Os clubes de leitura servem para mostrar que os livros não precisam de acabar na última página. Às vezes, aliás, a última página é apenas o começo de uma boa conversa. Tem sido assim desde janeiro, quando inaugurámos o nosso Clube de Leitura. Desde então, já lemos Donatella Di Pietrantonio, Kamel Daoud, Julian Barnes, Susana Moreira Marques, Rui Zink, Florence Knapp, Yiyun Li, Bruna Dantas Lobato, David Uclés, Rosario Villajos, Siri Hustvedt e Alice Brito — antes de chegarmos a Patrícia Portela, escritora, dramaturga e artista portuguesa, que trouxe a esta sessão uma presença especialmente generosa e tornou o encontro ainda mais significativo.

“Não há uma leitura única.” A frase resume o espírito da conversa no encontro em que recebemos, pela primeira vez, uma escritora. A sessão começou com Hoje, 3 de Maio, o romance da própria autora, e foi a partir daí que se abriu a conversa mais longa sobre o livro, o seu processo de escrita e a forma como o quadro de Goya atravessa a obra.

Dinamizado por Martha Mendes, o encontro decorreu no Pavilhão Centro de Portugal, com o apoio da Orquestra Clássica do Centro, que cedeu o espaço. A sessão foi gratuita, aberta a todas as pessoas que gostam de uma boa conversa literária, e contou ainda com lanche partilhado, num ambiente pensado para cruzar literatura e convivência.

Ao falar de Hoje, 3 de Maio, a autora explicou que o livro nasceu de um pedido muito concreto feito no contexto de uma bolsa literária em Madrid: queria passar um mês diante de um quadro e escrever a partir dele. “Quero falar sobre todas as personagens que estão no quadro. Quero descobrir quem são. Ou quero descobrir para mim quem são. Ou quero inventar quem são”, disse. Foi esse gesto de curiosidade pura que deu origem ao romance, pensado não como um romance histórico tradicional, mas como uma tentativa de olhar demoradamente para a pintura de Goya e descobrir, a partir dela, novas perguntas.

A autora insistiu várias vezes no valor do tempo e da observação. Contou que passou dias inteiros no Museu do Prado a olhar para o quadro, porque é isso que permite reparar: ver o vermelho da base, distinguir os rostos, interrogar o lugar das figuras e perceber como a imagem se organiza. “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”, recordou, citando José Saramago, e aproximando esse gesto da sua experiência no museu ao próprio espírito do clube de leitura. Olhar demoradamente, defendeu, é uma forma de conhecimento — e uma forma de desarmar a pressa com que hoje se formam opiniões.

Uma das ideias mais fortes da intervenção foi a de simultaneidade. O romance, explicou, quer mostrar o mesmo momento visto de várias perspetivas, porque “nós vemos muito depressa algo que acontece e temos muito depressa uma opinião sobre o que acontece”. Para a autora, esse movimento de multiplicar olhares é essencial, seja quando se pensa uma guerra, uma personagem ou um quadro. No caso de Hoje, 3 de Maio, esse princípio está presente em tudo: na estrutura, na voz narrativa, na forma como os acontecimentos se cruzam e na recusa de uma leitura linear.

Falou também da própria relação com Goya, confessando que o livro a levou a conversar com o pintor como se fosse uma presença viva. “Eu e o Goya somos amigos”, disse, num dos momentos mais marcantes da sessão. A frase, dita com humor, resume bem a maneira como o romance trabalha a fronteira entre a arte e a vida, entre o quadro e o mundo, entre a pintura e a literatura. Não se tratou de fazer uma pesquisa académica sobre Goya, mas de entrar numa relação de curiosidade e de intimidade com a obra, deixando que o quadro a transformasse enquanto escrevia.

A conversa foi também clara na recusa de certezas fechadas. A literatura, defendeu, deve continuar a abrir espaço para a dúvida, para a pergunta e para o desconforto. “Ler um livro que nos dê palmadinhas nas costas não serve para grande coisa”, disse, sublinhando que o objetivo do romance nunca foi confortar, mas inquietar. Nesse sentido, Hoje, 3 de Maio não procura resolver a violência do mundo: procura mostrá-la, distribuí-la entre quem mata, quem é morto e quem assiste, e obrigar o leitor a reconhecer que ninguém está de fora.

Outro dos temas mais fortes da intervenção foi a relação entre arte, guerra e responsabilidade. A autora chamou a atenção para o facto de Goya não pintar apenas vítimas e atiradores, mas também quem observa. Na sua leitura, o quadro e o livro colocam o leitor dentro da cena, não fora dela. “Nós fazemos parte do quadro no livro”, disse, retomando uma das ideias centrais da sessão: a de que a literatura não é um lugar de distância segura, mas um espaço em que também somos interpelados.

Falou ainda da luz, da sombra e da forma como o livro tenta fazer o mesmo gesto do quadro: iluminar o que está escuro para que se possa ver melhor. Esse gesto, disse, tornou-se hoje cada vez mais raro, num tempo em que tudo se quer rápido, visível e explicado. Em vez disso, propôs um outro modo de atenção, mais lento e mais exigente, em que imaginar, perguntar e escutar o testemunho dos outros continuam a ser atos fundamentais.

Foi só depois deste primeiro grande bloco da sessão que a conversa passou para A Viagem Inútil, de Camila Sosa Villada. A partir daí, o debate abriu-se a leituras muito distintas: houve quem sublinhasse a coragem do livro e a violência da rejeição, quem destacasse a importância da infância, da escrita e da procura de um lugar próprio, e quem manifestasse reservas perante a construção literária e a dificuldade em separar verdade, memória e ficção. A pluralidade de interpretações deu ao encontro uma intensidade particular, tornando visível aquilo que um clube de leitura pode ser quando as leituras não procuram consenso, mas debate, diálogo e escuta.

Nessa segunda parte, Patrícia Portela entrou também na dinâmica habitual do clube, participando na conversa sobre personagens, autoria, tema central e outros temas associados ao livro. O diálogo alargou-se assim para além da crítica imediata e ganhou uma dimensão mais comunitária: a de uma sessão em que leitores, mediadora e escritora se encontraram para pensar um texto a partir de várias margens.

No final da sessão, uma participante resumiu o que ali tinha acontecido: “É também sobre descobrir como os outros interpretam o mesmo capítulo, e como essas interpretações podem transformar a minha leitura. Num mundo cada vez mais acelerado, esta tarde deu-me um ritmo diferente. Obrigada, Patrícia.”

 

Share.

Autor

  • Vilma Reis

    Nasci em Belém, vivo em Coimbra e me reinvento constantemente entre projetos. Comecei na RUC – Rádio Universidade de Coimbra, vivi o ritmo acelerado da Rádio CBN na Amazónia e me apaixonei pela ponte entre Ciência, Comunicação e Sociedade durante a especialização em divulgação científica na Fiocruz. Agora, enquanto doutoranda em Ciências da Comunicação, continuo jornalista porque gosto de contar as histórias das pessoas. Para mim, histórias sonoras são as melhores, o que me levou a criar o podcast investigativo narrativo O Caso Boaventura. Escrevo guiões e faço pesquisas para cinema documental. Aprendo as regras do rugby com o meu filho e continuo convencida de que o melhor perfume do mundo vem do patchouli. Sigo fiel aos jornais de papel, às séries true crime para espairecer e à frase de Cláudio Abramo que melhor define o ofício: «O jornalismo é, antes de tudo e sobretudo, a prática diária da inteligência e o exercício cotidiano do caráter.»

Comenta esta história