O processo começou em 2017 e ganhou forma em 2018. Coimbra tornou-se candidata a Capital Europeia da Cultura, uma distinção que foi criada em 1985 pela Comissão Europeia e que é considerada o maior evento cultural da Europa. Dezenas de cidades já o acolheram, entre elas Atenas, Florença, Amesterdão, Berlim, Paris, Madrid, Copenhaga, Estocolmo, Bruxelas, Praga e Istambul. Em Portugal: Lisboa (1994), Porto (2001) e Guimarães (2012).

Desenhada para celebrar a riqueza cultural e diversidade da Europa e atribuída a duas cidades de dois países diferentes todos os anos, implica que essas cidades desenvolvam uma intensa programação cultural que leve uma nova energia criativa ao território e região onde se inserem, renovando o capital turístico e contribuindo para um maior orgulho e sentido de pertença dos seus habitantes.



Em 2018, o então Presidente da Câmara Municipal de Coimbra, Manuel Machado, nomeou um Grupo de Trabalho para se ocupar da Candidatura de Coimbra a Capital Europeia da Cultura 2027. O grupo teve como coordenador o mágico e empresário Luís de Matos e era constituído por Nuno Freitas, médico e então presidente do PSD Coimbra, Manuel Rocha, professor, deputado municipal da CDU e antigo director do Conservatório de Música de Coimbra, Luís Menezes, então vice-reitor da Universidade de Coimbra (UC) para a área do turismo, António Pedro Pita, professor e antigo director regional da Cultura do Centro e Cristina Robalo Cordeiro, professora e antiga vice-reitora da UC. Rui Rocha, então presidente da distrital do PSD de Leiria, chegou a integrar mas abandonou o grupo de trabalho.


Alojada na página oficial online, o município foi disponibilizando informação sobre a candidatura que teve o slogan «Correntes de mudança». Nos últimos quatro anos, a candidatura foi trabalhada concorrendo com outros onze municípios portugueses candidatos: Aveiro, Braga, Évora, Faro, Funchal, Guarda, Leiria, Oeiras, Ponta Delgada, Viana do Castelo e Vila Real. Soube-se no passado dia 11 de Março que Coimbra não passou a fase de pré-selecção e Ponta Delgada, Braga, Aveiro e Évora são as actuais cidades finalistas a Capital Europeia da Cultura em 2027.

Por que é que Coimbra deixou a corrida? Acaba de ser revelado no relatório de pré-seleção elaborado pelo painel de jurados e publicado pela organização da competição:

Coimbra

«O programa foca-se (metaforicamente) em cinco correntes que interagem e movem a cidade em cinco direcções, unindo-se numa Corrente de Mudança. O conceito está atento à identidade local e é coerente com a necessidade de combater os clichés que estigmatizam a cidade. Pretende criar uma centralidade para a cidade e região e rejuvenescer a cidade. A Corrente está a ser identificada como «a terceira margem do rio»; «o espírito do café»; «livros & pedras»; «descobertas» e «janelas para o mundo». O tema tenta construir sobre o passado da cidade para reconstruir o seu futuro, o que é uma
abordagem programática valiosa. A candidatura engloba 19 municípios.

Contribuição para a estratégia a longo prazo da cidade:

  • Do livro da candidatura, não ficou claro se a cidade tem uma estratégia a longo prazo aprovada pela Câmara Municipal. Na sessão de perguntas e respostas, o painel foi informado de que existe um documento assinado por unanimidade há três anos.

  • Do livro da candidatura e da sessão de perguntas e respostas, não ficou claro como é que a estratégia será implementada. O calendário para a estratégia cultural não é claro, nomeadamente se irá além de 2027.

  • A actual estratégia cultural alinha-se com a Agenda 21 para a cultura e traduz-se em quatro acções. A forma como o programa CEC 2027 está integrado na estratégia cultural é descrita de forma imprecisa e ficou pouco clara para o painel.

  • Os planos de monitorização e avaliação do impacto do título ainda não estão desenvolvidos; no entanto, foi indicado pela equipa, na sessão de perguntas e respostas, que haveria um plano de monitorização e avaliação caso a cidade passasse à segunda fase do concurso, e que há uma empresa externa empenhada em trabalhar nesse sentido.

  • Os indicadores são identificados e incluem factores ambientais, climáticos e urbanos além de indicadores culturais, uma vez que o objectivo é conseguir uma transformação da cidade e não se limitar ao desenvolvimento cultural.

  • O esboço dos impactos desejados é adequado na fase de pré-selecção — embora não haja informação suficientemente convincente sobre a forma como esses impactos se podem materializar.

  • Acresce que há apenas uma referência a alguns indicadores quantitativos. Não é claro se haverá lugar a uma avaliação qualitativa. Também não é claro se a Universidade está envolvida em alguma destas questões.

Conteúdo cultural e artístico:

  • A abordagem do programa é boa com as cinco correntes que se juntam para contar a história da cidade. As três áreas que sustentam o programa incluem a educação/formação, ecológica e social. É uma boa abordagem estratégica para o desenvolvimento do programa. Cada uma das correntes do programa destaca acções, resultados, impacto e parceiros. Este é um elemento sólido na proposta.

  • O projecto Virtual Coimbra (Coimbra Virtual) é excelente. Baseia-se nas aprendizagens da entrega híbrida durante a pandemia. Isto é algo que poderia ser mais desenvolvido noutras áreas do programa, tornando-o assim um programa mais forte em termos de experiência do público. Há também uma série de bons exemplos tanto de projectos online como híbridos, garantindo boas experiências e acesso de público que não pode viajar.

  • No entanto, o programa encontra-se numa fase muito precoce de desenvolvimento, apesar de estar num bom caminho, tendo em mente o público e desenvolvimento de capacidades. Na fase actual do programa, existem planos globais, listas de objectivos e ideias de acção. Nesta fase do concurso era
    necessário um programa mais compacto com descrições de conteúdos e parceiros de cooperação a nível local, nacional e internacional.

  • Acresce que o programa carece de diversidade no que diz respeito a géneros e formas de expressão.

  • O programa necessita ainda de muito trabalho para estar claramente definido e desenvolvido em toda a sua escala, apresentando objectivos e resultados esperados.

Dimensão europeia:

  • Falta ao desenvolvimento conceptual do programa uma dimensão europeia profunda, que é a raison d’être de uma Capital Europeia da Cultura.

  • São mencionados temas europeus comuns como as alterações climáticas, a pandemia, a sociedade civil e a diáspora do património português; contudo, o painel não vê como isto se traduz em projectos específicos de cooperação e co- criação com diversos parceiros, organizações, instituições e redes locais, nacionais, europeus e internacionais.

  • São indicados alguns parceiros internacionais, mas não é claro como foram seleccionados, nem a natureza da cooperação ou o nível de compromisso nesta fase.

  • Pede-se a uma cidade candidata que coopere com outras CEC. O livro da candidatura menciona uma lista de CEC e expressa uma intenção de cooperação. No entanto, não é claro com que cidades CEC é que Coimbra 2027 esteve em contacto e o que foi acordado em relação a cooperação e co-criação.

  • O painel esperava ver uma colaboração mais concreta com parceiros internacionais, mesmo nesta primeira fase do concurso, uma vez que a construção de relações internacionais e de ideias de co-criação de projectos é muito demorada e não se pode limitar ao tempo hipotético entre as duas fases do concurso; o painel duvida que Coimbra 2027 fosse capaz de levar a dimensão europeia ao nível exigido a uma CEC no tempo que falta para a selecção final.

  • Uma dimensão europeia pode ser sobre o que a Europa pode contribuir para uma CEC, mas é também sobre o que uma CEC pode contribuir para a Europa. Da candidatura, não ficou claro ao painel como Coimbra 2027 iria abordar este último aspecto.

  • Embora a cidade manifeste grande interesse em visitantes internacionais, não existe uma estratégia clara apresentada na candidatura para atrair o interesse de um vasto público europeu e internacional.

Alcance:

  • Parece, pelo livro de candidatura, que o programa foi desenvolvido sem um forte compromisso comunitário, embora o painel compreenda que, por exemplo, houve lugar a reuniões de trabalho com vários agentes (actores políticos, representantes institucionais e aqueles «cidadãos de Coimbra que espontaneamente quiseram falar ou foram convocados pelo GT»), bem como algumas sessões públicas.

  • Houve chamadas às mentes criativas da cidade para ideias, mas não ficou claro para o painel se e/ou como é que estas chamadas influenciaram efectivamente a programação. O painel ficou preocupado que, sem a abertura de concursos para propostas de projectos específicos na fase de pré-selecção, não haja tempo suficiente para envolver eficazmente a comunidade local para a fase final do concurso.

  • É reconhecida uma vasta gama de grupos comunitários e nacionalidades marginalizados, o que constitui um elemento positivo. No entanto, não há qualquer esclarecimento sobre a forma como serão envolvidos a nível prático.

  • O painel ficou esclarecido sobre o grau de interligações regionais eficazes / estratégias e dinâmicas culturais na região envolvente.

Gestão:

  • A percentagem do orçamento anual da cidade para a cultura nos últimos cinco anos é relativamente baixa, 3,5%, e tem flutuado para cima e para baixo, sem mostrar um padrão claro. No entanto, o painel toma nota da intenção declarada de aumentar o nível de despesas culturais para os anos seguintes ao do título CEC.

  • O orçamento operacional global parece realista e sólido, esperando-se contribuições razoáveis da Cidade e da Região, respectivamente de 8,2 milhões de euros e 4 milhões de euros. Particularmente a parte prevista do orçamento atribuída às despesas do programa, a 70%, é encorajadora.

  • Será criada uma Fundação para a realização da CEC em Coimbra, mas apenas foram dadas considerações genéricas sobre o modelo concreto de governação.

Capacidade de execução:

  • O Pacto para a Cidade, aprovado por unanimidade, é mencionado como uma garantia política do projecto CEC. A Comunidade Intermunicipal da Região de Coimbra (CIM-RC) também aprovou uma resolução de apoio à candidatura de Coimbra — assinada por 19 municípios. O painel, no entanto, não ficou com certezas sobre as garantias financeiras de todos os parceiros.

  • Coimbra tem experiência em acolher eventos de grande escala.

  • O património da cidade em termos de acessibilidade é bom, assim como a sua capacidade de absorção no que diz respeito ao alojamento turístico.

Conclusão:

O painel recomenda que a candidatura de Coimbra não prossiga para a fase de selecção final. O painel considera a oferta global subdesenvolvida nesta fase do concurso e não está convencido de que Coimbra 2027 consiga levar o programa ao elevado nível artístico e dimensão europeia exigidos por uma CEC no curto espaço de tempo que resta para a selecção final. O conceito da proposta funciona bem. Está atento à identidade local e é coerente com a necessidade de combater os clichés que estigmatizam a cidade. Visa criar uma centralidade para a cidade e região e rejuvenescer a cidade, que tem um grande potencial. A proposta contém muitos elementos excelentes que, com mais tempo,
poderiam ter sido desenvolvidos num interessante programa CEC. As experiências adquiridas e as redes construídas tanto a nível nacional como internacional nesta fase de pré-selecção poderão revelar-se muito benéficas se se optar por procurar uma oportunidade alternativa. O painel recomenda que a cidade de Coimbra construa mais sobre o bom trabalho que iniciou e continue a sua viagem cultural.»

Fonte: ECOC PT 2027

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