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Situação de professores contratados

«Gostamos muito do que fazemos e queremos deixar uma escola melhor para quem vem a seguir»

Melhores condições de trabalho e salariais, a progressão mais rápida na carreira e uma escola pública melhor e mais sustentável movem professores de norte a sul do país. Em Coimbra, a adesão à greve foi quase total.

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Fotografia: Mário Canelas

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Situação de professores contratados

«O copo transbordou», diz Nuno Simões. «Isto não é de agora. Não estamos a lutar por um salário melhor, estamos longe, muito longe disso», continua o professor que foi um dos cerca de três mil participantes na manifestação de terça-feira na Praça 8 de Maio, em Coimbra. Um entre vários protestos numa greve nacional que está a decorrer por distritos até Fevereiro, convocada pela FENPROF – Federação Nacional dos Professores e outras organizações sindicais, de Norte e Sul do país. Há outras a decorrer, do STOP e do SIPE.

«Respeito» foi uma das palavras mais lidas nos cartazes segurados por inúmeros profissionais da educação e apoiantes em defesa de melhores condições de trabalho para os professores, melhores escolas e um futuro melhor e mais sustentável para a escola pública em Portugal. «Na verdade estamos todos convocados», rematou Simões, no pleno exercício daquele que é um direito democrático e um acto de cidadania, nesta que foi a sexta paralisação distrital com cerca de 95% de adesão, a maior de sempre, segundo a FENPROF.

Estivemos na Praça 8 de Maio e conversar com alguns dos participantes, professores e mesmo alunos a defender o respeito e valorização dos profissionais, além do ensino de qualidade para todos. «Não basta reuniões, é preciso soluções» gritaram em coro, bem alto para o Governo ouvir e ter em conta ao longo do actual processo negocial sobre a revisão do regime de recrutamento e mobilidade de professores, apesar de essa ser a ponta do icebergue que é o estado do ensino público em Portugal, como alguns relembram. No dia 11 de Fevereiro a manifestação será nacional, em Lisboa.

Natália Gomes, professora em Montemor-o-Velho

Sou professora há mais de 30 anos e vim para esta profissão por um grande gosto, mas estou a chegar ao fim cansada, esgotada. Aquilo que me motivou mantém-se, mas fomos perdendo valorização ao longo do tempo. Defendo a escola pública e quero manter a qualidade da escola pública, porque ela tem bons profissionais, preparamos muito bem os nossos alunos que chegam ao ensino superior e são chamados para ir para fora. É preciso apontarem o nosso tempo integral de serviço. Estivemos 6 anos, 6 meses e 23 dias parados, como se estivéssemos de férias, mas estivemos a trabalhar, a formar alunos, a trabalhar. Isso não é contado?

Queremos valorizar a nossa carreira, retirar o trabalho burocrático que é imenso e nos rouba tempo para nos dedicarmos ao que realmente interessa que é preparar aulas, ver os resultados dos alunos, preparar materiais inovadores. Os espaços físicos também precisam de valorização. Apelam ao digital, é uma das coisas que nos motivam a fazer, mas não temos condições. Os nossos espaços estão obsoletos, temos de ser malabaristas com o pouco de temos, com a internet que temos. Qualquer aluno desmotiva nos primeiros minutos quando a coisa corre mal. Uma das coisas que mais me incomoda é: os meus netos vão ter que professores a ensinar? Quem é que vai ocupar os nossos lugares? Quem é está disposto a fazer seis horas aqui e doze horas acolá? Calcorrear quilómetros para trabalhar em três escolas e não completar horário? No início tinha muitos alunos que queriam ser professores, agora nem um. Dizem: «Professor? Eu? Nem pensar».

Nuno Simões, professor em Coimbra

Sinto-me perfeitamente apoiado nesta luta, porque é uma luta muito justa que tem, acima de tudo, duas dimensões: uma de condições de carreira, em que exigimos melhores condições remuneratórias, etc, que é algo que outras pessoas podem ter dificuldade em compreender. Esta é uma dimensão em que temos razão e vamos mostrando a nossa indignação, e dando exemplos concretos. Mas há uma outra dimensão em que, na verdade, estamos todos convocados e que tem a ver com a defesa da qualidade da escola pública. Vemos que há facilitismo nas nossas escolas. Há uma pressão para que os alunos progridam, há desinteresse na escola, e portanto isto prejudica todos. A sala de aula é um momento desinteressante. Os professores não têm motivação, andam tristes, a aula é triste, os alunos estão tristes e todo este ambiente não dão qualidade à escola. Os alunos sabem que a escola não é um bom espaço para estar e os pais também.

Estamos todos a lutar ela qualidade da escola e estamos todos unidos. Os impactos que isto depois tem na sociedade são grandes. É preciso que a sociedade perceba que os professores têm razão e que a bola está do outro lado. Quem tem poder de decisão tem mesmo de ouvir este grito genuíno que vem das bases, que vem dos professores que não aguentam mais. O copo transbordou, isto não é de agora, é um problema que tem anos e anos e agora é preciso serenidade. Localmente, as ajudas que podem vir é o apoio da sociedade em geral. Aqui em Coimbra, já vi directores aqui connosco, presidentes de concelhos gerais, associações de pais e as autarquias obviamente também. Não estamos a lutar só por um ordenado melhor, estamos longe, muito longe disso. Gostamos muito do que fazemos e queremos deixar uma escola melhor para quem vem a seguir que isto tem os dias contados da forma como está. 

Tiago, 17 anos, estudante

Viemos apoiar os professores porque eles merecem, trabalham para nós e esforçam-se para sermos melhores no nosso futuro. Estão a tentar pedir mais respeito. Hoje em dia não há tanto respeito. Os professores trabalham o dia todo e são mal pagos. As horas que eles trabalham não justificam o dinheiro que recebem. Eu quero seguir a profissão de professor porque gosto da parte artística e adorava ter jovens comigo, ensiná-los e aprender com eles também. 

Tatiana, 18 anos, estudante

Eu por um lado gostava de ser professora mas por outro não, exige muito do nosso tempo, não temos tempo para nós. Hoje em dia os alunos também, não digo que são todos, mas são mais agressivos com os professores. Se um aluno fosse assim comigo não aguentaria isso. 

Alicia, 17 anos, estudante

Eles trabalham na escola e ainda têm de trabalhar em casa, não têm tempo para os filhos e para a família. É muito duro ser professor. A nossa professora, que está aqui, dá-nos aulas mais dinâmicas, estamos mais à vontade. Quando queremos falar de alguma coisa à parte nós podemos, mas trabalhamos na mesma, sabemos que a professora está lá connosco nos momentos maus e bons. 

Graça Machado, professora em Coimbra

Os meus alunos são espectaculares. Muitos não conseguem verbalizar qual é a nossa luta mas compreendem, vêem o nosso esforço diário e é bom apoiarem-nos e estarem ao nosso lado. É um bom exercício de cidadania para eles. Eu dou um curso profissional, eles fazem um curso técnico de Acção Educativa, vão para o terreno ser auxiliares nos jardins de infância, por exemplo, por isso é muito importante que compreendam quais são os direitos deles. Não tenho soluções milagrosas, mas merecemos respeito na nossa profissão. O nosso trabalho está cheio de burocracias, têm de nos desburocratizar para podermos fazer o que gostamos, que é ensinar os alunos. Chegamos muitas vezes à escola cansados de tanto papel, mas quando estamos à frente deles temos de deixar estes problemas à porta da sala de aula e estar com eles, dar o nosso melhor. Apesar de sermos mal pagos e de não reconhecerem o nosso valor. Há alunos que reconhecem e encarregados de educação que, acima de tudo, acreditam no nosso trabalho, mas tenho pena que não estejam muitos aqui presentes. 

Patrícia Amendoeira, professora em Taveiro

Eu tenho uma situação mais estável, mas o meu marido, que também é professor, não tem. É contratado e para não ir para longe , agora que temos o nosso filho, está com um horário de 12 horas – que é praticamente nada – para não se afastar de nós. Ele para conseguir tinha de ir para longe. A conjuntura actual do país não é fácil, percebe-se que cada um tem a sua situação profissional que depois também vai entrar em conflicto com esta situação, mas obviamente que é importante que os pais estejam envolvidos nesta causa, é a educação dos filhos que está em causa. É o futuro. 

Cristela Rodrigues, professora em Ansião

Os pais têm de perceber que, se não lutarmos, vão estar a deixar os filhos em depósitos que tomam conta de crianças, não é em escolas. E temos de lutar agora. Eu percebo os pais, fui mãe agora, aos 42 anos e a carga horária rouba-nos imenso tempo com as crianças. Eu sou do Norte, de Santa Maria da Feira, e vim efectivar aqui. Quando temos reuniões a acabar às 21h, onde é que deixamos os nossos filhos? Estou aqui a lutar também porque acho que a escola está a morrer e quero que o meu filho tenha uma escola de qualidade – e mais, quero que tenha professores. Não é que tenha alguém que esteja a tomar conta durante o dia e a falar de matérias, é que tenha professores de qualidade e isso vai acabar porque as pessoas que têm qualidade não querem ser maltratadas. Estão a ficar fartas. Não sei o que vai acontecer à escola se não melhorarmos. 

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