A figura do mestre rodeado de aprendizes sedentos de conhecimento é uma imagem presente de um passado não muito distante. Na oficina aprendia-se o mester pela repetição e pelo ver fazer bem. Esta transferência de saber em aprendizagem de proximidade tem-se diluído na era da rede social Youtube, em que se recorre a vídeos para suplementar a falta de conhecimento com quase tudo, do consertar aparelhos ao simples cerzir de meias. Mas isto não é sabedoria, é o camuflar do desconhecimento. O saber recolhe-se com formação e acompanhamento, com a proximidade entre o mestre e aprendiz, formador e formando, em família alargada. Esta é a razão de ser do Centro de Formação Profissional para o Artesanato e Património, de acrónimo Cearte.

Luís Rocha, o director, recebe-nos sorridente e anuncia uma breve apresentação: «No Cearte, tudo são competências», referindo-se ao acumular de experiências que ali ocorrem. «O padre António Sousa, que era o presidente da Cáritas da altura, teve a visão de criar um centro de formação profissional com esse objectivo. Sentia que os organismos ligados à acção social se limitavam a dar o peixe. Ele entendeu que, mais importante que dar o peixe, era dar a cana, ensinar as pessoas a pescar e a gerir o pescado para que ele pudesse ser um sustento. Esta visão é ainda a que temos hoje, de tentar dar às pessoas, sobretudo àquelas mais desfavorecidas, um conjunto de ferramentas que lhes possibilitem mudar a sua vida. Dar competências técnicas ao nível do empreendedorismo, não só pela formação profissional, mas também através do apoio técnico».

«O Cearte», acrescenta, «trabalha a nível nacional com os principais centros de artesanato e com todas as produções artesanais certificadas. Estão ao serviço da sociedade como um todo, mas de forma particular naquilo que foi a génese da sua criação: o artesanato». E, há 4 anos, também o património.
As pessoas fazem o local
Para cumprir o seu desígnio formativo, o Cearte conta com um amplo conjunto de formadores das mais diversas áreas, da cerâmica ao restauro, da fotografia ao design e computação, emparelhando a formação prática com a mais recente tecnologia.


Numa sala espaçosa, a formadora Fátima Deus conduz uma aula de costura à distância, várias dezenas de olhos seguindo com curiosidade cada um dos seus movimentos. João Ferreira mostra orgulhosamente a oficina em que se trabalha com vidro e vitral, direccionado à produção artística e ao restauro. Rosário Pereira, formadora da área da cerâmica e pintura, habita, como diz, salas bem apetrechadas de cabines de vidragem, ferramentas e fornos a gás e eléctricos.
«A [nossa] preocupação é passar o conhecimento. Pensamos à partida numa peça que possa ser mais interessante e que a partir dali se possam desenvolver outras, com outros conhecimentos que [o formando] venha a adquirir». Os formandos são encorajados a testar continuamente. Explica ainda que: «Há pessoas que ficaram no desemprego, acharam [a formação] interessante e foi uma boa revelação, porque eram de áreas distintas. Com e sem formação superior. Curiosamente tenho duas pessoas que fizeram formação comigo que vêm fazer cozeduras aqui, a par do trabalho que já têm».


Maria Barbosa e Ana Paula Pinto encontraram na formação de têxteis do Cearte um importante complemento ao seu percurso. Ana Paula Pinto tem um projecto pessoal em que trabalha com scrapbooking, manipulando papel com tecido. «Escolhi o Cearte para dar corpo a este projecto. Eu, nesta fase da minha vida, encontrei-me a necessitar de algo mais do que só tecnologia, que foi a minha vida durante mais de 25 anos. Precisava de algo que fosse mais criativo. A minha mãe foi costureira, tinha uma mestra, aquilo era tudo feito à mão. Nós temos todos boas ideias, mas depois e saber como se manipula um tecido?».
Maria Barbosa é engenheira do ambiente. «Trabalhei muitos anos em Lisboa e quando engravidei decidi voltar para Coimbra e não quis voltar à engenharia. Tive que arranjar uma alternativa. Fiz no Cearte o curso de técnico especialista de conservação e restauro. Entretanto, fui fazer o meu estágio no Museu Nacional Machado de Castro e apaixonei-me, não tanto pelo restauro, mas pela conservação. Nesta área nós temos que ser muito polivalentes, há sempre muitos desafios. As esculturas têm tecidos, nós temos também que fazer conservação de tecidos e há uma quantidade de competências que é preciso acumular. Depois foi-me designada a área da pintura que também implica conservação de telas. Pensei: “Vou ter que arranjar competências”. Eu queria competência manual».

Ana Paula concorda: «[Procuramos] diversificar as nossas competências, de uma forma mais polivalente e, depois, também temos a nossa parte criativa e emocional que entra dentro do nosso projecto». Maria Barbosa completa: «A ideia que as pessoas tinham do Cearte era que eram pessoas desocupadas, vinham cá ocupar tempo. Esse é um preconceito. Não é ocupar tempo, é um percurso. Se nós soubermos utilizar esse percurso, nós conseguimos ir buscar as ferramentas que precisamos. É um caminho técnico, de pôr a mão na massa».
Inês Dias, que frequenta o curso de museologia, museografia e gestão de património, tem formação em história e arqueologia e viu no Cearte a oportunidade de aprofundar conhecimentos. «Vim da faculdade com conhecimento não tão prático e aqui tive a oportunidade de aprofundar conhecimentos mais práticos. Esta é uma gratidão que tenho com esta instituição, que é de nos dar uma componente muito prática. A perspectiva é haver um estágio em contexto de trabalho, onde vamos ser postos à prova com tudo o que levamos da vida e tudo o que levamos daqui, com acompanhamento por parte do Cearte. Tenho em vista o Museu Nacional Grão Vasco. Ou então Santa Clara-a-Velha, pois tenho uma grande paixão por aquilo».


Márcio Jesus frequenta o curso de técnico especialista de desenvolvimento em produtos multimédia. «Eu já tinha tirado vários cursos aqui no Cearte, de fotografia e marketing. É uma acumulação de saberes. Surgiu numa altura em que eu fiquei desempregado e estava aqui a fazer uma formação de fotografia. Tenho o objectivo de criar um projecto pessoal, uma possível loja online, que será o projecto final, o desenvolver da ideia, vindo já de todos os módulos que constituem a formação. O Cearte tem muitas boas condições, comparativamente com outros locais, de software e equipamento».
Vários caminhos aqui convergem, numa construção de experiências adaptada caso a caso. Há quem procure renovação e qualificação profissional, quem queira construir um percurso e quem procure certificação. Criam-se sinergias, há entreajuda entre formandos e entre estes e a estrutura, e essas entreajudas permanecem. Ana Paula complementa: «Há uma coisa muito boa aqui no Cearte. Sempre que acabamos os cursos, continuamos a ter acesso, não vamos para o mundo do trabalho sozinhos. Quando eu tenho um problema, sinto-me acompanhada pelo Cearte».
Os inquéritos distribuídos aos formandos pelo Cearte, para apreciação crítica de todos os cursos, têm uma taxa de satisfação superior a 90%.

Apoio à inovação
O Aid Lab ‘s é um serviço dentro do Cearte que congrega diversos recursos de apoio ao artesão, ao artesanato e ao desenvolvimento de microempresas e ideias de negócio. Junta o Centro de Recursos de Conhecimento, que é «muito mais do que uma biblioteca». E também o Laboratório de Orientação Criativa (LOC), que é uma das ferramentas do Cearte em que se faz o processo de tutoria e acompanhamento do artesão.

João Amaral, designer do Cearte e um dos responsáveis pela estrutura, explica: «O LOC funciona de forma muito engraçada, nós basicamente não fazemos nada. A pessoa vem cá e faz tudo, apresenta-nos um problema e nós, dentro do nosso know-how, dentro da experiência de 35 anos que o Cearte tem, tentamos apresentar o maior número de soluções possíveis e os respectivos pontos positivos e negativos de cada uma dessas soluções. Porquê? Nestes 35 anos de actividade, o Cearte percebeu que a maioria dos artesãos trabalha sozinho. Eu costumo dizer que somos o Grilo Falante da história do Pinóquio. Nós estamos cá para sermos uma espécie de conselheiros, somos um parceiro para todas as ocasiões. Nós não fazemos a tomada de decisão, o negócio é da pessoa, o investimento é da pessoa e os benefícios serão da pessoa. Nós neste processo ainda é mapa à moda antiga, apresentamos todos os aspectos positivos e negativos para cada uma das direcções [do mapa]. Mas é a pessoa que tem que tomar a decisão, se vai pela esquerda ou pela direita». Diz ainda: «Uma coisa que gosto de dizer, mas está errada, é que o Cearte é um FabLab gigante de baixa tecnologia, agora não tão baixa assim».
O Cearte prolonga-se em parcerias
Com sede em Coimbra, o Cearte também tem pólos em Semide, Miranda do Corvo e Cabaços, Alvaiázere. Luís Rocha refere: «Estes são os pólos fixos. Damos formação todos os anos em cerca de 100 locais, em parceria com entidades locais que identificam as necessidades que têm, seleccionam os formandos, disponibilizam as instalações e nós utilizamos as instalações daquela entidade local durante o tempo da formação».

Estas parcerias surgem, como explica Luís Rocha, porque o Cearte «todos os anos envia um inquérito de necessidades de formação». «Mandamos para as nossas entidades parceiras e para outras que já conhecemos, que têm um trabalho já grande na área do artesanato e património, e pedimos que identifiquem na sua região, que necessidades de formação é que há. São câmaras municipais, universidades, associações de desenvolvimento, de artesãos. Eles identificam, manifestam as necessidades e depois nós respondemos. É uma parceria efectiva a esse nível. Nós não temos um modelo, o nosso plano muda todos os anos».
O Cearte tem assim inúmeras parcerias, como com a Câmara da Póvoa de Varzim, com formação relacionada com a camisola poveira; com o Instituto Politécnico de Tomar, com quem partilham laboratórios e com a Escola Artística António Arroio, dando formação a docentes; entre inúmeras outras.

Sobre Coimbra
«Coimbra não é um terreno fácil. Estamos absolutamente disponíveis para ser desafiados e estamos sempre a desafiar [para parcerias]», comenta Luís Rocha.
Com o Centro Integrado de Apoio Familiar de Coimbra (CEIFAC), o Cearte participou na criação de uma unidade produtiva de sabão na Alta, o Sabão com Arte. Com a entidade agora chamada Micaela (a anterior Ergue-te) estabeleceu a parceria com a estrutura de emprego protegido, que acolhe mulheres em situação de risco. Com a Cáritas de Coimbra desenvolvem formação na Rua Direita e no Bairro do Ingote. São também parceiros do FabLab Coimbra. Deram formação a jardineiros do Jardim Botânico e formação em restauro de livros aos técnicos da Biblioteca Joanina. Trabalham também com o Seminário Maior.
«Estamos a criar um curso com a Escola Superior de Educação de Coimbra na área do design têxtil. Temos uma parceria com a Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, com o Curso de Restauro em Madeira e Arte Sacra».

Participaram no projecto Cultivar Futuros na área da agricultura biológica, com a Escola Superior Agrária de Coimbra, entre outros parceiros. Desenham uma nova parceria com o Centro Tecnológico da Cerâmica e do Vidro, para criar um centro incubador de empresas da área da cerâmica. Desenvolvem ainda uma parceria com o Museu da Ciência, no sentido de criarem o primeiro curso de taxidermia em Portugal. O exercício de abarcar todas as parcerias e colaborações do Cearte é inesgotável.
Internacionalizar
Ana Cristina Mendes, directora adjunta do Cearte e membro da direcção do World Craft Council Europe, uma organização integrada no World Craft Council, refere sobre a organização em que se integra o centroe, que «desenvolvem um significativo trabalho em rede e na criação duma voz do artesanato ao nível europeu, tentando divulgar e circular informação. Neste momento foi aprovado um projecto significativo, o Crafting Europe. Irá reforçar o networking, a transmissão de conhecimento para outras gerações, os ofícios que estão em perda, a promoção e valorização das artes e ofícios ao nível europeu. É um dos problemas para que não haja tanta capacidade de lobbying junto de Bruxelas, que é de não conseguir apurar o número de negócios e o volume de negócios que [o artesanato] gere». O Cearte está ainda envolvido noutros projectos à escala europeia.

Planos
O Cearte tem uma candidatura aprovada ao Plano de Recuperação e Resiliência, no sentido de renovar parte do equipamento. «Não é para crescer [fisicamente], para ter mais oficinas, é para ser melhor e ter melhores postos de formação, ainda melhores do que já temos. E para ter postos de formação noutras áreas que até aqui não temos tido, como o técnico de turismo cultural e patrimonial. Queremos investir mais na área do restauro e também na área do design têxtil».
