«A questão não é quem está no poder, é se está no poder para servir ou para ser servido», atira Carlos Carvalheiro. «Eventualmente é normal que o poder crie mecanismos de perversão e que as pessoas a dada altura comecem a criar uma inteligência à sua volta que acaba por defendê-los, foi provavelmente o que aconteceu com Salazar, com Hitler, com Estaline, com os grandes ditadores», continua, à mesa connosco numa das imponentes salas do Tribunal da Relação de Coimbra. À nossa volta pinturas de homens sérios, cadeiras que mais parecem tronos e um gigante candelabro. «É o próprio regime que cria mecanismos para eles se manterem no poder e acabarem por ser menos sujeitos e menos protagonistas da mudança que muita vezes promovem».

Podíamos estar a conversar sobre as notícias no jornal de hoje mas é sobre uma peça escrita no século XVI, por William Shakespeare. Ricardo III é levada à cena por estes dias um pouco por todo o edifício do Tribunal da Relação de Coimbra, na Rua da Sofia, pela Fatias de Cá. Carlos Carvalheiro é encenador e protagonista daquela que foi uma das primeiras obras do dramaturgo quinhentista, que nos coloca perante um herói que desperta simultaneamente fascínio e horror, através de um texto actual e pleno de vitalidade sobre a ambição e os jogos de poder. Ricardo, avô de Isabel I, não nasce para ser rei mas fixa os olhos na coroa e não olha a meios para a conquistar.


«É costume tratar Ricardo III como um monstro, o mal em si próprio, se ele não existisse tudo estava bem na nossa sociedade. Eu sempre achei que isso era mais propaganda do que outra coisa, por isso encontrámos uma forma de Ricardo III não precisar de ser defeituoso para ser mau, porque isso era quase uma boa desculpa. É, como costumamos dizer: um filho da puta. E quem não é? Trata-se de mostrar o grau de perversão, de corrupção e de oportunismo de todo o poder, conforme os seus interesses», explica Carvalheiro, no intervalo dos ensaios, junto ao tablet onde aponta a auto-avaliação atirada pelo elenco. À volta do encenador, mais de uma dezena de actores, vestidos com longos trajes de veludo, diferentes idades e um entusiasmo infantil no rosto.

«Quando pegámos no Ricardo III tinha a ver com essa visão, essa intenção de mostrar o que é que se passa nos mecanismos de poder e que não há nenhum que é totalmente bom nem totalmente mau. Até tenho a noção de que quem está no poder se sujeita a ser mal tratado por quem quer que seja, às vezes sem razão. É uma figura que a determinada altura está sujeita às grandes críticas e costuma-se dizer que ninguém é capaz de agradar a gregos e troianos.» Ficamos com esta e vamos assistir ao ensaio na sala ao lado. Estão no IV acto da narrativa, que trata um segmento da história inglesa que é o da ascensão e queda de Ricardo III. A disputa dinástica pelo trono de Inglaterra passa-se na segunda metade do século xv e opõe as casas de York e Lancaster na chamada «Guerra das Rosas». Ricardo, duque de Gloucester no início, torna-se rei a partir do meio da acção mas não sem elevados requintes de malvadez e imoralidade a envolver morte, traição e casamento por interesse.


A Fatias de Cá existe há 42 anos. Começou em Tomar e, à medida que foi evoluindo, foi alargando os centros de produção. Por volta dos anos 90, criou o de Coimbra. «Aqui começa com uma professora do pré-escolar que queria fazer um teatro. Pediu ajuda, foi dada e esses miúdos, de 5 ou 6 anos, acabaram por fazer A Tempestade, para a qual foram precisos adultos. Depois de fazer a peça algumas vezes e com bastante sucesso, no Museu de Machado de Castro, surgiu a possibilidade de avançar com outras. A Inês de Portugal na Quinta das Lágrimas, também com muito sucesso, faz 20 anos de carreira. Provavelmente tem a ver com a temática, com o espaço e o facto de ter jantarada», afirma Carlos Carvalheiro.

Na perspectiva da companhia, aquilo que movimenta os grupos de teatro é o espaço. Museu de Machado de Castro, Quinta das Lágrimas, Criptopórtico, ruínas de Conímbriga, Convento de Cristo foram alguns dos espaços onde actuaram. No último, fizeram O Nome da Rosa durante uma década. O elenco inclui amadores e profissionais, a maioria dos mais velhos ligada ao ensino e a maioria dos mais novos descendente dos mais velhos. As contas são a chamada uma «parte cómica» – sem lucro e com muito amor à camisola. Será mesmo? «Já não sei bem. Tem a ver com uma necessidade intrínseca de quem se dedica a estas áreas artísticas de contar alguma coisa às pessoas, depois isso acaba por ser, do ponto de vista do colectivo, uma forma de…precisar de ser feito.» Oxigénio? «Parecido com isso. Normalmente acaba-se as peças com mais energia do que quando se começa.»


A relação com o Tribunal começa por causa de um dos actores, professor num colégio da cidade, que precisava de teatro para uma comemoração. Apresentaram aqui A Utopia, Lear, Ricardo III e até obras mais polémicas, como as filmagem de parte das cenas de um filme baseado numa peça sobre Salazar e de outro sobre as Brigadas Vermelhas. «A ideia de vir para aqui tem a ver com essa vontade de utilizar estes espaços tão bonitos e prometedores», explica Carlos Carvalheiro. O encenador diz que Luís Azevedo Mendes, Juiz Presidente do Tribunal da Relação de Coimbra, «é um homem muito empenhado em teatro e fez uma tentativa de ligação com a autarquia para estimular a actividade cultural na Rua da Sofia.» E a confiança é total. A companhia, dos actores aos técnicos, ciranda de sala em sala, corredor em corredor, do rés do chão ao incrível terraço, passando pelo jardim interior, sem qualquer limitação. «Não é vulgar esta relação.»

Maria João Reis ajeita o vestido. É enfermeira. «Sabe-me tão bem estar aqui a fazer uma coisa completamente diferente do que estava a fazer ontem à mesma hora», comenta, antes de entrar em cena. O filho, Francisco, acompanha-a e ao marido desde os 7 anos. O facto de a peça não ser apresentada no tradicional palco não parece intimidar. «Torna-se mais simples porque sentimos a respiração das pessoas», atira o encenador. «A adrenalina levanta mais. A estreia nunca sabemos muito bem como é, mas as pessoas estão envolvidas e todas na primeira fila.»


Do princípio ao fim do espectáculo, o público acompanha os actores à medida que a história acontece. Se num momento estamos na entrada, no outro estamos nas escadas, na sala de julgamentos e finalmente no terraço, com a cena a decorrer lá em baixo, no claustro renascentista e pátio ajardinado do edifício de 1549, com projecto do arquitecto Diogo de Castilho, que foi Colégio Universitário de S. Tomás de Aquino e pertenceu à Ordem de S. Domingos.

Vale a pena prestar atenção ao chão, ao tecto e às paredes porque o inusitado cenário, que sofreu várias alterações ao longo dos séculos e que hoje em dia apresenta uma autêntica lição de História de Portugal inspirada nos Lusíadas através de painéis cerâmicos decorativos ao autoria do conhecido pintor ceramista Jorge Colaço, fabricados pela Cerâmica Lusitânia.


O problema desta característica móvel do espectáculo é o facto de complicar a rentabilização e a companhia não tem apoios. O facto de incluir uma merenda shakespeariana (que não nos foi revelada), permite aumentar o preço do bilhete e, segundo o encenador, «que as pessoas estendam a sua deslocação no lugar e no tempo que a peça convoca». Mesmo sendo um intervalo para comer, são criadas as condições para que se mantenham concentradas, além do subirem escadas e percorrerem todo o espaço envolvente.

Perguntamos a Carlos Carvalheiro como é que a comunidade pode ajudar e responde-nos, peremptório: «O melhor de tudo é mesmo as pessoas virem ver teatro e depois ajudarem a divulgar. O mais caro de tudo é fazer a chamada propaganda.» No final de cada espectáculo, a companhia pede público para preencher uma espécie de inquérito de satisfação. Depois de uma pausa forçada pela pandemia de Covid-19, o elenco não podia estar mais feliz com o regresso, até porque para a actual formação e excepção feita a Carlos Carvalheiro, trata-se de uma estreia.



«O meu cavalo! O meu cavalo! O meu reino por um cavalo!». Conhecem a expressão? Vão ver o espectáculo e percebem de onde vem e porquê, numa cena impactante junto ao tanque de água, que ironicamente é uma possível evocação simbólica do Jardim do Éden e da Fonte da Vida. Depois de Lear, Ricardo III estreia no Tribunal da Relação de Coimbra no dia 5 de Março, com lotação esgotada. Os bilhetes custam 22,22€ e podem reservá-los através do email reservas@fatiasdeca.net ou por telefone ligando 960 303 991. As sessões são aos sábados, às 16h16, para já por tempo indefinido.

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Jornalista

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