Coimbra fez e continua a fazer história na prática do boccia, um desporto paralímpico com
ascendência greco-romana. Foi em Coimbra que o introduziram em Portugal, em 1983, através da
Associação de Paralisia Cerebral de Coimbra, a APCC. E de Coimbra partiram atletas que
conquistaram dezenas de medalhas em eventos nacionais e internacionais. Agora assistimos à
criação da primeira secção de desporto completamente adaptado no seio de uma universidade
portuguesa, a Pró-Secção de Boccia da Associação Académica de Coimbra (AAC), da qual Bernardo Lopes é o grande impulsionador.
Bernardo frequenta a Licenciatura em História na Universidade de Coimbra (UC), a sua segunda licenciatura depois de concluída outra em História da Arte. Tem paralisia cerebral espástica, o que lhe limita os movimentos, mas não lhe diminui a ambição. Com um passado como atleta federado de boccia, Bernardo decidiu criar a Pró-Secção em Dezembro de 2019. Mantém-se como seu Presidente desde o início e, ao completar o segundo aniversário deste pioneiro núcleo de desporto adaptado, faz um ponto da situação e comenta o projecto, com o foco no desporto e na demanda de uma UC mais inclusiva e diversa.
«Este desporto liberta as pessoas, traz actividade. Ao estar ocupado, uma pessoa não pensa em desgraças, o boccia dá-lhe alguma coisa a que se agarrar. Muito atletas internacionais que já conheci, e que estiveram à beira do precipício, o boccia veio dar-lhes sentindo à vida.»
Bernardo Lopes, impulsionador Pró-Secção de Boccia da Associação Académica de Coimbra

Bernardo começou a praticar boccia ainda antes de fazer 6 anos, corria o ano 2000. «Comecei a
treinar na APCC. Inicialmente não me interessava a modalidade, achava-a muito parada, táctica. Eu
gostava de coisas mais mexidas, como futebol em cadeira de rodas. Mas, à medida que fui
crescendo, o bicho instalou-se e até 2016 foi sempre a conquistar. Participei em campeonatos
internacionais, fui internacional pela Selecção A, estive na República Checa, no Dubai, ganhei
campeonato nacional, regional, etc.
Por ironia do destino, no auge da minha carreira em termos federativos, tive uma tendinite». Ingressou então na UC e, como diz, «necessitava daquele ritmo do treino, porque cada vez que se fala de boccia os meus olhos brilham. Arranjei uma equipa, propus [o desporto] e criámos em conjunto a Pró-Secção. Isto com o objectivo de fazer uma Academia mais inclusiva, de ajudar os estudantes com deficiência e, ao mesmo tempo, competir a nível nacional, o que ainda não foi possível por causa de pandemia». A Pró-Secção tem-se visto adiada e é extensa a lista de anseios. Precisam de voluntários, de auxiliares, de transporte adaptado e de atletas. O grande objectivo passa por estabilizar e transformá-la em secção, objectivo para o qual Bernardo e a sua equipa trabalham diariamente. Conta com cinco atletas, de várias idades e nem todos são estudantes da UC.

O compromisso que estabelecem é o de chegar a 2 mil euros neste mandato, para poder ascender a secção plena. Realizam os seus treinos no Pavilhão 3 do Estádio Universitário, interrompidos pela dedicação das instalações à vacinação da Covid-19 e retomados neste passado 5 de Março. «Treinamos três vezes por semana, às terças e quintas das 16h às 19h e ao Sábado das 10h às 12h». Como não havia espaço alternativo para os treinos, Bernardo aponta que o seu regresso permite recuperar o ritmo de dedicação ao boccia. Fizeram um protocolo com a Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física, para que tivessem alunos de mestrado e de licenciatura a trabalhar com a Pro-Secção, num regime de voluntariado.
«Eu às vezes nem treino, prefiro ficar a observar a felicidade dos atletas, é para isso que eu trabalho. Pode até nem resultar, mas fica um legado interessante na AAC.»
Bernardo Lopes, impulsionador Pró-Secção de Boccia da Associação Académica de Coimbra
Bernardo diz que a sua vida como Presidente não tem sido fácil. «É uma vida solitária. Têm que se tomar decisões para o grupo, o que cria algum desgaste físico e mental. Eu sou mais atleta do que um líder nato, porque tenho as emoções à flor da pele. Sofro muito com os problemas da Pró-Secção, sofro muito com os problemas dos outros. Este desporto liberta as pessoas, traz actividade. Ao estar ocupado, uma pessoa não pensa em desgraças, o boccia dá-lhe alguma coisa a que se agarrar. Muito atletas internacionais que já conheci, e que estiveram à beira do precipício, o boccia veio dar-lhes sentindo à vida. Com as competições, com as viagens. E é muito importante numa sociedade em que pensamos apenas no nosso umbigo. A Pró-Secção tem a capacidade de ajudar a UC a ficar mais inclusiva. Temos a responsabilidade de falar das acessibilidades».
Patrícia Dinis, atleta da Pró-Secção e estudante de arquivologia na UC, comenta que o boccia é «um
desporto que lhe permite praticar a motricidade dos membros superiores e que a ajuda na autodeterminação, na confiança e na socialização». Revela que tem o sonho de vir a participar nos Jogos Paralímpicos. Bernardo partilha deste sonho e acrescenta: «Depois de estar bem consolidada a casa, queremos criar as condições para sermos uma potência a nível nacional e, quem sabe, a nível internacional». Coimbra partilha destas ambições. O futuro desta secção, diz Bernardo, «depende muito do que quiserem fazer dela, a Pró-Secção não foi criada para ter lucro, foi criada para ajudar as pessoas. Eu às vezes nem treino, prefiro ficar a observar a felicidade dos atletas, é para isso que eu trabalho. Pode até nem resultar, mas fica um legado interessante na AAC».


Regras do boccia
Segundo a Federação Portuguesa de Desporto para Pessoas com Deficiência e a Paralisia Cerebral –
Associação Nacional de Desporto, o boccia é uma modalidade praticada por atletas com paralisia
cerebral e outras disfunções neurológicas. Foi influenciada pela petanca, uma modalidade
tradicional, de origem greco-romana. É modalidade paralímpica desde 1984. «Pratica-se num espaço
interior, num campo de 12,5 m de comprimento por 6 m de largura. É um desporto de precisão, em
que são arremessadas bolas de couro, seis azuis e seis vermelhas, com o objectivo de as colocar o
mais perto possível de uma bola branca chamada jack ou bola-alvo.
É permitido o uso das mãos, dos pés ou de instrumentos de auxílio (calhas) para atletas com grande comprometimento nos membros superiores e inferiores». O boccia pode ser disputada de forma individual, em pares ou por equipas. Os adversários jogam à vez consoante a cor das bolas, sorteadas previamente. A contagem dos pontos faz-se após terem sido lançadas todas as bolas. Os pontos são atribuídos de acordo com o número de bolas da mesma cor mais próximas da branca em relação às bolas do adversário. Vence quem acumular a maior pontuação.
