As tempestades que ocorreram no fim de janeiro deixaram marcas profundas na cidade de Coimbra. Seis meses depois, essas marcas continuam a condicionar o quotidiano de centenas de estudantes e professores. Um dos locais que foi mais afetado foi o Departamento de Arquitetura (DArq) da Faculdade de Ciências e Tecnologias da Universidade de Coimbra (FCTUC), instalado no Colégio das Artes. A intempérie Kristin não criou o problema — apenas o expôs. Já em 2019, a Universidade de Coimbra tinha apresentado um projeto de requalificação do edifício avaliado em 10 milhões de euros, sem prazo definido para a sua conclusão. Sete anos depois, sem que essa intervenção tivesse arrancado, foi uma tempestade a forçar o que o planeamento institucional não tinha conseguido.

As origens do Colégio das Artes levam-nos até à Rua da Sofia, onde se encontrava instalado. Fundado em 1547, ele foi transferido para a Alta Universitária em 1565, enquanto espaço letivo da UC, sob a tutela da Companhia de Jesus. Chegou a albergar os hospitais da universidade entre os séculos XIX e XX, juntamente com o Colégio de São Jerónimo. No fim dos anos 80, o Colégio das Artes, com mais de quatro séculos de história, acolhe finalmente os estudantes de arquitetura como espaço de ensino.

Após as tempestades, a Proteção Civil viu-se obrigada a encerrar o edifício, devido a questões de segurança. O encerramento do Colégio das Artes levou à transladação da atividade letiva para outros espaços da UC, um deles o Colégio de Jesus, em frente ao Museu da Ciência. Pouco tempo depois, foram iniciadas as obras de requalificação, que se encontram atualmente a decorrer na Ala Norte.

A ocupação do DArq e a necessidade de espaço

O curso de arquitetura, que se encontrava inicialmente instalado no Departamento das Matemáticas, foi ocupando gradualmente o espaço do Colégio das Artes. A ocupação deste edifício implicou, por sua vez, uma mudança estrutural no ensino de arquitetura, de acordo com Luís Miguel Correia, atual diretor do DArq. “O curso estava montado utopicamente para arquitetos tecnológicos e fomos nós, estudantes, que percebemos que não era esse o caminho”, refere o docente.

Luís Miguel Correia acredita que, ainda hoje, “o DArq ainda está a crescer” e, com esse crescimento, aumentam também as necessidades. À medida que a presença do curso de arquitetura nos espaços do Colégio das Artes se fazia sentir cada vez mais, o mesmo aconteceu à sua atratividade para futuros estudantes. Atualmente, o espaço acolhe não só o curso de Arquitetura, mas também o curso de Design e Multimédia, que se encontra sob a tutela do Departamento de Engenharia Informática da FCTUC.

Devido à longa história do edifício, Luís Miguel Correia considera que o DArq foi herdeiro “de várias condições, à medida que se ia ocupando o espaço”. O atual diretor aponta que foram sendo feitas algumas intervenções pontuais, mas sublinha a necessidade para uma “intervenção de base”, assinalada há algum tempo.

Essa necessidade também é sentida pela sua comunidade estudantil. Matilde Tavares e Alice Neves, alunas do quarto ano e representantes do Núcleo de Estudantes de Arquitetura da Associação Académica de Coimbra (NUDA/AAC), apontam que, além das questões infraestruturais que se têm arrastado ao longo dos anos, “sempre houve uma necessidade de mais espaço”, de forma a garantir as condições ideais para o desenvolvimento da atividade letiva. A mudança de local imposta pelas obras, segundo as duas estudantes, acentuou este fator.

Consequências da tempestade Kristin

Os estragos provocados pelas intempéries manifestaram-se de forma geral em toda a infraestrutura do Colégio das Artes. Luís Miguel Correia assegura que “nunca tinha visto nada assim”, reforçando a necessidade de evacuação do edifício nos momentos que se seguiram à tempestade, devido aos riscos associados. Matilde Tavares e Alice Neves admitem que o nível de estragos que a tempestade Kristin provocou “foi um choque” para toda a comunidade do DArq.

Segundo o atual diretor, os principais danos cingiram-se à Ala Norte do edifício, que se encontra atualmente sob intervenção. “Essa ala esteve a céu aberto, caía chuva como na rua”, sublinha. O também docente dá conta de estragos na Ala Poente, onde se encontrava a sala do primeiro ano, bem como na Ala Sul do Colégio das Artes.

Matilde Tavares recorda que, na manhã seguinte à tempestade, ficou “horrorizada” com o que testemunhou. Segundo a estudante, a Ala Norte do edifício “tinha buracos gigantes, terra a cair e água como se fosse uma cascata a cair em cima de maquetes”. A dirigente associativa explica que, mesmo antes da Proteção Civil encerrar o edifício, o NUDA/AAC se prontificou para ajudar com os esforços de evacuação e também se envolveu nas conversas sobre os próximos passos a tomar. “Foi redigido um Caderno de Recomendações, com coisas muito práticas para podermos retomar à normalidade”, explica Matilde Tavares.

Tanto Matilde Tavares como Alice Neves atestam que, após a necessidade de encerramento e deslocação da atividade letiva do Colégio das Artes, a reitoria da UC tem mostrado disponibilidade e abertura para colmatar as necessidades dos estudantes. Uma dessas instâncias foi a possível reabertura do bar do departamento, que ambas as estudantes sublinham ser um espaço fundamental para a vivência de todos os membros da comunidade académica do DArq. Atualmente, o bar do DArq encontra-se aberto para receber tanto estudantes como professores.

Plano de reabilitação em curso e as suas fases

Há um mês, no dia 7 de julho, foi feita uma visita formal ao edifício do DArq, que contou com a presença dos dois arquitetos responsáveis pelo Plano Global de Requalificação do Colégio das Artes, Alexandre Dias e Paulo Providência, também docentes do curso de Arquitetura. Esta visita teve como objetivo fazer um ponto de situação nas obras que estão a decorrer neste momento na Ala Norte, assim como apresentar formalmente o plano de requalificação na sua totalidade. Também marcaram presença o reitor da UC, Amílcar Falcão e o vice-reitor para as Infraestruturas e Edificado, Alfredo Dias, assim como Luís Miguel Correia e Jorge Figueira, diretor do departamento entre os anos 2010 e 2017.

O plano está dividido em quatro fases, sendo que a fase 1 já se encontra a decorrer. De acordo com Paulo Providência, a segunda e terceira fases vão priorizar os acessos à Ala Poente e Sul, e a quarta e última fase tem como objetivo a recuperação da Ala Nascente.

O arquiteto revelou que, durante o processo de consolidação, uma das principais preocupações foi garantir condições para a cobertura. Por outro lado, Alexandre Dias acredita que este projeto, ao nascer dentro do DArq, tem oportunidade de não só envolver vários departamentos da UC, mas também de contribuir para “a produção de conhecimento” dentro da própria universidade.

Jorge Figueira, que presidiu ao Conselho Científico em que nasceu o projeto de requalificação em vigor em 2012, afirma estar “satisfeito com o projeto”. O também arquiteto e docente do DArq acredita que o plano faseado, algo que já tinha sido proposto pela docência em anos anteriores, tem o potencial de levar o ensino de arquitetura mais longe, pelo que reforça a sua solidariedade com o projeto.

Quando tomou da palavra, durante a sessão de apresentação do plano, Alfredo Dias inseriu este projeto dentro do plano global para a recuperação do edificado. Este projeto, que já se encontra em vigor, de acordo com o vice-reitor, exigiu “planeamento a curto, médio e longo prazo”, de forma a responder às necessidades de todas as estruturas da UC.

As obras que precisam ser feitas, segundo Alfredo Dias, incluem intervenções à estrutura do Paço das Escolas, que se encontra em fase de conclusão, e, além da requalificação do Colégio das Artes, também englobam a recuperação do edificado da AAC. O vice-reitor reforçou que o “envolvimento de várias valências da UC valoriza o projeto e ajuda a motivar a própria comunidade”.

Já Amílcar Falcão relembrou que a manutenção da atividade letiva do DArq é uma prioridade. Ao mesmo tempo, o reitor da UC afirmou ser importante manter “a proximidade do Colégio das Artes” durante o processo das obras de requalificação. Desmente que as obras começaram por causa das tempestades, ao referir que o contrato para a empreitada “já tinha sido assinado meses antes”, pelo que as obras iriam começar independentemente das intempéries. A afirmação, pensada para desligar a intervenção da tempestade, tem um efeito lateral: confirma que a universidade já sabia, antes de Kristin, que o edifício precisava de obras urgentes — e que, mesmo assim, essas obras só ganharam calendário depois do temporal. O reitor da UC acredita que a requalificação do Colégio das Artes será “um orgulho para a UC e para a cidade”. Nem todos, na comunidade do DArq, partilham a mesma leitura sobre o que levou a esse orgulho tardar tanto.

O passado e o futuro do Colégio das Artes

Tanto Luís Miguel Correia, como Matilde Tavares e Alice Neves reforçam a necessidade de a comunidade do DArq voltar a estar toda junta, seja qual for o desfecho. O atual diretor do DArq considera que o Colégio das Artes “é fundamental para a sobrevivência dos cursos de Arquitetura e Design e Multimédia”. Nesse sentido, Luís Miguel Correia não considera sustentável o afastamento da comunidade académica por um longo período. “Nós não podemos estar separados, porque a aprendizagem da arquitetura não se faz como nas restantes áreas”, sublinha o também docente do departamento.

Matilde Tavares e Alice Neves partilham a mesma perspetiva e recordam a entreajuda e partilha que costumava ser habitual entre os vários estudantes de arquitetura. De acordo com Matilde Tavares, era comum os estudantes estarem juntos a desenvolver projetos e “irem às salas do lado ver como estava tudo a correr, oferecer ajuda e opiniões”, algo que a dirigente associativa considera fundamental. “Perdeu-se bastante a proximidade que tínhamos, por estarmos agora separados em edifícios diferentes”, refere também Alice Neves.

Jorge Figueira, por sua vez, confessa que, durante os anos que assumiu a direção do departamento, sentiu alguma desresponsabilização por parte das autoridades tutelares do Colégio das Artes.

“O edifício do Colégio das Artes é um dos problemas assinalados em relação ao ensino de arquitetura em Coimbra, o que é irónico, porque é um edifício fantástico.”

Nesse sentido, o diretor emérito do DArq reitera que coube à docência e à comunidade estudantil “exercer alguma pressão elegante” para que os problemas se resolvessem — uma forma cuidadosa de dizer que a pressão, elegante ou não, foi necessária.

Luís Miguel Correia confessa que, face às condições do edifício, preferia que se tivesse optado por uma estratégia que englobasse uma “intervenção por completo na cobertura, por se garantir a salvaguarda do edifício na íntegra”. No entanto, reforça o seu apoio pela estratégia escolhida pela reitoria que, segundo o atual diretor do DArq, se encontra comprometida, juntamente com a direção da FCTUC, para “proporcionar condições dignas e de segurança”. Assim sendo, Luís Miguel Correia considera ser mais proveitoso “olhar para o futuro” do Colégio das Artes — ainda que o futuro, para já, continue a ser medido em fases e prazos que se vão sucessivamente adiando.

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