Quando se fala de Educação, há uma ideia antiga que volta de tempos a tempos sobre o que são melhores ou piores escolhas de formação escolar e académica. Numa cidade onde o peso da Universidade é inegável, fomos conhecer experiência de professores e alunos que integram alternativas aos cursos científico-humanísticos em Coimbra e estão cada vez mais longe de serem vistos como a última saída para os estudantes com más notas terminarem o secundário.
Pensado maioritariamente para permitir a aquisição de competências práticas, saber-fazer e conhecimento para trabalhar num determinado ofício ou área de emprego, o ensino profissional (EP) tem vindo a captar mais alunos. Em Portugal, cerca de 45% dos estudantes do ensino secundário frequentam esta via de ensino, um número ainda abaixo da média europeia, que se situa nos 49%, segundo a análise feita este ano pela plataforma EDULOG, uma iniciativa da Fundação Belmiro de Azevedo, que visa contribuir para a construção de um sistema educativo de referência.

Os valores apurados pela EDULOG colocam Portugal na 19ª posição do ranking europeu, bem distante de países como a República Checa, a Finlândia ou a Croácia, todos com percentagens acima dos 70%.
Em Coimbra, no ano lectivo de 2021/22, havia 1716 alunos matriculados no EP, de acordo com os dados da Direção-Geral de Estatística da Educação e Ciência.
A previsão é de que o número de estudantes a optar por esta via de ensino aumente nos próximos anos, tendo também em conta o compromisso de Portugal em atingir os 55% até 2030. Há, contudo, desafios. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) aponta para o problema da histórica «fraca reputação» do ensino profissional em Portugal.
Novas turmas e mais cursos
Quem passe na Avenida Emídio Navarro nem imagina que no primeiro andar do número 81 se esconde a Escola Profissional Profitecla, a maior do país. Dividida por sete pólos (Barcelos, Braga, Coimbra, Guimarães, Lisboa, Porto e Viseu), por cá, a instituição de ensino conta com quase 190 alunos, distribuídos pelas turmas dos três anos do ciclo de formação.
«Os nossos alunos não têm desvantagem absolutamente nenhuma em relação aos do ensino regular. Até à primeira semana de Janeiro, recebemos sempre mais 14 ou 15 estudantes. Muitas vezes, já queriam vir para cá, mas os pais entendiam que não», introduz Fátima Costa, responsável pela Comissão Executiva do Pólo de Coimbra.

Para contrabalançar a imagem que ainda passa sobre as alternativas aos cursos científico-humanísticos, Fátima Costa diz-nos também que, neste ano lectivo, a Profitecla abriu mais uma turma, em linha com o aumento do número de alunos matriculados no EP ao nível nacional.
Aos cursos de Gestão e Marketing, Turismo, Comunicação e Serviço Digital, Direito e Solicitadoria, soma-se agora o de Apoio Psicossocial. «Os nossos cursos estão muito ligados ao que está à nossa volta. Este ano, abrimos um curso novo porque percebemos que os nossos alunos queriam prosseguir estudos na área do serviço social e da psicologia, e era algo que nos faltava aqui», continua a responsável.
Apoios para estudantes deslocados
Interrompemos uma aula por cinco minutos para falar com Tiago Silva, aluno do curso de Direito e Consultadoria, e perguntar-lhe porque escolheu esta escola. «A Profitecla veio no seguimento do curso que eu quero seguir na universidade, que é o de serviços jurídicos», diz o também representante dos alunos da instituição. Natural de Soure, quando chegou ao ensino secundário, Tiago começou por ingressar pela via regular, mas a escola profissional era a primeira opção. As questões monetárias e o desconhecimento sobre os vários apoios e subsídios para estudantes deslocados pesaram na decisão.

A Profitecla oferece o reembolso das despesas de transporte, mediante a assiduidade, e ainda um subsídio de alimentação no valor de 4,77€ por dia. O estudante ressalta também o tamanho do pólo de Coimbra: o número reduzido de estudantes permite uma ligação e um maior contacto entre professores e colegas.
Sobre as maiores diferenças que encontrou entre os dois programas de ensino, Tiago sublinha os métodos de avaliação: «No regular, os métodos de avaliação são aquilo e aquilo mesmo; já no profissional, há flexibilidade de permitir que os testes de avaliação não sejam só testes ou apresentações orais e isso acaba por nos cativar mais».

Santino Corral é argentino e frequenta o segundo ano do curso de Marketing. Fala-nos da sua percepção da educação em Portugal em comparação com a do seu país de origem. «Quando cheguei a Portugal comecei no ensino regular, na escola Jaime Cortesão. Gostei do sistema educativo; era interessante, mas faltava algo. Sabia que existiam escolas profissionais em Portugal, que na Argentina não existem, e achei incrível por ser [um ensino] mais específico». Santino admite que, quando chegou e falando com colegas da escola e de outras, percebeu que «existe um estigma».
«Se estudas no EP, na Profitecla, e chegas à universidade, tiras zero no exame nacional. É um princípio] errado», ilustra. Santino é também responsável pelo OnTecla, jornal da escola, e planeia estudar Gestão de Empresas no ensino superior.
Das aulas para o trabalho
Na Escola Secundário Avelar Brotero há 11 cursos profissionais, de Técnico de Redes Eléctricas, Manutenção Industrial, Mecatrónica Automóvel, Electónica Automação e Comando, até Análises Laboratoriais ou Design de Moda. São 430 alunos. Visitámos as instalações, onde António Miranda, subdirector, nos disse que, «nesta questão da formação académica, não há escolhas erradas. Há escolhas que são mais adequadas ao perfil de cada um». «Quando estamos à procura de formação, estamos à procura de sermos melhores e de sermos adultos responsáveis, autónomos», salienta.
No caso da Brotero, como é conhecida a escola, o professor destaca a ligação muito próxima com o Instituto de Engenharia de Coimbra, destino de muitos alunos no final do percurso pelo ensino profissional.
A taxa de empregabilidade é também alta. «A nossa escola começa por ser, no momento da sua formação, uma escola para o ensino profissionalizante», lembra. «Os alunos que nos escolhem têm uma colocação quase directa no mercado de trabalho, com condições de trabalho prático como não existe em mais nenhuma escola da região e com uma relação ao tecido empresarial que se tem tornado fácil porque as empresas já se identificam com aquilo que é o ensino profissional da Brotero. Já nos procuram. Antes de os alunos terminarem os seus cursos, já temos pedidos, vagas abertas para os estágios e futuros empregos», descreve.
Na Brotero, também encontrámos Nina Salkov, aluna do curso de Design de Moda. Mostra-nos algumas peças que desenhou e costurou para as provas de avaliação. Aprendeu a coser sozinha e descobriu o curso pelo irmão, que também estudava moda, numa outra turma. Quer continuar os
estudos ao nível superior, mas ainda não se decidiu entre a moda e a arquitectura. «Quando disse que queria ir para uma área de moda ou de arte fui um bocado rebaixada pela família, mas agora viram o que sei e como trabalho e já valorizam», conta.
Tiago Ferreira, estudante de Análises Laboratoriais, sente que «ainda há muita gente que não aceita os cursos profissionais, e que acha que é muito para aquelas pessoas mais velhas, que
querem tirar outro curso depois de a escola acabar». Garante, no entanto, que sempre sentiu apoio da parte das pessoas que lhe são mais próximas, até porque o pai também fez um curso profissional. Escolheu o EP pela possibilidade de colocar em prática aquilo que aprende na sala de aula e de demonstrar o que sabe sem ser só a escrever. Quer continuar os estudos. No caso de Tiago, tal
implica fazer o exame nacional de Biologia, que não está contemplado na oferta curricular do curso que está a frequentar; mas isso, assegura, não é um entrave.
Ao percorrermos o bloco destinado às diversas áreas de trabalho prático, deparamo-nos com a antiga oficina de carpintaria, um curso que já não faz parte do currículo da escola. António Miranda reforça que a oferta formativa procura ajustar-se aos interesses e às necessidades de emprego da Região.
Mais à frente, depois de nos cruzarmos com maquinaria pesada, que só conseguimos distinguir da de uma fábrica a sério porque sabemos que estamos numa escola, encontramos Luís Vicente. Está numa sala de aula que é também uma oficina com simuladores de avaria e onde estão carros a serem reparados no elevador. No último ano do curso, conta-nos que sempre gostou de automóveis e de motores, portanto, o EP foi uma decisão mais do que óbvia para o seu percurso. Já tem estágio agendado na zona de Assafarge.
Ao retomarmos à análise dos dados da Caracterização do Ensino e Formação Profissional em Portugal, pelo portal EDULOG, salta à atenção os valores da taxa de empregabilidade em 78,2%, com cerca de 47,9% destes a ingressar no mercado de trabalho imediatamente após a conclusão do curso.
Via de inclusão social
Pesem embora estes números e o crescimento do EP em Portugal, o estudo sublinha que persiste «uma representação social pejorativa», associada à origem socioeconómica mais desfavorecida da maior
parte dos alunos da via profissionalizante. A maioria é proveniente de famílias ligadas ao sector operário, à agricultura ou a trabalho não qualificado. O estudo reforça «que o contexto sociocultural e económico familiar condiciona a opção pela via académica ou pela via profissionalizante dos estudos».
A análise da EDULOG destaca também o papel do EP enquanto ferramenta de equidade, justiça e inclusão social, sendo uma forma efectiva de combate ao abandono escolar e, por consequência, à exclusão social por falta de habilitações académicas e profissionais.
Durante muito tempo, entravam no ensino profissional alunos com idades acima dos 19 anos, depois de muitos anos a chumbar no ensino regular. A própria lei permitia isso. Esta situação, aponta Fátima Costa, «agravou esse estigma do aluno que não consegue fazer nada». Agora, finaliza, «isso já não
acontece: os alunos com mais de 19 anos já não são admitidos. Perceberam que o EP não é nem pode ser o último recurso».
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