«Nasceu com o intuito de trazer o novo circo, muita coisa de rua e teatro físico também», resume Hugo Inácio, ator formado em Coimbra, hoje diretor artístico d’O Elefante Na Sala. A relação com a cidade, admite, é «tensa»: ama Coimbra, sente-se em casa quando chega, mas não se revê no teatro que aqui se faz.

Sempre ligado a máscaras, acrobacia e criação baseada no movimento, encontrou pouco espaço para essa linguagem na cidade e foi procurar formação fora – Itália, Berlim, Madrid –, até decidir ser «teimoso» e canalizar toda a energia para criar em Coimbra um polo de teatro físico. O termo, explica, é quase um rótulo de conveniência: «todo o teatro é físico», mas aqui designa uma pedagogia muito precisa, baseada no movimento, nas máscaras, no clown e no bufão, em que o texto deixa de ser o centro da criação.

Teatro físico como abastecimento poético

O preconceito pesa: em Coimbra, diz, o teatro físico ainda é frequentemente visto como «coisa menor», «de rua», «de pé rapado» – «lá vão eles mascarar-se, pôr meias na cabeça, imitar gordos e gordas», são frases que admite ouvir de colegas de teatro. Contra essa caricatura, Hugo insiste que «teatro físico não é meter uma máscara e fazer palhaçadas», mas «a pedagogia mais precisa que existe», porque obriga a abandonar o gosto pessoal e a perguntar, cena a cena, «o que é que funciona e o que é que não funciona».

O objetivo é trazer esse rigor para a rua e para espaços não convencionais, transformando o teatro físico em abastecimento artístico e poético para o quotidiano urbano. Quando um espetáculo explode no meio da Baixa, descreve, o que acontece é uma rutura breve na «bolha cinzenta» do dia: alguém aparece «com umas cores, com uma cena preparada, muito bem trabalhada», e durante alguns minutos o transeunte sai do percurso expectável e entra numa festa. «É melhor do que umas férias nas Maldivas», arrisca, pelo poder que essa emoção inesperada tem de suspender o stress e criar um outro tipo de contacto com o mundo.

SA.LA e o laboratório de um «novo homem»

A frente de trabalho pedagógico da associação passa pela SA.LA – Escola de Teatro Físico, um projeto que assenta nos pilares do movimento e da criação e se assume como espaço de treino não só para profissionais, mas também para quem queira estudar teatro a partir do corpo. Desde 2023, o LAB26 tem recebido formações intensivas em máscara neutra, Commedia dell’Arte, bufão e teatro de rua, num modelo de trabalho que começa sempre no espaço e na ação, e nunca num texto lido em torno de uma mesa.

A escola mantém uma ligação estreita com a Escuela Internacional de Teatro Arturo Bernal, em Madrid, com intercâmbios de formadores e alunos e uma circulação regular entre as duas cidades. Neste Dia Mundial do Teatro, a convite do festival de teatro físico MUEVE, a SA.LA apresenta em Madrid o resultado de um laboratório com três atores em torno da masculinidade tóxica: uma «primeira cena» de cerca de 25 minutos em que um trio de intérpretes procura, em laboratório, modos performativos de pensar «como é que é um novo homem».

INOPINADO: o festival que sai à rua

Em setembro de 2025, Coimbra viu nascer nas ruas e nos teatros o primeiro festival internacional de teatro físico e artes de rua da cidade: o INOPINADO. Organizado pelo Elefante na Sala e com Márcia Santos na direção de produção, o festival espalhou-se por Coimbra, Lousã e Miranda do Corvo entre 3 e 27 de setembro, juntando espetáculos, formações e uma arruada que percorreu a Baixa.

Passaram por esta primeira edição nomes como Nuno Pino Custódio, Arturo Bernal, Aldara Bizarro, PanicoTeatro (Madrid), o Coletivo Afterparty (Coimbra) e a Companhia da Chanca (Penela), num programa que misturou oficinas de construção de máscaras em couro, workshops de bufão contemporâneo e cabaret, dança?teatro e espetáculos de máscara larvar. Com apoio da DGARTES, de autarquias da região e de estruturas como Casa da Esquina, Grémio Operário de Coimbra, União das Freguesias e CITAC, o festival levou o grotesco e o físico para dentro de teatros e, sobretudo, para a rua.

Em setembro, o INOPINADO regressa com a segunda edição, reforçando dois eixos: a presença das artes em espaço público e a ligação às escolas de teatro da cidade. Hugo fala do festival como «espaço de condensação» dos objetivos da associação: difundir artes performativas, aproximá?las do público, partilhar novos processos e experimentar estratégias de mediação.

Este ano, a organização está a consolidar protocolos com a licenciatura em Teatro e Educação e com a Associação para a Promoção da Baixa de Coimbra, que fará a ponte com lojistas e moradores. A arruada – evento central do programa de rua – será construída com alunos da ESEC e da escola de Madrid, que virão a Coimbra para se cruzar em ensaios abertos, formações e um cortejo festivo pela cidade.

Teatro de rua, comunidade e conflito

«Quando vais para a rua, retiras o palco e a cadeira», diz Hugo. O teatro deixa de ser entendido como um lugar «intelectual», distante, e passa a acontecer no mesmo chão onde se fazem compras, se espera pelo autocarro ou se atravessa a praça a correr. Mesmo quando surge em formas extravagantes – bufões com corpos deformados, máscaras grotescas, figuras quase monstruosas –, o que está em jogo, insiste, «é sempre o ser humano»: tragédias, comédias e inquietações que qualquer pessoa reconhece, mesmo que não saiba pôr o nome à disciplina que está em cena.

Essas performances improvisadas, muitas vezes gratuitas e inevitavelmente políticas pela forma como interrompem o fluxo da cidade, produzem reações imprevisíveis que vão da gargalhada ruidosa ao desconforto silencioso. É aí que o Elefante quer estar: não a pregar para convertidos, mas a construir, com a comunidade, um uso mais espontâneo dos recursos teatrais como forma de expressão, abrindo espaço para que o público interaja com a peça em vez de ficar sentado «como estátuas».

Fotos deste artigo: Paulo Costa Góis, especial para O Elefante Na Sala.

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Nasci em Belém, vivo em Coimbra e me reinvento constantemente entre projetos. Comecei na RUC – Rádio Universidade de Coimbra, vivi o ritmo acelerado da Rádio CBN na Amazónia e me apaixonei pela ponte entre Ciência, Comunicação e Sociedade durante a especialização em divulgação científica na Fiocruz. Agora, enquanto doutoranda em Ciências da Comunicação, continuo jornalista porque gosto de contar as histórias das pessoas. Para mim, histórias sonoras são as melhores, o que me levou a criar o podcast investigativo narrativo O Caso Boaventura. Escrevo guiões e faço pesquisas para cinema documental. Aprendo as regras do rugby com o meu filho e continuo convencida de que o melhor perfume do mundo vem do patchouli. Sigo fiel aos jornais de papel, às séries true crime para espairecer e à frase de Cláudio Abramo que melhor define o ofício: «O jornalismo é, antes de tudo e sobretudo, a prática diária da inteligência e o exercício cotidiano do caráter.»

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