Tudo começou aqui, no Instituto Pedro Nunes, há seis anos. «O Leonardo até encontrou uma fotografia, mostra aí Leonardo», atira Hugo Tocha. A imagem mostra uma mesa cheia de post-its e um cartão com um logo e o nome: TUU. «Não estávamos completamente confortáveis nem acreditávamos muito na ideia que Coimbra passa, desta forma um pouco sobranceira de tratar as pessoas por doutor e senhor engenheiro, na verdade nenhum de nós é isso, acho que foi uma moda mas que caiu em desuso e [o nome] TUU vem nesse sentido», explica o arquitecto, que nos recebeu com os sócios no segundo dia da Academia TUU – Summer Edition, no edifício D do IPN.


Mostram-nos outra fotografia. Aqui Hugo Tocha, Leonardo Crisóstomo e Hélder Loio estão sentados numa mesa, numa altura em que a empresa do ramo da construção aliada à tecnologia dava os primeiros passos. «Lembro-me disto tão bem, nas primeiras semanas, sempre que havia um cliente dizíamos: “Bora lá os três”! Na terceira semana já dizíamos que tínhamos não sei quantas coisas para fazer, começámos a perceber quanto é que custava uma hora de cada um e rapidamente começamos a perceber que não dava para irmos os três a tudo.»
A ideia da TUU – Building Design Management era só fazer gestão de projectos mas evoluiu para muito mais, da fiscalização e acompanhamento de obras à negociação de empreitadas e plataformas de software de gestão de projetos e investimentos, como a Buildtoo. De Braga a Castro Verde, hoje são 81 os TUU’s espalhados pelo país, com as receitas a duplicar a cada ano que passa – neste, já a ultrapassar 1 milhão e 800 euros. «O caminho levou-os para os serviços e queríamos que a tecnologia fosse trazida para o processo, por isso é que viemos para aqui», conta Loio, enquanto, na sala ao lado, Carlos Cerqueira, business developer management na Neurospace, fala sobre inovação a partir do exemplo de William Kamkwamba que, aos 13 anos, inspirou-se num livro de ciências e construiu uma turbina eólica para salvar a sua aldeia da fome. A história foi adaptada para filme (O Rapaz que Prendeu o Vento, 2019) e serve para explicar como «nunca temos todos os recursos mas podemos fazer e inovar com aquilo que temos».


Aulas práticas e fora de portas
Durante toda a semana, profissionais da TUU acompanham duas dezenas de jovens, a maioria com idades a rondar os 22 e os 23 anos, a conferências, debates, brainstormings e encontros descontraídos com agentes locais, para não só ensinar mas sobretudo apresentar a cidade. Formados em áreas ligadas à construção como o design, a arquitectura, as engenharias e a comunicação, e de origens que vão desde a própria Coimbra ao Equador, Brasil, Lisboa e Viana do Castelo, a ideia é que o grupo não só tenha vontade de trabalhar na área como de o fazer por cá.
Atrair talento para a cidade é o mote do programa que acontece até 22 de Julho e que é, acima de tudo, uma oportunidade. «Quando tinha a idade deles isto era uma coisa que era tão distante. Não existia. Não me recordo de existir uma empresa, fosse ela qual fosse, que organizasse uma semana assim, com quase tudo pago…não existia», diz Hugo Tocha que, com 22 anos, diz que estava a sair da tropa para ir estudar. Leonardo acredita que estaria «num exame qualquer» mas Hélder, que começou a trabalhar mais cedo, já era fiscal na obra do antigo centro comercial Dolce Vita. «Mas adorava ter feito isto. Falar de tecnologia aliada à construção, era uma coisa distante!»

Das salas do IPN até à esplanada da Praxis, os temas de conversa vão deambular entre a construção 4.0 à sustentabilidade, digitalização, eficiência energética dos edifícios, domótica e metaverso, inclusive com nomes como António Meireles, fundador da ndBIM Virtual Building, João Marcelino, membro fundador e Presidente da Associação Passivhaus Portugal e a investigadora Maria João Feio, do MARE-Marine and Environmental Sciences Centre & Laboratório Associado ARNET.
O Futuro da Construção é o tema principal desta iniciativa pensada e criada para os mais jovens, na qual, através da partilha de experiências, a empresa que em 2016 começou a tratar a cidade por TUU acredita ser uma mais-valia para a formação, proporcionando um primeiro contacto com o mercado de trabalho de uma forma dinâmica, informativa e motivadora. «Queríamos que a Academia fosse uma réplica do espírito da TUU e, por exemplo, ter engenheiros civis, arquitectos, designers, marketeers, tudo como a TUU tem. Que é que há ali mais dentro? Engenheiros civis. Faz sentido, na TUU também. E há engenheiros do ambiente, designers, engenheiros electrotécnicos», explica Hélder Loio, defendendo igualmente a paridade entre géneros. «Estamos aqui para quebrar todos os preconceitos, até esse», chuta o CEO.


O problema da falta de recursos humanos
Entre os apoios institucionais da Academia TUU – Summer Edition, totalmente gratuita para os participantes que apenas têm de se preocupar com o alojamento na cidade, está a Fundação da Juventude. «Porque nós somos neste momento óptimos clientes, vamos lá todas as semanas. Há mais? Bora, mandem!», conta Hélder Loio. O engenheiro diz que atrair talento é uma das grande dificuldades da área da construção actualmente «porque não estamos a formar» e admite que se trata de «um limite» ao crescimento das próprias empresas. «Não havendo mão de obra, bem podes querer crescer que não consegues, começamos a ter gente de outras nacionalidades mas há barreiras à entrada que são terríveis, se não é a legal é a certificação que tem de ser reconhecida ou é a língua.»
Os mentores da iniciativa confessam que a ideia já estava na calha desde a génese da empresa, que mais do que uma fonte de negócio queria ser um centro de conhecimento, e que a ideia é que, no final da semana, «estes miúdos pensem: “Espera aí, viver em Coimbra é fixe e a construção já não é o que se dizia no meu tempo, que se dizia que quem se portasse mal ia trabalhar para as obras.”» Hélder Loio explica que «é preciso que todos percebamos que já há tecnologia associada à construção, que os prédios de arquitectura já se fazem de outra maneira diferente do que se fazia no tempo dos estiradores, que fazer fiscalização não é estarem 5 pessoas a olhar para a abertura de uma vala, é conseguir abrir a cabeça. Queremos acreditar que estes miúdos vão, de certa forma, arranjar aquilo que nós estragámos. Quando estás a construir território, a construir cidade, na verdade estragas sempre um bocadinho. Nós fazemos a nossa parte mas há muito por fazer.»

Confiança e informalidade
A Academia tem um grupo no whatsapp onde todos, organização e participantes, vão partilhando durante o dia comentários e fotografias, inclusive selfies com os fundadores. «Esta mescla de períodos para trabalhar com lazer acaba por criar dinâmica e laços», diz Leonardo Crisóstomo. «Acho que vão fazer aqui amigos que os vão acompanhar e ganhar referências. Quem conhece a TUU sabe que além de construção nós gostamos de falar de cidade, vinho, futebol, paddle, squash, nós gostamos é de viver na verdade, por isso esta ideia de ter uma academia fechada na TUU durante uma semana não era um dos objectivos. Se queremos atrair talento para a TUU significa também atrair talento para Coimbra», confirma Hélder Loio, nesta conversa em que os três (também) amigos continuam as frases uns dos outros e se concorda que aqui o número ímpar e a complementaridade são dois importantes segredos do negócio.
Estamos à porta de um evento da Academia e Hugo, Hélder e Leonardo estão focados nesta entrevista, porque há stories nas redes da TUU a sair, obras a acontecer, faturas a sair, arquitectos a trabalhar.

O programa da Academia foi pensado para começar com o perceber o que é um território de uma forma global, inovadora e sustentável e uma das sessões é dinamizada por «três TUU’s», que fizeram estágios de Verão na empresa e sabem o que é estar dos dois lados. O sucesso de uma edição piloto da Academia TUU, em Maio, que decorreu durante apenas um dia mas com o envolvimento de cerca de 130 pessoas, ajudou a angariar parceiros fieis. Entre os patrocinadores da iniciativa, estão empresas como a Climacer, JRC Construções, KNAUF, Reynaers, Mapei e Robbialac.
«Fala-se muito de atractividade mas é difícil convencer alguém a mudar-se para Coimbra. Esta ideia que temos de vir falar destes temas actuais aqui e espalhar esta gente pela cidade, vão dormir em Coimbra, jantar em Coimbra, vão visitar Coimbra e falar aos amigos. Acreditamos que vai ajudar a falar bem da cidade, que tem muito para dizer bem, vai ajudar a falar bem do trabalho na nossa empresa e outras da nossa cidade e não houve ninguém com quem falámos que tivesse dito: não faz sentido.»

«As pessoas estão sedentas de coisas organizadas com propósito e com consequência. E com muita facilidade: OK, bora lá, nós damos dinheiro para isso, nós ajudamos a montar», atira Hugo Tocha, que também acredita que uma certa moda de dizer mal da cidade está a passar e finalmente as pessoas começam a dizer: «Não, espera, nem tudo é mau, Há muitas coisas que não estão bem mas há muito para fazer e muitas pessoas a dizer mal só por dizer mal.» A TUU acabou de assinar o maior contrato de sempre em Coimbra, com o Metro Mondego, para fiscalizar a linha Linha Aeminium – Hospital Pediátrico, que promete mudar a forma como se vive a cidade e permitir a Coimbra mudar, apesar de ter um preço.
«As pessoas querem ter o benefício da intervenção mas não querem passar pela chatice que acarreta, mas não se transforma a cidade sem incómodo», diz Hugo Tocha. «É o nosso maior contrato mas estarmos associados a essa transformação da cidade é um orgulho. Se tivesse de ir fazer isto para Braga não era o mesmo. Fazer parte desta transformação é um orgulho», atira Leonardo Crisóstomo.

O que fica
«Gostávamos que eles levassem estas ideias, saíssem daqui com ideias. Se ficarmos com alguns – e temos ficado com todos os estágios de Verão – será para nós fantástico, significa que eles também são talento e nós precisamos é de talento; depende de nós mas depende sobretudo deles, há espaço», remata Hélder Loio. Os participantes na Academia TUU vão desenvolver e apresentar ideias de negócio no âmbito da construção 4.0 num jantar onde vão estar várias entidades locais, inclusive a Câmara Municipal, patrocinadores e comunicação social como a Coimbra Coolectiva, que é media partner. «Se na nossa rede de parceiros também conseguirmos que fiquem uns quantos a trabalhar será um prazer; que estes miúdos no fim, acima de tudo, sejam felizes. Estamos aqui a construir um bocadinho aquilo que vai ser o futuro da nossa área.»

Leonardo diz mais: «Podemos estar parados a pensar a cidade mas não, nós gostamos de pôr isso na prática, e o valor que se calhar as pessoas nos reconhecessem é por isso. Deixemo-nos de estar só nas mesas redondas desta vida e passemos à prática.» Opiniões dos empreendedores que conseguiram construir não apenas edifícios mas uma marca na região e no país, numa área como a construção, onde o conflito está sempre presente. «Não conseguimos chegar sempre a bem ao final das obras, está cada vez mais difícil. Dizemos a um cliente que a casa vai custar 500 mil e quando chegamos à fase de entregar um orçamento passa a um milhão, neste momento é o que está a acontecer e o mesmo com os prazos.» O dia zero da TUU foi há 6 anos mas a equipa confessa que o esforço continua a ser diário «para que as pessoas acreditem em nós». Corre sempre tudo bem? «É claro que não. Só corre tudo bem a quem não faz coisa nenhuma.» E numa referência ao filme sugerido por Carlos Cerqueira, Tocha remata: «Nós não inventámos mas fomos fazer a turbina eólica num sítio onde não havia turbina eólica.»
Podem ver aqui o programa da Academia TUU, que conta com uma participação especial da Coimbra Coolectiva no dia 21, com uma apresentação sobre «Ser agente de mudança».
