Em Coimbra, há uma loja inteiramente dedicada aos surfistas do betão, onde também é possível ter aulas e aprender a andar de skate, numa rampa em madeira construída à medida e feita à mão por Nuno Cabal. Antes de ter uma loja, foi professor de educação física, o que se denota na forma como fala com os adolescentes que tentam dominar a arte. A Outcast abriu em dezembro de 2019, fruto de uma «aventura» que une Nuno, a sua companheira e amigos de longa data, como Miguel Sasi, um verdadeiro «OG» do skate em Coimbra, que também já teve os seus próprios espaços e uma escola dedicada a este jogo de equilíbrio em movimento.
A Outcast cheira a madeira e metal, a luz do sol reflete no rio e atravessa a grande montra de vidro que dá para a rua e há quem pare apenas para conversar um bocado. O balcão do pequeno bar, os mostradores e o local onde se encontra a caixa de pagamento foram construídos com materiais reutilizados, num espírito «Do It Yourself» que sempre marcou este mundo, como recorda Miguel Sasi: «No início, éramos nós a construir rampas e uma série de obstáculos que estavam aí perdidos pela cidade». «É como dizem: a necessidade aguça o engenho», acrescenta Nuno Cabal, por entre risos.
O dono do espaço admite que não tem sido fácil aguentar o negócio uma vez que «o poder de compra dos portugueses tem vindo a descer bastante e o skate não é propriamente um bem essencial». Apesar disso, no final de tarde em que a Coimbra Coolectiva visita a Outcast, há movimento, três alunos persistem por entre quedas e estendem a mão uns aos outros, trocando palavras de encorajamento, entram e saem clientes e caras conhecidas. Gonçalo Rosa, de apenas 14 anos, começou a ter aulas há pouco tempo porque sentia que estava com algumas dificuldades em relação aos amigos, mas já tinha vindo comprar tábuas e sapatilhas. Para o adolescente, o skate «é um passatempo que tira a raiva e dá adrenalina».
A cidade como campo de jogo
O novo skatepark de Coimbra, construído debaixo da ponte Rainha Santa Isabel, atraiu rapidamente a atenção dos olhares nacionais e internacionais. Moldou, também, a decisão de Nuno Cabal em abrir a Outcast na Avenida Conégo Urbano Duarte. No entanto, para os dois companheiros de longa data, as expetativas criadas ficaram aquém da realidade. Para além de algumas falhas técnicas identificadas pelo lojista, acrescenta que «faltam bancos e mesas para os pais que vão com as crianças. Não há sítio para se sentarem. Podiam ter colocado mais árvores, pontos de água e locais apropriados para as pessoas almoçarem. É como construir um campo de futebol e não ter uma bancada».
Talvez por passarem tanto tempo na rua e usarem o mobiliário urbano como obstáculos para manobras, ressignificando o potencial de um corrimão ou de um vão de escadas, os skaters reforçam a necessidade de cuidar do espaço público que, para eles, é também um campo de jogo. O conimbricense Miguel Costa, residente em Oslo (Noruega), recorda com alguma nostalgia os dias passados a “skaitar” no Vale das Flores e afirma que foi aí que aprendeu, entre outras coisas, a «estar em harmonia com os outros e com o espaço». Lamenta, no entanto, que não haja mais manutenção destas instalações: «É importante que as coisas estejam em boas condições. Se houver um buraco na rampa e se um miúdo encravar a roda na rampa e se magoar, como já aconteceu, a culpa não é do miúdo, é de quem não cuidou do skatepark».
Vigilance: o skateboard como estilo
Os prédios residenciais do Vale das Flores elevam-se e multiplicam-se, mas estão abertos por uma artéria central que pulsa de vida: o Parque Linear é um local de lazer por onde rolam bolas, skates e bicicletas. Entre o campo de futebol e a «aranha» vermelha, existe uma parte cimentada que serve de skatepark, enfeitada com obstáculos. Dois jovens abrem caixas de cartão e distribuem calças e camisolas pelos amigos. São dois de três skaters que, há cerca de um ano, lançaram uma marca de roupa chamada Vigilance. «O objetivo principal para nós neste momento é ganhar visibilidade e que o pessoal use as nossas peças», explica Tomás Ribeiro, um dos criadores, com um recém concluído mestrado em Gestão de Marketing.
Começaram o projeto porque sentiam falta de boas baggy pants à venda nas lojas tradicionais, uma peça de roupa que é um símbolo da comunidade desde o início, parte das memórias dos anos 90 de skaters da «velha-guarda» como Miguel Sasi: «Quando começaram a vir as baggy pants eram calças onde cabiam quatro lá dentro. Nós de calças largas, com o cabelo meio rapado e colorido, toda a gente ficava a olhar…».
Puseram, então, mãos à obra, explica Tomás Ribeiro: «As primeiras [calças] que fizemos foi aqui em Coimbra, numa oficina pequena, uma modelista e uma costureira. Entretanto, conseguimos arranjar contactos e agora fazemos em fábricas no Porto, porque é lá que está a indústria». Apostam em ter tecidos de qualidade, bordados em vez de estampados e «tudo feito em Portugal».
O estilo surge como um dos elementos principais do mundo do skate, em que a expressão individual segue aliada da construção de um sentimento de pertença e comunidade. A roupa como uma forma de afirmação e identificação.
Tal como acontece em outros desportos radicais, as marcas de roupa e de equipamento têm um papel fundamental na sustentabilidade da prática e de quem dela quer viver. Podem, até, chegar a pagar um salário inteiro para que um determinado skater passe os dias a desfilar nas ruas sobre rodas. Deslizam e não parecem ter problemas em posar para a camâra, talvez por já estarem habituados a elas, tendo até daí surgido a ideia para o logótipo da Vigilance, explica Tomás Faia, de apenas 21 anos: «Vigilance associa-se ao skate na medida em que, quando andas na rua, fora dos skateparks, há muito aquela cena dos seguranças irem dizer que não podes, velhotes a espreitar das janelas a vigiar-nos… O nosso conceito é street puro». O mais novo dos amigos está a estudar Design e Multimédia e, nos tempos livres, dedica-se a pôr em prática o que vai aprendendo, trabalhando no design das peças de roupa da «Vigi».
Hoje em dia, tanto o street wear como o skate já são mais normalizados, processo que se veio a aprofundar com a entrada da modalidade nos Jogos Olímpicos. Contudo, há quem considere que não faz sentido aplicar parâmetros de competição ao skate, afirmam os dois rapazes: «O skate é diverso e pontuar cada manobra com uma escala não é fixe porque o skate é uma cena em que cada um tem o seu estilo». Mais do que um desporto, para eles, o skate é uma forma de expressão que sempre gerou tendências de moda.
Apesar de ainda não venderem a roupa em lojas como a Outcast, porque, como fazem pequenas quantidades, não têm margens de lucro que o permita, vão trocando ideias e impressões com Nuno Cabal de forma a perceberem como se podem apoiar mutuamente. Querem afirmar Coimbra como uma cidade «onde se anda de skate», organizar eventos que gerem movimento e atraiam multidões, como o que realizaram no skatepark do VF em dezembro do ano passado e que reuniu mais de 70 pessoas de vários pontos do país.
Como afirma o slogan da conhecida marca Santa Cruz, «skateboard is not a crime» e neste universo cabe tudo, desde adolescentes a homens e mulheres feitas, passando por pequenos empreendedores, empreendedoras e desportistas de alta competição, inspirados pelas curvas da cidade.

























