Os primeiros rumores sobre a Roda o Centro (RoC) chegavam a este vosso repórter numa conversa sobre dança e os locais que a permitem, com esses movimentos mais soltos e livres, contemporâneos talvez, onde os dançarinos se deixam contagiar pelos grooves de diferentes linguagens musicais. Uma possível fuga à tradição «pé-de-chumbo» da restante geração. Os registos de vídeo e imagem que surgiam na página de Instagram da RoC mostravam um universo inverossímil, quase secreto, que já juntava uma multidão. Esse mundo mora no Skate Park de Coimbra, sob o viaduto da ponte Rainha Santa Isabel e o seu eixo é um campo de batalha pela palavra, pela rima.
Visitámos o «templo» da RoC antes da hora marcada. Encontramos Luís Vieira, um dos elementos do movimento, responsável pelo início da marcha que a cada semana ganha mais atenção e visitantes. Todos o conhecem por Shark. «Eu sou da zona do Porto e o pessoal aqui de Coimbra queixava-se que não existia nada fortificado a nível de cultura do hip hop. Estavam sempre a dizer que era muito difícil juntar o pessoal da Figueira da Foz e de Coimbra. Já tinha visto rodas orgânicas na minha vida, duas ou três, que se formaram com pessoal na rua, quase todas em Lisboa, mas uma delas foi em Ançã! Sabes onde é que é Ançã? Estás a entender? Eu vi aquilo e comecei a chorar. Fiquei maravilhado e a pensar como é que o pessoal diz que não é possível em Coimbra se até em Ançã fazem uma roda?».
Shark é body piercer e vive em Coimbra há cerca de seis anos. Este tempo permitiu-lhe colecionar contactos e não deixar ninguém de fora na hora de mobilizar esforços para criar o ritual semanal que envolve vários grupos que pertencem à cultura do hip hop, da poesia ao rap, beatbox, dança, DJ, produção musical e graffiti.

O rapper, beatmaker e produtor Gonçalo Guiné foi um dos primeiros a responder ao apelo de Shark para disponibilizar beats – suporte musical indispensável às rimas dos MC (mestres de cerimónias ou rappers) nas rondas de batalha. Um dos nomes conhecidos do hip hop na cidade encontrou uma geração de entusiastas mais nova que desconhecia. Assume o papel de mentor, ajuda os novatos das rimas em forma livre também a gravar faixas, preparar álbuns, gravar videoclipes, sem esquecer a importância de desenvolver sentido conceptual e estético do que se faz e quer fazer musicalmente. «O meu papel é oferecer-lhes aquilo que eu com a idade deles não tinha. Organizo os treinos. Nunca fui um gajo do freestyle, muito menos das batalhas e agora sou “o saco de boxe”, levo porrada e no próximo treino estou cá outra vez, a tentar criar aquele sentimento de partilha e pertença», conta Guiné.
Coimbra, território neutro
A «missa», como é apelidado o encontro das quintas-feiras, às 21h, junta «peregrinos» de outras paragens. Coimbra é território neutro que chama MC do sul e do norte do país, onde todos são bem recebidos.
Melro e Martim vêm de Espinho. São alguns dos visitantes que se tornaram, com o passar das edições, residentes da roda. «A partir do momento que vemos rodas a serem criadas, começamos a procurar onde dá para desbloquear, como se fosse um jogo – onde é que posso ir no mapa português, onde é que as coisas estão a mexer?», explica Melro.
Com raízes no Brasil, este formato de batalha de rimas ganhou popularidade e expansão em Portugal, com rodas a surgir em diferentes pontos do país. O próprio Martim, a liderar o ranking das batalhas em Coimbra, começou por assistir a esses desafios brasileiros na internet. Durante a pandemia, começou a testar as capacidades de criar rimas, continuou durante o período de estudos no estrangeiro ao abrigo do programa Erasmus e depois descobriu que havia uma roda na própria cidade, Espinho. A Roda o Centro é a predilecta. Garante que já não a vai deixar.
Comunidade e cultura de rua
As noites de batalha começam com um pequeno momento dedicado à poesia, não fosse a palavra soberana no ringue das rimas. Rute, ou «Intermediária» de nome artístico, é rapper e lê alguns dos seus versos todas as semanas, antes de passar à função de júri oficial das batalhas, que avalia a velocidade de resposta, capacidade de gerir emoções e inovação.
Betina, poeta e documentarista, integra o núcleo e grava todas as edições da roda, acompanhada por André Maia na fotografia. Brasileira, marcada pela passagem pelos universos underground de cidades como São Paulo (Brasil) e Los Angeles (EUA), fala do contraste das realidades entre as culturas hip hop deste e do outro lado do Atlântico. Admite que nada do que acontece em Portugal rivaliza com essas memórias, mas acredita que «o que está a acontecer aqui não é normal» no país e já por isso reconhece a importância de registar. «Há coisas que se não se documentar as pessoas não acreditam».
Betina defende que se as pessoas virem paixão, dedicação, compromisso e disciplina na roda, isso ajuda a mudar perspectivas e, nomeadamente, algum preconceito que existe perante a cultura de rua em Portugal. «Se isto fosse no Brasil, haveria três barraquinhas de cachorro quente aqui. A gente tem a noção que as ruas são espaços públicos que precisam ser ocupados e que isso é democracia», enfatiza Betina, que acredita que «Rap é compromisso» e a «arte salva vidas». O fotógrafo André Maia ressalva a importância do trabalho fotográfico e videográfico porque serve de «legitimação não só do movimento, mas deles enquanto artistas»

O universo do hip hop por inteiro
Os sabres de luz Darth Vader e os holofotes brancos criam novos contornos e silhuetas. Uma mise-en-scène mais poética para dançarinos e dançarinas, que se revezam em coreografias improvisadas, do rap ao pop, sem desperdiçar clássicos de Michael Jackson. Ainda não é break dance puro e duro, mas está lá o espírito agregador da roda onde conhecemos Roxanne, a quem estas quintas-feiras devolveram o prazer da dança, e algarvia Laura, para quem o movimento se tornou uma «segunda casa». Entre treinos e coreografias, há no ar a possibilidade de formar uma nova crew.
«O meu papel é oferecer-lhes aquilo que eu com a idade deles não tinha. Organizo os treinos. Nunca fui um gajo do freestyle, muito menos das batalhas e agora sou “o saco de boxe”, levo porrada e no próximo treino estou cá outra vez, a tentar criar aquele sentimento de partilha e pertença.»
Gonçalo Guiné, rapper e produtor
Como sub-cultura do hip hop, o beatbox fica muitas vezes de parte, mas não é o que acontece na RoC. João Marques ou Jewow, como é conhecido, é responsável pela Instrumentless, a única organização em Portugal dedicada exclusivamente à cultura do beatbox que está, neste momento, a organizar o Campeonato Nacional de Beatbox 2024 em Coimbra. É dia 29 de Junho, na Sala 8 (Vales da Pedrulha). Todas as semanas apresenta-se com outros beatboxers, a mostrar beats influenciados, pelo rap e não só – entra em nuances de música electrónica ou efeitos sonoros com batidas mais aceleradas e complexas. Apenas com voz e microfone criam a base para que alguns rappers improvisem rimas ou a malta da dança regresse de novo à arena.
Na grande final da roda, é pedido ao público que acenda as luzes dos telemóveis. É o momento solene da noite onde alguém se torna campeão, mas ninguém sai vencido. O espírito de camaradagem impera sempre, todos querem assistir a um «batalhão». Quem vence uma roda pode perder à primeira na semana seguinte. O sonho é manter a roda viva até à última rima.
«Se isto fosse no Brasil, haveria três barraquinhas de cachorro quente aqui. A gente tem a noção que as ruas são espaços públicos que precisam ser ocupados e que isso é democracia.»
Betina
Quinta-feira, 29 de Fevereiro, o movimento RoC sobe ao palco do Salão Brazil. É prometida uma noite especial, onde os MC são acompanhados pelo trio residente da Jam Session, com a bateria de Paulo Silva, o contrabaixo de Rui Alvarez e o trompete de Nuno Rodrigues a criar um novo ringue.































