A Baixa de Coimbra ocupa o imaginário coletivo como uma das zonas mais emblemáticas da cidade, um centro histórico em que ruas estreitas se cruzam e ramificam. A Baixa abrange, essencialmente, o arrabalde da Idade Média, por se situar fora das muralhas e junto ao Mondego, reunindo as condições que faziam com que aqui se aglomerasse o povo, os comerciantes e artesãos. Na Rua Corpo de Deus, que desemboca na movimentada Rua Visconde da Luz, a empreendedora Ângela Roque termina os últimos preparativos para a abertura da mercearia Da Serra à Cidade.
O espaço está iluminado em tons cor de laranja. Irradiam de ilustres candelabros que pendem do teto e foram emprestados do Hotel Bragança, temporariamente encerrado para obras de renovação e ampliação. O conceito é simples: replicar o sentimento de estar confortavelmente numa sala de estar, com a diferença de que nesta mercearia e café existe uma panóplia de produtos regionais para levar para casa e confeções caseiras para degustar. A ideia é de Ângela Roque, lisboeta radicada em Coimbra, que considera «importante valorizar o que é local e apostar nos circuitos curtos, para não haver muitas perdas, quer de qualidade, quer de dinheiro, sempre na tentativa de não praticar valores muito elevados».
As prateleiras já estão recheadas com produtos alusivos à época natalícia, como os chocolates artesanais de Diana Vaz. Por entre os livros de biologia marinha, a jovem conimbricense vai descobrindo uma nova paixão e compra matéria-prima numa fábrica em Olhão, mas também faz questão de ter pequenos negócios como fornecedores. «Tento apoiar um bocadinho toda a gente. Os pequenos negócios metem muito amor naquilo que fazem, têm um maior elo de ligação com as pessoas que os procuram e eu acho que isso é bonito.» Apesar de ainda se considerar uma amadora na arte do chocolate, Diana encontrou no espaço de Ângela Roque uma forma de apresentar o seu trabalho ao mundo que vai calcorreando aquelas ruas.
A loja Da Serra à Cidade foi um dos frutos do COL.ECO, o espaço de Colaboração na Organização Local de Economia Sustentável do Concelho de Coimbra, criado pela Associação para a Promoção da Baixa de Coimbra, que Ângela integrou no âmbito de uma formação em gestão de projeto e empreendedorismo do IEFP. «[No COL.ECO] criei contactos, redes, fiz amizades e isso foi fundamental», comenta.

Um dos contactos foi Ricardo Madeira, «filho» da Baixa de Coimbra, investidor na área do turismo e proprietário da loja que Ângela agora começa a explorar. Uma relação comercial, mas que personifica a capacidade que ambos acreditam que a Baixa tem de proporcionar oportunidades e sentido de comunidade. «Acompanhei o nascimento do negócio através da COL.ECO e fui acompanhando o trabalho através dessas redes que se criam quando há um espaço comunitário em que as pessoas se cruzam e, aqui na Baixa, temos essa oportunidade. As pessoas estão rodeadas de negócios, vão ao café, à frutaria, à padaria, cruzam-se de forma natural», conta Madeira.
«Os pequenos negócios metem muito amor naquilo que fazem, têm um maior elo de ligação com as pessoas»
Diana Vaz, produtora de chocolates artesanais

Financiado por fundos europeus e com o município como investidor social, o COL.ECO terminou no Verão, depois de um ano de funcionamento. De lá saíram várias empresas, entretanto consolidadas, mas apenas Ângela Roque decidiu ficar na Baixa. «Sempre gostei e trabalhei na Baixa. Trabalhava na [Avenida] Fernão Magalhães e, mesmo aos fins-de-semana, sempre tive muito o hábito de andar por aqui.»
Esta não é a primeira morada do Da Serra à Cidade, mas depois de um ano na Rua do Paço do Conde, a falta de movimento na rua levou a empresária a procurar uma alternativa. «O que eu noto é: quanto menos lojas houver, menos as pessoas vão à procura», explica. Ricardo Madeira corrobora: «As cidades funcionam em rede, quanto mais no centro da cidade. Então um centro como este, cheio de pequenos edifícios que eram pequenos negócios, que se alavancavam uns nos outros. Se começa a haver edifícios fechados, aí sim, alguns espaços comerciais tornam-se ilhas. Há ruas que se tornam ilhas desertas, o que não contribui para o funcionamento do conjunto.»

Sobre a desertificação da Baixa de Coimbra, Ângela aponta o dedo à especulação imobiliária, o valor elevado das rendas e o facto de existirem pessoas «muito avessas à mudança». Madeira refere a cicatriz deixada pelas obras do metrobus e a falta de investimento público. «Estas ruas estão iguais desde sempre», acrescenta. Excepção feita à Praça do Comércio, que, na opinião do empresário, prova que um olhar cuidado sobre o espaço e uma pequena injeção de dinheiro podem contribuir para um processo de transformação positivo, apesar de acontecer «muito à conta dos privados».
Ângela e Ricardo lembram que o centros comerciais também pesaram no processo de abandono da zona histórica da cidade. As grandes superfícies comerciais começaram a surgir no final do século XX, numa altura marcada pelo triunfo do consumismo, a expansão da cidade e o surgimento do euro. Madeira atira que estudos académicos indicam que «a longo prazo os centros comerciais não trazem benefícios». E remata: «Os negócios que estão na Baixa geram riqueza que fica na economia local, enquanto a riqueza gerada nos centros comerciais vai para Lisboa ou para o estrangeiro».

As montras das lojas que compõem a Baixa da cidade mostram Coimbra ao mundo, são cartões de visita e referências sócioculturais da comunidade. Por estas razões, Ângela Roque afirma que o comércio tradicional e patrimonial merece uma atenção especial por parte do poder político. Dá o exemplo de Braga, onde, na opinião da comerciante, as ruas são mais do que locais de passagem, mas também focos de vida e dinamismo, potenciados por incentivos públicos aos negócios locais e atira a sugestão: «taxar os proprietários que têm as lojas fechadas, em termos de IMI, ou proporcionar carências de renda para os comerciantes que necessitem de fazer obras nos espaços arrendados».
Voltámos à Rua Corpo de Deus no dia da inauguração da loja. A Da Serra à Cidade já tem as portas abertas ao público. Dentro, cheira a bolo de laranja acabado de fazer e dispõem-se as últimas cadeiras. Ângela transborda de satisfação e comenta: «A Dona Saudade veio trazer-me uma rosa branca. As pessoas aqui do lado também já me deram as boas-vindas. Existe um espírito de comunidade aqui na Baixa».
Apesar das dificuldades sentidas e evidentes nas montras vazias, nas mensagens pintadas nas paredes e nas fendas abertas nos prédios devolutos, lojas como a Da Serra à Cidade podem representar sinais de mudança. Como diz Diana Vaz, «espaços como este trazem à Baixa um ar mais acolhedor» e quem sabe o calor que se sente agora na nova loja da Rua Corpo de Deus afecte outros edifícios em volta.
Ricardo Madeira tem esperança. Acredita que a Baixa é o «centro comunitário» da cidade e o local onde podem surgir as novas ideias e movimentos sociais e culturais, mas defende que para isso é importante criar uma narrativa mais positiva sobre a zona, que valorize as suas características únicas.





