E cá estamos outra vez naquela altura do ano em que perguntamos: já se pode montar o pinheiro de Natal? A data mais consensual, seguindo a tradição cristã, continua a ser o primeiro Domingo do Advento e é por esses dias, a 2 de Dezembro, que o recém-criado movimento Vivam as Árvores conta estar a «plantar árvores de Natal» nas caldeiras vazias do Adro do Convento Velho, no Rossio de Santa Clara, em resposta à política de abates conduzida pela Câmara Municipal de Coimbra (CMC), e para dar visibilidade às falhas nos trabalhos de conservação e renovação do parque arbóreo da cidade.

«Escolhemos um sítio icónico da zona histórica, que tem árvores plantadas há 20 anos, mas muitas já morreram e as outras estão em sofrimento. Não parece que ninguém se aperceba desta situação», alerta Olga Seco, impulsionadora do grupo.
O objectivo da acção de protesto é «chamar a atenção para o aspecto desolador de um espaço que tem de ser dignificado» e está aberta à comunidade. «Podem trazer uma árvore de plástico ou até usar galhos», sugere.
Além da intervenção nas caldeiras, o movimento tem também previsto organizar um webinar para «manter a árvore na agenda, com pessoas de reconhecido mérito a falar de boas práticas nas áreas urbanas» e vai propor à CMC a criação de um Provedor da Árvore para servir de mediador entre os cidadãos e a autarquia. «É necessário haver alguém com independência e bom senso, que conseguisse ser uma voz em defesa do ambiente e que mantivesse um diálogo mais próximo», resume Olga Seco.

O movimento Vivam as Árvores começou a formar-se em Outubro, quando a CMC iniciou o corte de 135 árvores sinalizadas como em risco de queda e indicadas para abate, num relatório fitossanitário (o primeiro feito na cidade) que atestou o mau estado e alto perigo de ruptura dos exemplares. A operação, feita em duas semanas, provocou nova onda de críticas à autarquia por não considerar soluções alternativas ao derrube, desencadeou acções cidadãs em defesa das árvores, artigos de opinião e protestos nas redes sociais.
Como dos abates brotou um grupo cívico
Há pouco mais de um mês, Olga Seco, andava a «ver se conseguia digerir» o «vazio» deixado na Rua António Augusto Gonçalves, a morada da Galeria Santa Clara, que geriu nos últimos 20 anos. Ali, junto ao Portugal dos Pequenitos, cinco frondosas tílias foram deitadas ao chão, mas, numa e noutra zonas da cidade, mais alguém acordava ao som de motosserras e passava pelo «choque tremendo» de, «de repente», assistir a uma «razia» de árvores, instaladas há largas décadas na vida na cidade. «A indignação, o sentimento de injustiça e a sensação de abuso de poder» eram partilhados. «Começámos a fazer contactos para tentar juntar estas pessoas que se manifestaram e para procurar contrariar esta atitude de não dar grande valor às árvores, e achar que é possível e normal substituir espécies com 60 anos por outras mais pequenas», conta Olga Seco.
O primeiro encontro aconteceu já no rescaldo do corte maciço: entre moradores e representantes de grupos cívicos e ambientalistas, como a Quercus, ClimAção, Movimento Humor ou a Gatos Urbanos, a iniciativa conseguiu aproximar mais de duas dezenas de pessoas. Da reunião, saiu uma carta ao presidente da CMC, José Manuel Silva, e um «grito de revolta», declarado na exclamação Vivam as Árvores e que acabou por ficar como nome do novo «grupo para protecção das árvores e do ambiente em Coimbra».

Os princípios assumidos na carta a José Manuel Silva foram reiterados num segundo encontro do movimento, ocorrido no domingo, em que foi também decidida a acção de protesto no Convento Velho. O grupo censura a autarquia por não ter tido uma «atitude crítica» quando recebeu o relatório fitossanitário, nem procurado alternativas à solução proposta de abate. «Discordamos completamente da acção da Câmara. Não procedeu com a diligência necessária. Desvalorizou a questão. Quando se propõe uma devastação de uma rua inteira, como na Dias da Silva, o bom senso leva a perguntar: é mesmo preciso cortar tudo? A razia tem de ser já e feita toda de uma vez?».
As questões foram levantadas também por ambientalistas e biólogos, com o vereador Francisco Queirós, com o pelouro dos Espaços Verdes e Jardins, a defender que «seria criminoso» a CMC não abater árvores sinalizadas como de alto risco para a segurança de peões e bens. Já o movimento Vivam as Árvores mantém que em todos os casos deviam ter sido ponderadas medidas alternativas, como a criação de estruturas de suporte.
«Não queremos estar contra a Câmara, mas não vemos uma atitude de aceitar uma mudança de paradigma, que é precisa. Não é aceitável destruir uma rua com sombra, árvores e pássaros, arrasar toda esta delicadeza, sem falar com os moradores, sem dizer nada», reforça.
«É necessário haver alguém com independência e bom senso, que conseguisse ser uma voz em defesa do ambiente e que mantivesse um diálogo mais próximo.»
Olga Seco, Vivam as Árvores
Novas plantações com prognóstico reservado
Na semana passada, a autarquia começou a executar o plano de plantações para substituir as árvores cortadas, tendo sido já substituídas cerca de 100 por outras de menor dimensão. Os números não impressionam Olga Seco: «O prognóstico não é bom. Não há rega, as caldeiras são minúsculas, as árvores estão rodeadas por alcatrão e calçada, estão sozinhas, são jovens, não têm sombra, não estão amparadas. Se não formos nós, cidadãos, a regá-las não vão resistir ou então vão crescer muito pouco; não vão ter condições para se tornarem grandes e criarem habitat para pássaros».
A CMC prepara-se também para apresentar o Plano Municipal de Plantações para 2024-2025, com um investimento previsto de 400 mil euros.
Há 480 caldeiras que estão vazias, de acordo com o mapeamento feito pelo movimento Eu Também.
