Dos nove deputados eleitos pelo distrito de Coimbra na eleições legislativas de 30 de Janeiro, seis são do Partido Socialista (PS) e três do Partido Social Democrata (PSD). O Bloco de Esquerda, que desde 2009 elegia José Manuel Pureza, vice-presidente da Assembleia da República nesta última legislatura, deixou de ter representação. Entre os que entram, estão caras conhecidas da política local e nacional, traçámos o perfil de todas elas e recolhemos reacções, comentários e expectativas para a legislatura que agora começa.

Marta Temido | A ministra da pandemia
47 anos
Natural de Coimbra
O percurso político e pessoal de Marta Temido fica marcado pela pandemia da Covid-19, que teve o primeiro caso em Portugal há quase dois anos, a 2 de Março de 2020. Como ministra da Saúde, Marta Temido tem sido um dos rostos mais mediáticos do combate ao vírus, levando-a a ser protagonista nas notícias muitas vezes. Agora admite assumir o seu cargo de deputada eleita pelo distrito de Coimbra. «Naturalmente que admito, e com grande sentido de responsabilidade pela confiança demonstrada pelos eleitores do distrito de Coimbra», assume a ainda ministra.
Marta Temido chegou a ministra da Saúde em 2018, substituindo Adalberto Campos Fernandes. Para trás tinha ficado um percurso profissional muito ligado à administração de instituições de saúde. Licenciada em Direito pela Universidade de Coimbra, fez toda a restante formação na área da saúde, sendo mestre em Gestão e Economia da Saúde, pela Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e doutorada em Saúde Internacional, pelo Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade Nova de Lisboa.
A deputada eleita integrou vários Conselhos de Administração de hospitais públicos, entre eles o Hospital dos Covões, em Coimbra, onde foi vogal executiva de 2005 a 2009, do então Centro Hospitalar de Coimbra, que juntava os Covões, o Hospital Pediátrico, a Maternidade Bissaya Barreto e o Hospital Sobral Cid. Ao fim de quase quatro anos como ministra, admite que ficou muito por fazer. «A última legislatura teve muitos planos adiados, pela pandemia primeiro, pelo termo antecipado depois. O reforço de uma cultura de humanização e de melhoria contínua precisa de ser aprofundado», entende. Sobre estes dois anos de ser ministra da Saúde em pandemia, Marta Temido reconhece que lhe mudou a vida. «A pandemia mudou a vida de todos nós. A relevância das questões da saúde tornou-se mais evidente para a população em geral. Isso conferiu maior exigência ao desempenho de funções no Ministério da Saúde», confessa.
Pedro Coimbra | Preocupação com a mobilidade do distrito
48 anos
Natural de Penacova

A melhoria da mobilidade no distrito de Coimbra é a grande bandeira de Pedro Coimbra para os seus próximos quatro anos no Parlamento. Para tal, considera necessária a conclusão de algumas obras estruturais importantes. «Há obras muito importantes, como o Sistema de Mobilidade do Mondego, a requalificação do IP3, a conclusão da A13 ou a linha de Alta Velocidade, onde Coimbra tem de ser um ponto de passagem», sublinha o deputado eleito, destacando esta última como muito importante para a economia. «Vai trazer mais competitividade para as nossas empresas, porque vai permitir a menor sobrecarga da Linha do Norte, que fará com que esta seja mais usada para cargas», defende.
Outras necessidades do distrito, para Pedro Coimbra, passam pela construção da nova maternidade em Coimbra e o aprofundamento do Porto da Figueira da Foz. Pedro Coimbra já não é uma cara estranha na Assembleia da República. Já leva seis anos como deputado no Parlamento, sempre eleito pelo círculo de Coimbra. Pelo meio, tem uma carreira política marcada por alguns cargos de relevo na região, desde presidente da Distrital do PS Coimbra a presidente da Assembleia Municipal de Penacova. Nas últimas eleições autárquicas, candidatou-se à Câmara Municipal de Penacova, tendo sido derrotado.
Licenciado em Engenharia Civil pela Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, Pedro Coimbra fez grande parte da vida profissional em instituições públicas, como no Centro Distrital da Segurança Social de Coimbra, na Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro e nas Águas de Coimbra, Empresa Municipal, onde foi presidente do Conselho de Administração.

Tiago Martins | Especialista nas temáticas da educação
32 anos
Natural de Coimbra
O Parlamento já não é uma novidade para Tiago Estêvão Martins, deputado desde 2019. Coordenador da Comissão de Educação, Ciência, Juventude e Desporto, espera continuar o trabalho começado há quase três anos. «Estamos a tratar do novo sistema de recrutamento de docentes. Na ciência há questões importantes, como o acesso ao emprego científico e o ciclo de acreditação dos estudos. Faz sentido continuar esse trabalho», aponta.
A nível distrital, o compromisso de Tiago Martins passa pelo acompanhamento de obras que considera estruturais para a região, sobretudo na mobilidade. «Temos também a conclusão da descentralização de competências para as autarquias, que é um projecto do PS, e as competências adquiridas pelas Comunidades Intermunicipais», sublinha.
Tiago Martins é mestre em Comunicação e Jornalismo pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Na Academia de Coimbra foi presidente do Núcleo de Estudantes da Faculdade em 2008 e 2009, coordenador geral da Política Educativa da Direcção-Geral da Associação Académica de Coimbra em 2012, e vice-presidente no ano seguinte, ambas as direcções presididas por Ricardo Morgado. Em 2021, desempenhou ainda funções de vereador, em regime de substituição, na Câmara Municipal de Coimbra.
Raquel Ferreira | Deputada preocupada com o ambiente
52 anos
Natural da Figueira da Foz

Raquel Ferreira tem feito a sua atividade profissional no seu escritório de advogados na Figueira da Foz. Deputada desde 2020, entrou para a Assembleia da República para substituir o falecido João Ataíde. Tem integrado a Comissão do Ambiente, onde espera manter-se. «Há questões ambientais no meu concelho e no distrito. Assuntos como a erosão costeira, o Porto da Figueira da Foz e a Lagoa da Vela preocupam-me e conto levá-los à Assembleia», destaca a deputada eleita.
Raquel Ferreira mostra-se satisfeita com o que considera ser um voto de confiança atribuído ao PS, em Coimbra e no país. «Termos seis deputados eleitos no distrito é uma demonstração de confiança das pessoas e esperamos retribuir», considera. A deputada é licenciada em Direito, com pós-graduação em Reinserção Social.

José Carlos Alexandrino | Em defesa do interior
66 anos
Natural de Ervedal da Beira, Oliveira do Hospital
Depois de 12 anos como presidente da Câmara Municipal de Oliveira do Hospital, José Carlos Alexandrino chega à Assembleia da República, considerando ser a voz do interior e dos territórios de baixa densidade. «Doze anos como autarca e mais dois como presidente da Comunidade Intermunicipal da Região de Coimbra levam-me a conhecer bem os dossiês. Não queremos um país a duas velocidades e é importante que se olhe para os territórios do interior», considera o deputado eleito.
Para além das preocupações com o interior, José Carlos Alexandrino quer também que o próximo mandato seja de avanço de obras importantes para o distrito, enumerando a nova maternidade, a requalificação do Hospital dos Covões a ligação da A13 ao IP3 e ao IC6 e o Porto da Figueira da Foz. «Para além disso, sou um lutador social e vou batalhar para que as reformas de 250 euros deixem de existir», assegura. José Carlos Alexandrino é licenciado em Educação Física pelo Instituto Superior de Ciências Educativas, em Lisboa. No espectro político, foi presidente da Câmara Municipal de Oliveira do Hospital de 2009 a 2021, e do Conselho de Administração da Comunidade Intermunicipal da Região de Coimbra, entre 2019 e 2021.
Ricardo Lino | Estreia no Parlamento de olho na Cultura
40 anos
Natural de Mirandela

Ricardo Lino é um dos estreantes na Assembleia da República. Licenciado em Arqueologia e História pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, e com um MBA para executivos na Faculdade de Economia, tem desempenhado vários cargos na Câmara Municipal de Coimbra, e tem como uma das bandeiras trazer para Coimbra a Capital Europeia da Cultura em 2027. «É um projecto muito importante e que poderá mudar o paradigma da cidade nos próximos tempos», defende, completando que se envolveu muito na candidatura, e espera ajudá-la, agora que está no Parlamento.
Outras preocupações de Ricardo Lino têm a ver com a mobilidade, apelando também à urgência da requalificação do IP3, da ferrovia e do alargamento da via rápida até Arzila, e na sua ligação a Montemor-o-Velho. Ricardo Lino trabalha como gestor de seguros, depois de ter desempenhado funções de assessoria política na Câmara Municipal de Coimbra entre 2013 e 2021. É ainda membro da Assembleia de Freguesia de Santo António dos Olivais, da Academia Olímpica de Portugal e presidente do Grupo de Arqueologia e Arte do Centro.

Mónica Quintela | Advogada mantém luta pela transferência dos tribunais
54 anos
Natural de Vieira do Minho
Dois anos depois de ter encabeçado a lista de deputados do PSD pelo círculo de Coimbra, Mónica Quintela volta a ser eleita para a Assembleia da República. A advogada, com escritório em Coimbra, nasceu em Vieira do Minho, mas vive na cidade desde os quatro meses. Foi em Coimbra que se licenciou em Direito e se estabeleceu como advogada. Na Assembleia da República, a deputada integrou a Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias e foi suplente nas Comissões de Negócios Estrangeiros e Comunidades Portuguesas, Comissão de Saúde e Comissão de Transparência e Estatuto dos Deputados.
Uma das lutas de Mónica Quintela no último mandato foi a da transferência do Tribunal Constitucional, do Supremo Tribunal Administrativo e da Entidade das Contas e Financiamentos Políticos para Coimbra, medida que foi reprovada e que já garantiu, durante a campanha eleitoral, que será uma luta a continuar. Antes de ser deputada, Mónica Quintela teve destaque mediático como advogada de Ana Saltão, inspectora da Polícia Judiciária que foi julgada pelo presumível homicídio da avó do marido, e de Pedro Dias, que cometeu três homicídios em 2016 em Aguiar da Beira.
Fátima Ramos | Na luta pelos territórios de baixa densidade
60 anos
Natural de Miranda do Corvo

Fátima Ramos é um regresso à Assembleia da República, onde já tinha estado entre 2015 e 2019. Neste seu regresso, a antiga presidente da Câmara Municipal de Miranda do Corvo mostra-se preocupada com as assimetrias do país, sobretudo com o interior. «Ainda não sei em que Comissões vou participar, mas procurarei ser uma voz na defesa do nosso território, em especial os concelhos do interior», revela. Entre as infraestruturas, Fátima Ramos assegura que vai lutar pela continuação das obras do Sistema de Mobilidade do Mondego, a melhoria da linha da Figueira da Foz, a continuidade da A13 e a ligação do troço da Estrada Nacional 342, entre a Lousã, Góis e Arganil, e sua ligação ao IC6. «Na saúde, para além da concretização da nova maternidade em Coimbra, espero que o próximo ministro da Saúde se digne a visitar o Hospital Compaixão, em Miranda do Corvo, para ver de que modo pode ser colocado ao serviço da população, como são os de Oliveira do Hospital e da Mealhada», aponta.

João Paulo Barbosa de Melo | Estreante com raízes familiares na Assembleia da República
59 anos
Natural de Coimbra
Barbosa de Melo é um estreante na Assembleia da República, mas a sua família não. O pai, António, presidiu à Assembleia entre 1991 e 1995. «Não me é estranha pela ligação familiar, mas nunca tive uma relação directa com a Assembleia da República. Sou um estreante total», aponta. No entanto, o deputado eleito considera que tem a preparação suficiente para estes funções, pelo seu percurso político. João Paulo Barbosa de Melo foi presidente da Câmara Municipal de Coimbra entre 2010 e 2013, tendo sido vice-presidente antes. Foi ainda presidente do Conselho Directivo do Centro de Estudos e Formação Autárquica, entre 2002 e 2009. Quanto às suas funções no Parlamento, admite que fará uma «oposição leal e atenta». A nível distrital, assume um olhar atento para obras estruturantes e para a importância do interior na coesão territorial. «Temos alguns territórios longe da vista e quero trazê-los para o debate político», revela.
Entre a vitória do voto útil e o pedido de estabilidade
Em jeito de balanço, também pedimos aos representantes dos partidos no concelho que comentassem o resultado das eleições. É transversal a ideia de que foi muito influenciado pela crise e necessidade de estabilidade, depois de dois anos de pandemia. A maioria absoluta do PS era um cenário improvável. Em Coimbra, o partido venceu em toda a linha, o que leva os socialistas a congratularem-se com o resultado. No PSD admitem-se falhas, enquanto a CDU Cidadãos Por Coimbra e PAN se dá ênfase ao voto útil, agravado pelo que consideram ser uma pressão dos
círculos eleitorais.
«Privilegiaram uma ideia de estabilidade tendo em conta a pandemia. Era importante que o PS
não tivesse a maioria absoluta, mas cada pessoa que vota não o faz a saber em quem votam
os outros», sublinha o responsável dos Cidadãos por Coimbra, Jorge Gouveia Monteiro. Segundo Filipe Reis, do PAN, é urgente uma alteração nos círculos eleitorais, mais do que no sistema. «A culpa não é do Método de Hondt, porque nas europeias o Método é o mesmo. O problema é dos círculos eleitorais. No caso de Coimbra, praticamente só há um deputado elegível fora do PS e PSD, o que aumenta a pressão para o voto útil», considera.
O presidente da Comissão Política Concelhia do PS Coimbra, David Ferreira da Silva, mostra-se muito satisfeito com o resultado expressivo favorável ao partido. «A nossa cabeça de lista está muito ligada à gestão da pandemia, o que também justifica este sucesso. Tivemos mais 6800 votos do que em 2019, o que mostra a noção que existe um grande eleitorado de centro-esquerda», sublinha. Quanto aos seis deputados eleitos, David Silva espera, de todos, «muita dedicação e trabalho».
Perceber o erro
Numas eleições, há vencedores e vencidos. Se o PS canta vitória, o PSD assume a derrota.
«Cabe ao PSD perceber onde errou. As pessoas não podem estar assim tão erradas», defende
o presidente da Concelhia do PSD de Coimbra, João Francisco Campos. Sobre a maioria
absoluta socialista, o social democrata espera que «não acabe como a anterior», sublinhando
que «vêm aí tempos difíceis devido à subida das taxas de juro». João Francisco Campos elogia os deputados eleitos pelo PSD, destacando «a luta de Mónica Quintela pela vinda dos Tribunais para Coimbra, a experiência de Fátima Ramos e a competência de João Paulo Barbosa de Melo, que é estreante na Assembleia e terá um período de adaptação».
«Venceu o voto útil, a esquerda teve receio da vitória da direita, recordando ainda os malefícios do Governo de Pedro Passos Coelho. Isto fez com que muitas pessoas de esquerda tivessem votado no PS». A opinião é de Francisco Queirós, da CDU, completando que Coimbra foi um reflexo do que se passou no resto do país. “Ao votar, as pessoas não sabiam que haveria uma maioria absoluta, mas estavam a afastar um perigo maior”, defende. Tiago Meireles Ribeiro, da Iniciativa Liberal, mostra-se satisfeito pelo resultado do partido no distrito de Coimbra. «Quadruplicámos a votação e, mais importante, trouxemos ideias liberais ao debate», entende. Quanto ao futuro do partido em Coimbra, Meireles Ribeiro assegura que «é uma maratona, queremos fazer oposição responsável e não fazer barulho por fazer. Se se proporcionar elegermos vereadores ou deputados será essa a nossa postura», sublinha.
