Tinha quatro anos quando o avô morreu, mas é dele que tem uma das memórias mais doces. Quando o ia visitar a Penacova «era uma alegria porque a primeira coisa que fazia era encher-me de nevadas que eu comia alarvemente». Se calhar foi por isso que Pedro Renato ficou tão guloso. São esses pequenos momentos de alegria que guarda. Da mãe também. Esteve sempre presente, até hoje, mas a vida era corrida no Bairro Norton de Matos. Pedro não era muito sociável. A mãe mandava-o ir para a rua brincar com os outros miúdos, mas ele descia e voltava passados dez minutos. «Dizia que eles se tinham ido embora mas ela ia à janela e via que continuavam todos lá. Se calhar por isso é que enveredei pela música como autodidacta, sempre gostei mais de brincar sozinho.»
Tinha 13 anos quando descobriu a música a sério. Antes disso, há memórias associadas a momentos. «Lembro-me de ter uns três ou quatro anos e, com o meu pai – que era um bocadinho morcego, homem da noite, achava piada levar-me para as chamadas boates da altura -, estar na Escorpião, na Mealhada e ouvir a “10:15 Saturday Night” dos The Cure.» Ainda herdou uns discos. Chico Buarque, Deep Purple, Led Zeppelin – «algumas coisas menos boas também» -, mas ouvir música não era uma coisa recorrente lá em casa, nem há músicos na família de que se lembre.
O disco «Burning from the inside», dos Bauhaus, foi muito importante. «Sobretudo a faixa “Slice of Life”. Lembro-me de pensar: ‘Bolas, isto será assim tão difícil de fazer?’ E foi esse o motor que me fez levar a querer formar bandas e fazer coisas a sério.» Décadas depois presta-lhes tributo no primeiro disco do projecto que tem com a partner in crime Raquel Ralha, The Devil’s Choice, Vol. I, com duas versões de temas da banda inglesa.
«O processo de criação musical é sempre muito solitário» e a composição foi sempre a favorita. Quando lhe dizem que é guitarrista ou músico, responde que «devem estar doidinhos». «Nunca fui um bom executante, eu gosto de construir, de arquitectar, compor, construir algo de raiz e trazer algo de novo ao mundo.» A primeira banda chamava-se Pés para a Cova e tocavam rock «tanto quando conseguiam». Também houve os A Velar Brotero e os Lordose, com Antoine Pimentel. Entretanto tinha terminado o ensino secundário e uma pausa nos estudos para trabalhar numa loja de discos e juntar algum dinheiro serviu para comprar material.
Estava quase a entrar na Escola Superior de Educação de Leiria para estudar música quando «estouraram os Belle Chase Hotel». Tinha 20 anos. Estava na onda da música brasileira e exótica dos anos 50 e 60: Les Baxter, Arthur Lyman, Yma Sumac e Juan García Esquivel. Mike Patton, uma referência de longa data, Stereolab, Cardigans, Pulp, Jay-Jay Johanson, Divine Comedy, e em Portugal Antoine Pimentel puxava-o para a banda que formou com JP Simões e o resto é História.

Pedro Renato compunha e tocava guitarra nos Belle Chase Hotel. «Mas coitadinho de mim ao lado dos meus colegas executantes. O Luís Pedro Madeira e o Sérgio Costa são incríveis, podem pegar num instrumento pela primeira vez e tocam como se o fizessem há anos; o JP também é um bocadinho assim, apesar de ter um método mais caótico, é uma pessoa muito talentosa. Eu não tenho esse talento. Não sou humilde, mas tenho noção, por isso tenho de trabalhar muito mais do que os outros. Sou muito mais obstinado e determinado, trabalho muito mas na área que me dá prazer, que é a composição.»
Chegaram a dar 28 concertos num mês. Os estudos já eram carta fora do baralho. «Sempre tive essa necessidade ávida de aprendizagem musical, para poder falar com os meus colegas e transmitir as minhas ideias, mas perguntando fui aprendendo.» O êxito da banda terá sido «muito natural» mas «se um casamento com duas pessoas é complicado com 15 é terrível. Tenho recordações incríveis e quem me dera voltar lá às vezes, mas digo isto agora à distância, na altura com o cansaço às vezes dava vontade de matar ali dois ou três.»
Em casa, os discos chegavam ao tecto. 13 mil. Chegou a ter um negócio de venda com Rui Ferreira na antiga XM. «Ouvia muita música. A primeira coisa que fazia quando chegava a casa era ligar a aparelhagem e a última coisa que fazia antes de sair era desligá-la.» Da paixão pelo cinema nasceu o Azembla’s Quartet e Pedro começou a produzir para outros artistas como Maria Vasconcelos, Danae, Boitezuleika, The Legendary Tigerman e JP Simões. Nos últimos anos voltou aos projectos pessoais e com amigos, como Raquel Ralha & Pedro Renato & Raquel Ralha, Mancines e Animais.
Faltou rodar os palcos mas as parcerias continuam. «Não foi sempre assim, quando éramos miúdos havia aquela rivalidade do «eu sou destes e tu és daqueles», mas agora as pessoas são mais livres. A energia que tens é reflexo da energia que absorves do próximo e em Coimbra sempre nos espicaçámos muito uns aos outros, não no sentido de sermos concorrentes mas no sentido de fazermos coisas, tás a ver? Coimbra é uma cidade um bocado sui generis. Pelo menos não conheço nenhuma cidade em Portugal tão activa musicalmente, com tantas pessoas a fazer tanta coisa per capita. É bom, nesse sentido. É mau em termos de posicionamento, porque embora sejam só 200 km de Lisboa faz uma diferença incrível estar lá ou aqui em termos de cobertura mediática, de visibilidade.»
Seria difícil Pedro mudar-se de Coimbra com toda a família, se contarmos com a de quatro patas. «Por força do destino, há 10 anos foram-me lá parar a casa dois gatitos, que acabei por adoptar e acabei por me afeiçoar e desenvolver uma relação muito próxima com os animais.» Próxima é favor. Pedro alimenta e cuida de cerca de 50, diariamente, a maioria distribuída por colónias no centro da cidade. «Federico Fellini, Nara Leão, todos os nomes de artistas que possas imaginar eu tenho um gato qualquer com esse nome». Também gosta de pintar mas falta-lhe paciência e tem mais projectos musicais «apontados no livrinho». «Coisas minhas, tipo discos específicos com sonoridades e conceitos específicos.»
Vai fazê-los em Coimbra. Não nega que se pudesse viajar no tempo recuava e vivia uns anos em Hong Kong, mas agora desfruta do seu «cantinho do mundo, descansado, a trabalhar com alguma qualidade de vida». Já não liga a aparelhagem quando chega a casa. «Ouço música, estou atento, mas às vezes chego e penso: ligo a aparelhagem, vejo um filme ou fico no silêncio?» Lembra-se de uma entrevista que leu há uns 20 anos a outro músico favorito: Tom Zé. «Ele dizia que não ouvia música porque a música para ele era trabalho e tentava manter-se livre de influências. Fez-me muita confusão. Como é que é possível um músico não ouvir música? Hoje confesso que percebo do que é que ele estava a falar.»
