Desde 2008, quando, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, se iniciaram os estudos pós-graduados em Culturas da Alimentação, com a abertura do Mestrado em Alimentação: Fontes, Cultura e Sociedade e, em 2016, o Doutoramento em Patrimónios Alimentares, Culturas e Identidades, desenvolvi investigação sobre as relações entre a Alimentação e a Religiosidade. Um dos focos de pesquisa mais interessantes foi o da Doçaria Portuguesa como um produto de uma cultura histórica, com os seus contextos socioeconómicos, mas cuja permanência, funcionalidade e gramática visual no Portugal atual não se explicam se não entrecruzarmos esses dados objetivos com outros, como a sua simbologia no momento em que se manifestam (quando são visíveis?), a sua forma, o nome por que são conhecidos os produtos da doçaria.
Identificámos uma linguagem coerente que valoriza uma representação visual – antropomorfismo – ou uma alusão cognitiva – antroponímia – que destaca o ser humano: partes do corpo ou mesmo o corpo todo, na sua integralidade; as suas emoções e desejos; o espaço doméstico da sua intimidade e da sua sensualidade. A Doçaria revela-se expressão da mesma vontade de representar a experiência humana que nós podemos contemplar noutras formas de arte, como a literatura, a pintura e, sobretudo, a escultura, mas também na linguagem quotidiana e na cultura religiosa.
Doces escultóricos, doces que existem para ser contemplados, presenças performativas cuja finalidade pode mesmo passar por nunca serem comidos, e permanecerem enquanto ícones? Sim. Reconhecê-lo também é difícil, porque, historicamente e culturalmente, a doçaria e os pães esculpidos saem da mão de mulheres: criadas dos conventos e freiras, doceiras, boleiras, forneiras. Um anjo num retábulo dourado de uma igreja barroca é uma obra de arte do mestre entalhador, mas um Papo d’Anjo da cozinha de um convento feminino mais não é do que o lazer efémero de uma mulher entediada. No entanto, um e outro nasceram no mesmo ambiente cultural, saturado de alusões espirituais, de liturgias, de um ambiente piedoso que favorecia a leitura aturada de textos com meditações místicas e pensamentos religiosos «-Entre os Tachos também anda o Senhor!», disse Santa Teresa d’Ávila (a Doutora!) às suas Irmãs (séc. XVI), para justificar o seu afinco em participar nas tarefas da cozinha.
Um anjo num retábulo dourado de uma igreja barroca é uma obra de arte do mestre entalhador, mas um Papo d’Anjo da cozinha de um convento feminino mais não é do que o lazer efémero de uma mulher entediada.
Entre as espécimes em análise, apresentam-se as bem conhecidas Arrufadas de Coimbra; a Maminha de Noviça, a Barriga de Freira, o Colo de Freira, os Dedos de Dama, os Papos d’Anjo, o Toucinho do Céu, os Fidalguinhos, as Tíbias, os Suspiros, os Beijinhos, as Raivas, os Fidalguinhos, as Trouxas de Ovos, as Cavacas, os Covilhetes, presentes nas montras das pastelarias nacionais, alguns deles com variações na sua forma conforme a região e associados a uma cultura doceira local cujo sucesso comercial se expandiu conforme o gosto dos gulosos consumidores, sensíveis ao valor do rótulo de «Doce Conventual» que, na verdade, refina e especializa o que de melhor se fazia nas cozinhas das elites aristocráticas do passado.
Noutros doces, de cunho mais popular, reconhece-se a gramática universal do pão: a ordinária farinha, água e fermento a que se adicionam os produtos mais raros e caros, como os ovos, o açúcar, as especiarias, limão ou laranja, o azeite, a manteiga, a banha. E assim, nas cozinhas tradicionais, o pão de cada dia se transforma no doce da celebração e da festa periódica ou ocasional!
Permanecem restritos a uma região ou a uma festividade religiosa ou romaria que os convocam. Vendidos nos adros das festas populares, tocados, trocados ou oferecidos, a complexa variedade de formas e de rituais comunitários que os movimenta explica-se pela ancestral ligação entre a doçura que se come e a doçura que se dá, como manifestação de afeto: a Ferramenta de S. Gonçalo, os Velhotinhos, a Gancha de S. Brás, os Pitos de Santa Luzia, as Orelhas de Abade ou os Biscoitos de Orelha, os Farta-Rapazes, os Espera Maridos.
Na região centro, entre Coimbra e Aveiro, pululam os «Cornos». Pão de Cornos, Bolo de Cornos. Mais a Sul, entre Pombal e a Região Oeste, as Ferraduras. Todos associados a Festas de abundância e fertilidade, a Páscoa, o Pentecostes, o Espírito Santo, casamentos. Saem das forneiras com estes nomes, mas chegam a quem os consome, muitas vezes, com a designação de «Bolo da Festa» ou «Bolo da Missa», evitando, comerciantes e consumidores, o embaraço da designação, hoje claramente pejorativa, de «Cornos». Mas em Penude, Lamego, pela altura da festa de S. Sebastião, a 19 de janeiro, é uma figura antropomórfica, um «diabinho» com seis pontas (duas pernas, dois braços, dois cornos) que anima a «Festa dos Cornos». Assados em tabuleiros, são leiloados, e se leva o Bolo de Cornos para casa, sem embaraços com a rudeza da linguagem.
Há, contudo, uma forma mais profunda de, na religiosidade popular, integrar alguns destes pães: a Relíquia de S. Bento, o Pão de Santa Rita, o Pão de Santo António, são distribuídos como bênção aos devotos, que os levam para casa, como amuletos. A sua função realiza-se, justamente, em não serem comidos: na casa onde estiverem, não entra a fome, a doença, as tormentas do quotidiano ficam à porta. E, condão de Deus, estes pequenos pães, «as relíquias dos corpos santos» não colhem bicho nem ganham bolor.
Na ilha Terceira dos Açores; no Caniço, Santa Cruz, na Ilha da Madeira; na Freguesia do Outeiro, em Bragança, já não é a parte do corpo humano, nem a relíquia do santo, e sim a escultura antropomórfica: a secular técnica do Alfenim (açúcar fundido com óleo de amêndoas e um pouco de vinagre, que mantém a maleabilidade durante uma certa temperatura) exige mão de escultora para modelar as pombinhas e as Coroas do Espírito Santo, mas também os Bailarinos, rapaz e rapariga, de mão na cinta e roupas enfeitadas. Na Madeira, os mesmos Bailarinos, na Variante ricos e pobres, são esculpidos em massa de pão colorida com açafrão e engalanados com fitas coloridas. Em Bragança, a festa de S. Gonçalo de 10 de janeiro atinge o seu ponto alto com a exibição de um andor, o Charolo, (de Carrolus, latim para ‘pequeno carro’) todo carregado de bolos enormes, com formas de roda dentada (as ‘Roscas’), de animais domésticos e, sobretudo, de homens e mulheres, separados ou de braço entrelaçado, numa dança.
A maioria destas ocorrências sobrevive pelas mãos de raras artesãs, num Portugal periférico e de pouca visibilidade, guardiãs de um saber fazer que urge proteger como Património. Ora, para o protegermos, temos de o conhecer, e não o considerar um errático e até anedótico sinal do grosseiro ou do obsceno. Conseguimos, de facto, fundamentar os Doces mencionados, as suas formas e designações, na literatura religiosa, sobretudo bíblica, mas também na cultura visual históricas e populares, o que nos leva a afirmar que os Doces participam da construção cultural que configura a identidade portuguesa.
Afinal, que tem o gosto do corpo, o prazer na sua contemplação, seja no seu concreto seja na sua representação como doce? A linguagem do quotidiano preserva-o: «-meu docinho!» dizemos ao filho, ao amado, alvo dos nossos afetos. Associamos o doce à manifestação de amor, seja ele erótico, seja ele filial, esteja também ele coberto por sentimentos espirituais mais abrangentes.
Neste sentido, a cultura religiosa, que em Portugal é maioritariamente cristã, integrou, nas suas manifestações festivas, nos rituais de presentear, de agradar ou de agradecer, que entretanto passaram também para formas de cortesia simbólicas, a materialidade do bem comestível que, antes de ser bom para comer, deve ser belo, e deve significar, numa simbologia antropofágica, o tanto que gostamos, que queremos integrá-lo no nosso corpo.

Paula Barata Dias é investigadora do Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra e docente de Estudos Clássicos. Comissariou a exposição «Quando o Doce se Faz Corpo: Erotismo e Religiosidade na Doçaria Portuguesa», patente no Museu de Lisboa Santo António em 2025, dedicada à dimensão simbólica e cultural da doçaria portuguesa.




