Retomamos a nossa história com a opinião de Gonçalo Cabral, que faz parte da direcção do Associação Académica de Coimbra/Organismo Autónomo de Futebol (AAC/OAF) e aponta que o primeiro grande desafio a resolver será monetário. «A Académica está num plano financeiro difícil, pois tem um passivo de curto prazo muito grande. É urgente credibilizar a instituição, cumprir os nossos compromissos atempadamente e não gastar mais do que o que temos.» No entanto, salienta que «não é só uma questão de dinheiro. Contratar jogadores mais caros não significa que tenham melhor rendimento. Temos que lhes dar as condições e isso depende muito de uma reorganização interna de que as pessoas de fora não têm noção, mas é tão ou mais importante que a reorganização financeira. São os dois principais campos onde temos que fazer uma intervenção imediata.»

Um outro problema da Académica prende-se com o progressivo diminuir de adeptos presentes no estádio. O recém-eleito Miguel Ribeiro afirmou, em campanha, que o que irá trazer gente ao estádio é a equipa ganhar. José David Lopes concorda, mas «pessoalmente gostava que o apoio dos adeptos não estivesse dependente da divisão em que estamos a jogar», admitindo, no entanto, que «é difícil angariar uma base de adeptos sólida em Coimbra, porque há muita competição e as pessoas gostam de ganhar. É por isso que, em Portugal, a esmagadora maioria das pessoas é apoiante de um dos três grandes, pois são os clubes que ganham mais vezes».
«A Académica é nossa. Não é dos que estão a geri-la agora. Não é dos que estiveram. Não é dos que vão estar. Não podemos continuar a vê-la como uma entidade quase exterior à cidade. Todos temos de fazer parte dela e se o fizermos, é uma coisa que nos vai dar gozo e frutos. É essa a mensagem que queremos passar. A Académica é de todos nós e há-de ser sempre da cidade e quando tivermos o estádio cheio de gente a assistir, teremos a Académica de volta.»
Gonçalo Cabral
Aponta-nos também o obstáculo demográfico que se agudizou com os cursos de ensino superior serem cada vez mais curtos. «Coimbra sempre foi uma cidade de passagem, em que os estudantes vêm e vão mas há, de facto, uma dificuldade de as pessoas criarem raízes em Coimbra, porque passam cada vez menos tempo cá. E isto faz com que não haja muito espírito bairrista à volta da Académica. É o clube dos estudantes, mas hoje em dia os estudantes não ligam muito à Académica.»

Trata-se de um fenómeno que testemunhou em primeira mão, após ter passado vários anos no estrangeiro. Agora de regresso, José David Lopes está a conhecer esta nova realidade, apesar de nunca ter perdido o contacto com a Académica, dada a forte presença vocal dos adeptos nas redes sociais, blogues e podcasts como o Briosagolo, que criou. «Esta facilidade na comunicação ajuda muito a manter as pessoas próximas e a falar da Académica. Claro que isso, a certa altura, sabe a pouco porque sinto um bocado a falta daquela mesa de café para falar de futebol e para falar da Académica, acho que é por aí que surge o podcast.»
É precisamente no regresso deste fórum aos tradicionais espaços de discussão de futebol que a recém-eleita direcção do clube pretende apostar para angariar mais adeptos no Estádio, pois «a Académica não pode fechar-se em si mesma e estar à espera que venham cá ter por artes mágicas», aponta Gonçalo Cabral, revelando também o que considera ser uma iniciativa inédita no panorama comercial do futebol português. «Os cafés e restaurantes vão vender bilhetes da Académica e ganhar dinheiro com isso, porque é-nos importante que a Académica também recupere a sua imagem. Temos um mapa da cidade, com cinco zonas perfeitamente delineadas, em cada uma das quais nós próprios vamos bater à porta de cada café e restaurante e apresentar o acordo com o qual eles vão ganhar bom dinheiro, e nós adeptos.»
A estratégia responde a uma das maiores lacunas da Académica nos últimos tempos, que é a da total ausência de campanhas para angariar novos sócios. Embora tal passividade publicitária fosse compreensível tendo em conta as dificuldades monetárias do clube, a direcção do OAF considera o risco meritório, até porque será, assegura, metodicamente implementado. «No futuro iremos ao resto do concelho, mas nesta fase temos que nos limitar àquilo para que temos recursos.»

O maior recurso da Académica é o Estádio Cidade de Coimbra, mas a utilização é controversa. Trata-se de um investimento com quase 20 anos, que serviu para albergar jogos do Euro 2004 e que, desde então, parece desadequado para servir a Académica, devido a uma lotação problemática de 30 mil lugares que não é proporcional à dimensão do público do clube. Mesmo quando se encontrava a disputar na 1ª Liga, a média de espectadores era somente de oito mil. Além disso, a disposição da pista de atletismo deixa o público muito longe do relvado e a abertura do arco não favorece a acústica dos jogos. Críticas validadas por Tomás Cunha que, embora repudie o saudosismo pelo antigo Estádio do Calhabé com que muitos adeptos contra-argumentam, descreve o actual recinto como «um edifício de arquitecto, feito por alguém que pensou na estética, mas nunca viu um jogo de futebol na vida».
A nova direcção do AAC/OAF contempla o calibre do estádio na perspectiva do copo meio cheio, ao apontar que «não é muito grande, nós é que tiramos pouco proveito dele». Enquanto vice-presidente da área do Marketing, Gonçalo Cabral elucidou-nos sobre como o vasto potencial da infraestrutura tem sido subaproveitado desde 2004, salientando que «não podemos olhar para o Estádio Cidade de Coimbra como um estádio de futebol, mas sim como a maior sala de eventos provavelmente do país». Descreveu-nos em pormenor todas as vantagens do local em acomodar uma série de eventos de dimensões distintas. Desde a sala de imprensa, que tem a capacidade para cerca de 100 pessoas, até à tribuna VIP com um potencial de sala de conferências para variados eventos empresariais, incluindo as regalias de catering (por estar ao lado do Restaurante 39) e uma vista singular para o relvado.

Como já foi comprovado pela vinda de nomes como Madonna ou Rolling Stones a Coimbra, existe igualmente o potencial para concertos. Contudo, a valência que só recentemente se evidenciou com o concerto d’Os Quatro e Meia, permite igualmente organizar e albergar espectáculos mediáticos com menos público, até 15 mil espectadores, sem sacrificar o relvado do campo ou afetar o calendário dos jogos. Porém, a gestão antecipada é uma parte essencial de todo este proveito. «Se conseguirmos preparar isso com um avanço, conseguimos rentabilizar durante o Verão todo o potencial do estádio. E depois sim, temos que substituir o relvado, pois quando temos um concerto tipo U2, o relvado vai à vida. Não há nada a fazer, aquilo é feito para 22 pessoas e não para 30 mil.»
Chegamos, pois, à conclusão de que a simbiose entre a Académica e a Coimbra vai além da mera tradição, roçando por vezes uma preocupação social que faz com que, quer o clube, quer a cidade, fiquem fechados em si mesmos. Felizmente, a tendência actual parece ser a de uma transparência em medida igual a tal dedicação, de modo a que o público da Briosa floresça por entre os residentes de Coimbra. Contudo, a camada universitária não deve ser menosprezada, pois «se Coimbra é uma cidade que se identifica com a Universidade e tiver uma equipa composta maioritariamente por jogadores-estudantes, creio que vai haver mais gente a seguir a equipa, porque tem uma identidade particular que mais nenhum clube tem em Portugal». Palavras de José David Lopes, que equipara o cerne social da Académica ao do Leeds United como paradigma a seguir contra a polarização desportiva dos grandes centros urbanos.

Dado que a época oficialmente não começou e o plantel ainda está a ser construído, não nos foi possível falar com Miguel Valença, o novo treinador da Briosa, até ao fecho deste artigo. No entanto, a direcção do OAF pronunciou-se em prol desse sentimento comunitário pela voz de Gonçalo Cabral, que apela ao encontro da transparência citadina e colaborativa. «A Académica é nossa. Não é dos que estão a geri-la agora. Não é dos que estiveram. Não é dos que vão estar. Não podemos continuar a vê-la como uma entidade quase exterior à cidade. Todos temos de fazer parte dela e se o fizermos, é uma coisa que nos vai dar gozo e frutos. É essa a mensagem que queremos passar. A Académica é de todos nós e há-de ser sempre da cidade e quando tivermos o estádio cheio de gente a assistir, teremos a Académica de volta.»
