O novo disco comemorativo dos 30 anos da Lux Records já nos passou pelos ouvidos e merece atenção. Rui Ferreira, fundador da Lux Records e da Lucky Lux, e João Rui, músico de Coimbra também conhecido como John Mercy, são figuras centrais da nossa paisagem musical, o que tornou esta escuta ainda mais especial.

Trata-se de uma edição construída a partir de versões de canções publicadas originalmente pela editora de Coimbra ao longo de três décadas. O ponto de partida foi claro desde o início: celebrar o catálogo da Lux com um disco inteiro dedicado a músicas que marcaram a história da casa, agora revisitadas por João Rui, numa leitura que cruza memória, reinvenção e identidade.

A escolha de João Rui para este projeto não foi casual. Rui Ferreira explicou na entrevista que o que o moveu nas versões é, precisamente, a capacidade de uma canção deixar de soar apenas ao original e ganhar uma nova vida. “Interessam-me mais as versões em que os grupos se apropriam da canção”, disse, sublinhando que é isso que distingue uma boa reinterpretação de uma mera reprodução.

João Rui liderou esse princípio para o centro do disco. Quando perguntamos como recebeu o convite, explicou-nos que a relação com as versões tem muito a ver com a forma como ele próprio trabalha a música. “As versões também têm uma relação parecida com a que o Rui tem com as versões das canções”, afirmou, acrescentando que o que lhe interessa é a forma como uma canção o transforma.

 O resultado é um disco que atravessa três décadas de catálogo da Lux Records, da estreia em 1996 até lançamentos mais recentes, e que recupera temas ligados aos nomes fundamentais da música feita em Coimbra e à volta dela, como António Olaio & João Taborda, Belle Chase Hotel, Legendary Tiger Man, Toni Fortuna, Sean Riley & The Slowriders, Bunnyranch, Ruby Ann & The Boppin’ Boozers, Tracy Vandal, D3O, Millions e Victor Torpedo. Rui Ferreira sublinhou na conversa que a intenção foi olhar para esse percurso com coerência, sem o dispersar por demasiados braços.

Essa coerência passa também pela forma como João Rui enfrenta a criação. Ao longo da entrevista, insistiu que uma canção precisa de razão para existir, e que essa lógica tem de ser reencontrada quando se pega num tema alheio. “Tem de haver uma razão para cada coisa que está numa canção”, disse, defendendo que o processo de reinterpretar passa por perceber o centro emocional e narrativo de cada tema antes de o vestir com outra pele.

João Rui explicou ainda que o trabalho foi rápido porque partiu de escolhas muito claras e de uma relação muito direta com o material. “Há qualquer coisa nessa parte de estar ali no nervo da criação”, disse, e foi justamente esse nervo que lhe permitiu construir um disco que não se limita a homenagear a Lux Records, antes de desenvolver ao apresentar várias das canções que a editora ajudou a fixar na memória musical da cidade.

Rui Ferreira foi taxativo ao lembrar que, para ele, a obra só se fecha verdadeiramente quando existe um objeto material, com capa, créditos e contexto. João Rui foi na mesma linha, defendendo o vinil como uma forma de escuta mais técnica, em que cada lado exige uma atenção diferente. “Com o vinil, tens 20 minutos de atenção”, disse, reforçando a ideia de que o disco é mais do que um arquivo ou uma playlist: é um objeto com peso, desenho e memória.

A dimensão física do álbum é outro ponto importante. A ficha técnica confirma que o disco foi produzido, gravado, misturado e masterizado por John Mercy na Blue House, o que reforça a ideia de um trabalho muito autoral, feito de ponta a ponta pelo próprio intérprete. A capa também ajuda a fixar essa identidade: a pintura é de Victor Torpedo, datada de 2016.

A própria lista de participantes ajuda a perceber a amplitude do projeto. Além de John Mercy, surgem créditos vocais para Bonnie Blossom e Raquel Ralha, o que acrescenta camadas ao disco e amplia o diálogo entre vozes e repertórios. Há ainda uma rede de agradecimentos extensa, que inclui nomes ligados ao universo criativo do Lux e da música de Coimbra, sublinhando o caráter coletivo desta celebração.

No alinhamento, o disco revisita temas como The Horse That Keeps Jesse James’ Soul , Strong Sex , Big Black Train , Naked Blues , River Bullet , Lights Out , Stand By… , Trouble Loves You , Straight to the Stars , So Dead , Prince of Babylon e Slash Your Tires . Cada faixa aponta para uma geografia afetiva e musical muito concreta, com canções assinadas por autores como António Olaio, João Taborda, JP Simões, Pedro Renato, Pedro Serra, Paulo Furtado, Tó Rui, Miguel Benedito, Afonso Rodrigues, Carlos Mendes, Bunnyranch, David Freel, Victor Torpedo, Sérgio Costa e Dean Wareham.

O lançamento é já para a semana; a edição ficará disponível para venda, numa primeira fase, em exclusivo na Lucky Lux, a loja da editora, a partir de 26 de junho — é uma forma de fortalecer a ligação entre o disco, o catálogo da casa e o espaço físico onde essa memória musical também se preserva, circula e ganha nova vida.

Mais do que um disco de aniversário, esta edição funciona como uma afirmação da música de Coimbra e da rede de artistas que foi construindo ao longo dos anos. A Lux Records aparece aqui como editora, arquivo e ponto de encontro, enquanto João Rui surge como intérprete capaz de recuperar esse património e fazê-lo subir outra vez, sem o prender à nostalgia. No fim, é talvez o que mais importa neste lançamento: a prova de que três décadas de música feita em Coimbra continuam a encontrar novas formas de circular, agora atravessadas pela voz de John Mercy.

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Nasci em Belém, vivo em Coimbra e me reinvento constantemente entre projetos. Comecei na RUC – Rádio Universidade de Coimbra, vivi o ritmo acelerado da Rádio CBN na Amazónia e me apaixonei pela ponte entre Ciência, Comunicação e Sociedade durante a especialização em divulgação científica na Fiocruz. Agora, enquanto doutoranda em Ciências da Comunicação, continuo jornalista porque gosto de contar as histórias das pessoas. Para mim, histórias sonoras são as melhores, o que me levou a criar o podcast investigativo narrativo O Caso Boaventura. Escrevo guiões e faço pesquisas para cinema documental. Aprendo as regras do rugby com o meu filho e continuo convencida de que o melhor perfume do mundo vem do patchouli. Sigo fiel aos jornais de papel, às séries true crime para espairecer e à frase de Cláudio Abramo que melhor define o ofício: «O jornalismo é, antes de tudo e sobretudo, a prática diária da inteligência e o exercício cotidiano do caráter.»

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