«Este edifício era, até ao dia 28 de Abril [de 1974], a sede da Acção Nacional Popular, o partido único do Estado Novo», conta o investigador Pierre Marie, junto à porta vermelha junto ao restaurante O Pátio, no Pátio da Inquisição. «A partir de 28 de Abril, passa a ser a sede do movimento democrático de Coimbra, coligação anti-fascista que organiza a primeira grande manifestação do dia 26», continua. «E na foto vê-se um cartaz onde diz: “Esta casa agora é do povo”», acrescenta Eduardo Albuquerque.

Pierre e Eduardo integraram o projecto 25AprilPTLab – Laboratório interativo da transição democrática portuguesa, no Centro de Estudos Sociais e no Centro de Documentação 25 de Abril da Universidade de Coimbra (CD25A), e acabam de lançar a Cooperativa de História Pública Rebobinar que se estreia fora do ecrã do computador ou smartphone com a recuperação do roteiro criado há três anos anos em forma das visitas guiadas 25 de Abril em Coimbra.

Nos dias 24, 25, 29, 30 de Abril e 1 de Maio, em diferentes horários, são relembrados os eventos que ocorreram durante o 25 de Abril e os seus ecos revolucionários ao longo dos tempos, através de uma visita a pé de cerca de 2h30 associada a documentos históricos, num convite à descoberta dos eventos do processo revolucionário na cidade de Coimbra.


A proposta é de rebobinar pelas ruas da cidade, voltando atrás no tempo, ouvindo os gritos de liberdade no cerco da sede da PIDE, as manifestações de trabalhadores pela cidade e outras memórias da Revolução dos Cravos. Porquê? Porque «para muitos o 25 de Abril é algo muito distante, é o Dia da Liberdade, é um feriado, é Lisboa, é Salgueiro Maia, mas falando a nível local conseguimos aproximar o 25 de Abril deles», explica Pierre Marie.

O investigador francês, residente em Coimbra há 11 anos, é doutorado em História Contemporânea da Universidade de Coimbra e da Universidade de Caen – Normandie (França) com a tese L’éducation populaire pendant la Révolution portugaise : animateurs et associations d’éducation populaire à Coimbra (1974-1986). Interessa-lhe reabilitar a história pública da cidade e não só, defendendo que é preciso tirar a História das quatro paredes das escolas, das universidade e da investigação porque «é fundamental para a cidadania, para a participação, para conhecer o passado e depois reflectir».


«Além de nos ouvirem, as pessoas podem ver o que aconteceu e chegar à sua própria conclusão, entre o que descrevemos e o que viram ou ouviram», continua Eduardo Albuquerque. Formado em História e Informática e com experiência na produção de eventos como a Feira Medieval e outras teatralizações relacionadas com a história da cidade, é a cargo do jovem de 32 anos que fica o desenvolvimento dos conteúdos multimédia, à semelhança do que aconteceu com o projecto de divulgação das colecções do CD25A Fora da Caixa.

«Percebemos que havia necessidade e mercado para mostrar a história de outra forma, através de conteúdos modernos, com um discurso mais informal e chegar a outros públicos, sem ser o público científico. Além disso, o 25 de Abril, por exemplo, é uma História recente mas muitas vezes os edifícios já foram transformados em coisas completamente diferentes, como o edifício da PIDE que agora é um hotel», explica Pierre Marie. «E a História está em todo o lado», continua, «está nos edifícios, na gastronomia, nos discursos e achamos que há um grande desconhecimento sobre os porquês».

E nisto, levantamo-nos e vamos descobrir um exemplo.

Mural revolucionário

A história de Coimbra está repleta de camadas e elas explicam, entre outras coisas, a forma como a cidade está organizada e foi vivida pela população. As visitas guiadas 25 de Abril em Coimbra começam na Rua Antero de Quental, junto ao edifício da antiga sede da Polícia Internacional e de Defesa do Estado/Direcção Geral de Segurança (PIDE/DGS) – actual hotel The Luggage – e ao Monumento ao 25 de Abril. Continua pela Praça da República, Avenida Sá da Bandeira e Avenida Olímpio Nicolau Rui Fernandes onde, entre os pés e pernas de centenas que ali circulam diariamente, espreitam pistas do Dia da Liberdade.


Por baixo dos azulejos de Amílcar Matias, na longa parede que se estende à frente do Mercado D. Pedro V e junto à actual Escola Jaime Cortesão, morou em tempos um enorme mural pintado logo a seguir às grandes movimentações sociais do 25 de Abril de 1974. Restam alguns cravos, uma pequena casa e a sigla PCP. «Há pessoas que se lembram deste mural. Isto é um bom exemplo porque as pessoas passam, ninguém dá nada por isso mas a obra mostrou o que era a vida da cidade naqueles anos. Ela está lá», aponta Pierre Marie.

Foto partilhada por Armando Alves Martins no site Amigos Coimbra 70
Parede actualmente com azulejos de Amílcar Matias


Não há qualquer indicação do que aconteceu nesta parede. Pierre Marie e Eduardo Albuquerque apontam para a inexistente ou inadequada informação em lugares, edifícios ou monumentos da cidade, e destacam o caso do próprio Monumento ao 25 de Abril na Antero de Quental que, nas palavras de Marie, «não se conhece, não se percebe e tem poemas assinados de Sofia (sem o Mello Breyner), Miguel Torga, Saramago e Natália Correia. Não diz nada sobre a revolução, nem sequer 25 de Abril. O que é que ele diz? Zero. E na Praça Heróis do Ultramar, na Solum, há uma estátua que é a negação da guerra colonial. Não digo que seja retirada mas falta uma placa a enquadrar.»

Se fizeram o roteiro com Pierre Marie em 2019, avisamos que agora há novidades. «Tentámos focar-nos mais nas histórias de. Achámos que era muito factual e com muitos dados, agora vamos focar-nos em temas para tentar transmitir as mudanças. Também será novo trazer mais documentos históricos e tipologias. Há 3 anos, durante o roteiro o investigador mostrava fotos mas agora os guias ilustram o passeio cultural com sons e vídeos, para que os participantes sintam «a História mais viva, mais interactiva, não parecer que é algo distante e dar cor à imaginação das pessoas», descreve Eduardo Albuquerque. As visitas são gratuitas, uma vez que foram financiadas pelo CD25A, e são de inscrição obrigatória através do email geral@rebobinar.org ou ligando o 915 809 163. O número máximo é de 30 pessoas por visita.


A viagem no tempo continua até ao Pátio da Inquisição, Terreiro da Erva, edifício da Câmara Municipal de Coimbra e Largo da Portagem. «Já não estamos no tempo de José Hermano Saraiva, que ainda é promovido como uma forma de acesso à História no site da RTP», conta Eduardo Albuquerque. É a programas como o do antigo apresentador e antigo Ministro da Educação Nacional que o guia atribuiu a má fama de que padece a disciplina muitas vezes encarada como enfadonha, além da «dificuldade dos jovens de hoje em dia em «acreditar e participar na vida política» em Portugal.

«Queremos combater aquele discurso muito comum de que em Coimbra não há nada, ou em Coimbra só há universidade aquela frase que eu detesto que é: Coimbra tem mais encanto na hora da despedida.»

Pierre Marie, investigador de História Contemporânea

«É mais fácil chegar a casa e não pensar no que está a acontecer porque parece que és só tu a lutar contra a corrente, é como se não houvesse aquela força. Do 25 de Abril para a nossa geração, o que sentimos é que ela deixou de acreditar, que já não há vontade de ir para a rua e mudar o rumo», confessa. Pierre Marie nota que se trata de dar as ferramentas que depois cada um processará da sua forma e de acordo com o seu percurso pessoal, mas além de informar há outra intenção clara: «Aqui queremos demonstrar que foi possível, que pessoas juntaram-se e fizeram com que fosse possível. A História não está acabada. Tal como no vosso projecto, a Coimbra Coolectiva, queremos combater aquele discurso muito comum de que em Coimbra não há nada, ou em Coimbra só há universidade e aquela frase que eu detesto que é: Coimbra tem mais encanto na hora da despedida.»

Memória e enquadramento


Pontapé de saída de um ciclo de visitas na Alta e Baixa, a Rebobinar tem na calha visitas a uma série de ruas que acham que merecem ter uma visita guiada, com uma lógica espacial e não necessariamente cronológica. «Queremos mostrar que ao lado do Colégio antigo pode haver uma loja hiper moderna ou algo onde aconteceram coisas importantes. Tornar as pessoas mais activas criando uma identidade colectiva, algo em que se possam interessar e orgulhar», atira Pierre Marie.

«Como é que se passa a emoção, a crença, a esperança? É a história oral que permite isso», atira Pierre Marie enquanto caminhamos pela Baixa. «Tem de se assumir que a História é complexa e que isso não é necessariamente mau. O problema é quando é muito simplificada ou reduzida, há simplificações que não tornam as coisas mais simples.» Desafiar a comunidade a descobrir por que é que tem determinados costumes, por que é que as ruas têm determinados nomes, quais foram as vidas de determinados edifícios, pequenas histórias que fazem parte da história colectiva que muitas vezes se perde ou é adulterada, é essa a proposta da Rebobinar. E, além disso, «combater o uso da história para criação de fake news, o mau uso da História, porque há muita gente hoje em dia a aproveitar-se dela para justificar certas coisas que ou não são justificáveis ou nem sequer são verdade», diz Eduardo Albuquerque.


A Rebobinar está no Youtube, onde já leva a cabo um outro projecto de vídeos curtos chamado 1972, em que vão buscar meia centena de datas que comemoram 50 anos este ano. Íris Maria eleita Miss Portugal ou Estreia do Filme O Padrinho são alguns deles. Para o futuro, prevêem publicar mini-documentários e mini-séries com a própria História a impor o seu formato. O Spotify será possivelmente a terceira rede social.

«Há muita gente que diz que não gosta de História mas toda a gente gosta de filmes, de jogos de vídeo, de literatura, de viagens, de conhecer a cidade, e tudo ao fim e ao cabo é História. Ela está em todo o lado mas não necessariamente valorizada. Há muita gente que diz: “Gosto da História mas não consigo decorar datas.” Como se a História fosse apenas isso, mas há uma dimensão crítica e de interpretação muito interessante», diz Pierre Marie. Na Rebobinar, acreditam que o digital pode ser o começo para criar a vontade de descobrir os lugares e objectos in loco, mas não os substituem.

«O documento histórico continua a ser algo mágico, e por documento quero dizer muita coisa, até um edifício» nota o investigador, que admite que «Coimbra tem aquela questão de grande aldeia que muita gente detesta mas que eu acho espectacular.» Eduardo Albuquerque acrescenta: «Apesar disso parece que há as capelinhas e as pessoas não se unem, não vão ao encontro.» Os colegas, cujo o coração está no contar histórias, começam agora a caminhada de propor a instituições trabalhos personalizados, por contratação, de contar a história dos locais. «Quando a Coimbra Coolectiva fizer 50 anos esperamos estar lá para contar como tudo aconteceu.»

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Jornalista

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