema Luso-Brasileiro de Santa Maria da Feira, em 2018, sobre a história do desaparecimento da arte do linho e do colapso da Fábrica do Caima, em Ribeira de Fráguas. Com João Doce, já tinha trabalhado no documentário Artefactos, sobre a intervenção comunitária pela arte na Quinta de Paramos, em Espinho, entre 2012 e 2015.

«Nós temos a ideia de que este é o melhor sítio para o mundo e é o sonho que eles queriam. Não! O sonho de vida deles é voltar para as suas terras, ter paz, e voltarem às suas vidas. Portugal, assim como outros países onde acabam por parar, é uma espécie de plano B e esperam que dure pouco tempo»

João Doce, realizador

João Doce, baterista, percussionista, ex-Wraygunn, tem vindo a colaborar com vários projectos musicais e culturais, e coordenado vários documentários acerca da intervenção comunitária pela arte. Diz que este documentário em particular surge com a intenção de dar «mais visibilidade e espaço de comunicação» à problemática dos migrantes, bem presente nos dias de hoje, mas também para dar a conhecer as pessoas. «A nossa ideia é termos algo in the face de quem são os migrantes, não só para, em termos de memória futura, estar acoplada aquilo que é um projecto mais ou menos ortodoxo, mas também para poder contagiar e contaminar aquilo que fosse a sequenciação do projecto, com esta visão mais directa, mais humanista e mais centrada no indivíduo», explica. 

«O sonho de vida deles é voltar para as suas terras»

My heart is there, my body is here é uma viagem entre o passado e o presente dos migrantes, dando a conhecer, na primeira pessoa, as razões que os levaram a deixar o seu país e como acabaram em Portugal. Conhecemos um pouco do seu dia-a-dia e  e as suas rotinas, a forma como decorre a sua integração e os seus objectivos para a vida. Uma destas histórias é a de Abdul. Deixou a Síria a ferro e fogo com o Daesh em direcção a porto seguro – a Europa. Uma viagem arriscada mas que era a única escolha, querendo viver. «A morte está atrás de nós e a vida à nossa frente. Queremos sobreviver e fugir para a vida», relata a certa altura. 

«Em comum têm todos uma história de vida difícil, nalguns casos mais explícita noutros menos, no documentário. Outra coisa que os aproxima é a generosidade», começa por nos dizer Pedro Cruz, numa alusão à naturalidade com que abriram os corações, as casas e a vida a desconhecidos. Neste trabalho, João Doce e Pedro Cruz tentaram descolar-se da imagem formada destas pessoas, com base nos media e mergulhar naquilo que são as suas vidas concretas. Uma viagem que também é desmistificação. «Nós achamos que facilmente entendemos o sofrimento do outro porque vimos na televisão ou no filme. E é engraçado e frágil, quando estás a falar com alguém e essa pessoa te diz que fez não sei quantos quilómetros a pé e aquilo ali ganha realidade e nós, num filme, fazemos 500 quilómetros a pé em três ou quatro frames», realça João Doce.


A ideia ao retratar estas pessoas é dar-lhes forma e sobretudo voz, para que quem está do outro lado possa conhecê-los e ver quem realmente são. «Estas pessoas não vêm para nos tirar nada. As pessoas vêm numa situação de carência e já nem capacidade de hostilidade têm porque de sítios brutalmente hostis já elas vêm», acrescenta João Doce. Para estes migrantes, Portugal surgiu como uma espécie de interposto onde admitem que está o corpo, mas não o coração. Pelo menos não em plenitude. «Nós temos a ideia de que este é o melhor sítio para o mundo e é o sonho que eles queriam. Não! O sonho de vida deles é voltar para as suas terras, ter paz, e voltarem às suas vidas. Portugal, assim como outros países onde acabam por parar, é uma espécie de plano B e esperam que dure pouco tempo», conta João Doce.

O caminho da integração

My heart is there, my body is here também reflecte sobre as dificuldades encontradas à chegada a um país completamente diferente e o papel que as instituições têm no apoio a estas comunidades. Um delas é a Cruz Vermelha, em cujos técnicos os migrantes acabam por depositar quase toda a confiança, como admitem no documentário. «São âncoras absolutas naquilo que é a chegada um país que não conhecem, que vai desde a vivência comum do dia-a-dia até questões mais instrumentais como ter acesso a produtos, instituições ou alimentação», ressalva João Doce.

As artes são também um dos veículos para a integração e para a sociabilização. Aqui, o ecrã aparece pintado com as cores do Salão da Frida, na Rua de Montarroio. «A pintura e as artes visuais são uma linguagem universal e isso aproxima muito mais facilmente as pessoas, porque são pessoas que trazem muitas barreiras linguísticas», diz Élia Ramalho. Para a fundadora do espaço, a vantagem da utilização de locais como o seu é o facto de acabarem por «ser mais aconchegantes para a alma e proporcionarem maior bem-estar». No fundo, acrescenta, são espaços que «facilitam que outras dinâmicas mais ligadas à formação e à aprendizagem possam fluir de uma forma mais suave e natural».

 

Na trabalho de integração, é preciso ainda não esquecer que, tal como nós, estes migrantes e refugiados têm objectivos, quer seja em termos académicos, profissionais, pessoais ou familiares e alimentam sonhos. E esses definitivamente não faltam a este grupo. Há vontade de prosseguir os estudos e entrar na faculdade, de simplesmente ajudar os filhos a ter uma vida melhor.  Mas há quem sonhe um pouco mais alto e ambicione uma carreira na música ou na aviação. 

«Nós não podemos, enquanto cidade que recebe ou enquanto estruturas que apoiam, baixar e reduzir as expectativas destas pessoas a tecto ou a comida», lança João Doce, lembrando que falamos de jovens que «estão na flor da idade, dos desejos, das vontades, de fazer coisas, de mudarem o mundo e as suas vidas». «É preciso abertura», defende, «para perceber que essa gente vem carregada de sonhos e que tem direito a lutar por eles». Do contacto com estas pessoas, o músico considera que atravessam um processo de «arrumação» estando ao mesmo tempo «numa zona de carne viva». «Mas têm uma fé e uma força que é admirável», remata.


Dos festivais à discussão pública 

My heart is there, my body is here ainda não tem data de estreia. Totalmente concluído, prepara-se para aquilo a que os autores chamam de «teste», que são os festivais de cinema. Pedro Cruz diz que a ideia é perceber o impacto que o filme pode ter mas admite que em breve haja novidades. Os mentores deste projecto gostavam que o documentário ganhe outras dinâmicas e suscite debates que envolvem interventores sociais, líderes políticos e «gente que faça planeamento estratégico». Ao nível académico, o objectivo é que possa ser mote para a «exploração de algumas coisas que ficaram e foram lançadas pelo documentário», acrescenta.

Há ainda o público em geral, com João Doce a expressar o desejo de o filme ser uma forma de «sensibilização e mudança de postura e de opinião em relação a estas pessoas e a estas histórias de vida». Pedro Cruz partilha que já teve reacções positivas de pessoas próximas a quem mostrou o filme: «Algumas disseram-me “ainda bem que eu vi este filme porque não sabia uma série de coisas sobre estas pessoas”. Tenho um caso particular de me dizerem: “Gostava muito de mostrar aos meus pais, porque eles tem uma visão completamente diferente destas pessoas, não gostam delas e precisavam de ver isto”».

«Nós não sabíamos o que estava a ser dito, mas a carga emocional era de tal ordem que estávamos todos com a garganta seca. Ao fim de poucos encontros, aquelas pessoas abriram-nos a história de vida e não só.»

Pedro Cruz, realizador

Atrás das câmaras

Entre as dificuldades encontradas em cerca de um ano e meio de produção e realização, Pedro Cruz destaca a comunicação que, ao mesmo tempo, acabou por «dar forma ao conteúdo». «Havia sempre um tradutor para nos auxiliar. Nós não sabíamos o que estava a ser dito, mas a carga emocional era de tal ordem que estávamos todos com a garganta seca. Ao fim de poucos encontros, aquelas pessoas abriram-nos a história de vida e não só», recorda o realizador. 

Neste percurso, houve um momento marcante para João Doce e Pedro Cruz, uma «espécie de descarga emocional» de um dos protagonistas que chegou a levantar dúvidas sobre se deviam ou não desligar a câmara. «A determinada altura percebi que mesmo que não fosse para o documentário, estava a ser bom para ele e continuámos», recorda João Doce. O momento foi como um sinal de que estavam no caminho certo: «a história daquela pessoa bateu-nos na cara com uma violência mesmo gigante. E isso deu-nos mais força para fazer este trabalho», continua.


Pedro Cruz fala da própria experiência cultural de realizar o documentário com as diferenças de modos de vida a evidenciar-se em gestos tão simples como a oferta de uma bebida. «Nós, na nossa forma de portuguesa de não querer incomodar, dissemos: “Não, nós não queremos, obrigada”. Mas eles sentiram-se insultados. Não estávamos a perceber até que o Abdul nos fez sinal: “Tu tens de aceitar senão é falta de respeito”. E ali tive uma dose de realidade: apesar do envolvimento eu não conheço as pessoas e a cultura», recorda. Afinal, o perto também se faz longe: «Para mim foi interessante mas apesar de todo o privilégio de estar ali, continuo a ser um estranho. O trabalho de nos conhecermos uns aos outros demora bastante tempo».

João Doce destaca «a capacidade que as pessoas, em sofrimento e em dificuldade, ainda têm para aconselhar os outros. Para dizerem: “Não percam a esperança”, “lutem pelas vossas coisas”, “protegem o que têm”, “valorizem o que têm, porque de um momento para o outro podem deixar de ter”».

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