Estamos no Gabinete de Curiosidades do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, espaço com mais de quatro mil objetos, misturados e sem legendas, que tem sido alvo de polémicas por trazer um interesse não-cientifico pelo exótico. Pajé Jaguar procura um exemplar Paxiuá-á, a cabeça troféu mumificada pelo povo Munduruku, referida pela historiadora Maria Isabel Roque no artigo Um gabinete de curiosidades e muitas outras perplexidades, mas não encontra.
«Reconheci pelo menos três objetos rionegrinos no Gabinete mas não consegui identificar se são Baniwa, Pira-tapuya ou Uanana, mas são do Rio Negro… vi pelas plumas, pelas fibras, desenhos. Vou pedir para acessar os registros de material amazónico que estão aqui na Universidade de Coimbra. Me interessa saber qual o trajeto que esses objetos fizeram até aqui, onde estavam, quem os trouxe. Quero muito descobrir o que de nós está aqui. No meu processo artístico, pratico o exercício de entender o que tem de não colonizado dentro de mim», refere o artista.
Pajé Jaguar é Denilson Baniwa, artista visual e curador brasileiro que nasceu na aldeia Dari, nas margens do Rio Negro, no município de Barcelos, Amazonas, em 1984. Hoje é reconhecido como uma das principais vozes do protagonismo indígena na arte contemporânea brasileira, e o seu trabalho amplia e intensifica o debate sobre a inclusão social dos povos originários do Brasil.

Com obras expostas em cidades como São Paulo, Sidney ou Los Angeles, Baniwa passou cerca de uma semana em Coimbra onde desenvolveu algumas vivências a partir de um convite da investigadora Patrícia Vieira, do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, inserido no projeto ECO, financiado pelo Conselho de Investigação Europeu. Participou no congresso «Monoculturas: Perspectivas Eco-Culturais» de 14 a 16 de fevereiro, e interagiu no debate sobre as problemáticas ambientais associadas à exploração em monocultura de plantas e animais, bem como ao predomínio de monoculturas da mente num mundo globalizado.
Também fez a estreia mundial do mais recente filme Bakish Rao: plantas en lucha, realizado em parceria com o coletivo indígena Comando Matico da cidade de Pucallapa, na Amazónia peruana, e quem não teve oportunidade de o ver e ouvir o artista brasileiro na Universidade de Coimbra, ou testemunhar a sua performance no eucaliptal do Instituto Pedro Nunes, ainda pode conhecê-lo através de fotografias e vídeos patentes na exposição Pajé Jaguar – Denilson Baniwa, com curadoria de Nelson Ricardo Martins, na Sala de Provas Públicas no interior da Galeria de Exposições do Colégio das Artes, até 15 de março.
Conversamos com aquele que será um dos curadores do pavilhão do Brasil na 60º Bienal de Veneza – o Pavilhão Hãhãwpuá, entre abril e novembro; que, no ano passado, fez a codireção artística e cenografia da ópera O Guarani no Teatro Municipal de São Paulo, concebida por Ailton Krenak; e que foi celebrado pela instalação Escola Panapaná na 35ª edição da Bienal de São Paulo, uma construção em três pavimentos cujo interior acolheu aulas de línguas e culturas indígenas, artes e música. A estrutura, que, no início, evocava a forma de um casulo, transformou-se numa mariposa ao longo do período em cartaz.
Nesta primeira visita a Portugal, o artista conta que evitou atravessar o oceano e conhecer este território porque todos os convites que recebeu até então «estavam ligados a uma espécie de exibição exótica ou contraditória, como chegar aqui de cocar, cantar, dançar e me apresentar tal como os Tupinambá tiveram que fazer ao rei da França». Explica ainda que, embora nutrisse vontade de conhecer e entender como funciona uma sociedade que guarda tanta memória do Brasil, ainda está «conhecendo este lugar».
«[Estou] tentando reaver dentro em mim todas as minhas partes que encontrei em Portugal e que eu não sabia que existiam. Estranhei que as pessoas daqui, com quem conversei, não conseguiram enumerar muitos animais ou árvores da região. Diziam-me sempre cinco ou seis no máximo. Também achei estranho quando referiam a comida tradicional portuguesa e falavam sempre da batata. Eu trouxe uma espécie de panela de barro que fui enchendo com esses ingredientes e agora vou começar a cozinhar para entender que sabor que tem essas coisas que vi aqui.»
Baniwa descreve-se como um artista que tem como base de trabalho a pesquisa sobre aparecimentos e desaparecimentos de indígenas na História Oficial do Brasil, ao mesmo tempo que busca nas cosmologias e representações artísticas do seu povo, um possível método para partilhar conhecimentos ancestrais e salvaguardá-los. Num texto biográfico publicado recentemente, adverte o leitor: «Atenção: Sem Currículo Lattes ou laços académicos. Não me citem ou me liguem à formação universitária, nunca tive uma. Vivendo a Escola-Floresta e as Leis do Ser-Jaguar. Negação da busca por um sentido à vida, racionalização ou valores da modernidade ocidental, sejam valores morais, estéticos ou políticos.?Tanto faz, deixa acontecer. Sem nada, só possibilidades. A vida não é útil.»
Nas últimas horas em Coimbra, Denilson quis realizar uma performance. Comprou uma máscara e passeou pelo eucaliptal nas imediações do Instituto Pedro Nunes. O Pajé Jaguar transformou-se e surgiu o Pajé Lebre, que interagiu com o território: «Quis conversar com as entidades da natureza daqui. Se o que fiz em Coimbra aguçar algum novo pensamento sobre qual a relação com o mundo e quais as consequências das vossas ações em relação a esse lugar, já terá valido a pena esta minha visita», resumiu. Ao abrir a sua exposição no Colégio das Artes, Denilson se expressou em língua Baniwa, pertencente à família linguística Aruak: «Deepina waikaa, matsia inoka ikapa noikaalhe! Kattima nokapaka hia!»
Ele não traduziu. Fica o convite.









