Rita Rézio resume em poucas palavras o que ficou de anos de violência e desgaste: “Hoje eu quero paz.” Esta é a história de uma jovem que viu a escola deixar de ser um lugar seguro e que ainda tenta perceber o que fazer com tudo o que aconteceu.
Esta reportagem não identifica a escola em Coimbra nem os envolvidos. O relato foi acompanhado em primeira pessoa desde que Rita ainda tinha 17 anos, para preservar a sua voz e transformar uma experiência individual num retrato mais amplo sobre bullying, ciberbullying e os limites da resposta institucional.
Agora, à espera das notas finais do 12.º ano e da resposta às candidaturas ao ensino superior, ela tenta decidir o próximo passo. Música continua a estar em cima da mesa, mas já não é uma hipótese neutra: depois de tudo o que viveu, até escolher o futuro exige pesar o que lhe faz bem e o que lhe pode custar mais.
O início da tensão
A história da Rita não começou com um grande episódio, mas com uma sucessão de pequenas agressões que foram ganhando forma. No princípio, ela sentia-se confusa. Depois, começou a perceber que havia algo mais: olhares, comentários, exclusão e um ambiente em que deixava de se sentir segura dentro da escola.
“Comecei a achar que a culpa era minha”, contou. Durante algum tempo, a dúvida instalou-se. A relação com alguns colegas degradou-se, certos comportamentos deixaram de parecer brincadeira e a sensação de perseguição passou a acompanhar o dia a dia. O que era suposto ser apenas a rotina normal de uma aluna do secundário tornou-se num estado permanente de alerta.
A Rita descreve também o impacto emocional dessa escalada. Primeiro veio a tristeza. Depois, a deceção. Mais tarde, a raiva. Hoje, o que sente mais intensamente é frustração.
Quando a violência muda de forma
A certa altura, o que a Rita vivia deixou de caber apenas nos corredores da escola ou nas conversas em sala de aula. A pressão passou também para o telemóvel, para as mensagens, para os grupos e para as chamadas anónimas, criando uma espécie de sombra permanente sobre o que já se passava presencialmente. A violência deixou de depender da presença física de quem a praticava: começou a acompanhar a Rita para fora da escola e para dentro da sua rotina.
A família conta que algumas dessas chamadas chegavam com uma voz muito parecida com a dela, usada para dizer frases ofensivas, para insinuar comportamentos que ela não tinha tido e para a fazer parecer autora de coisas que não fez. Não era apenas uma provocação; era uma tentativa de distorcer a sua imagem perante colegas e de espalhar uma versão falsa dela própria. “Começaram a usar a minha voz”, contou a Rita, num dos momentos mais perturbadores da entrevista.
Esse detalhe foi decisivo para a escala do caso. O que era dito numa chamada ou num áudio não ficava ali. Passava de boca em boca, ganhava novas leituras, alimentava boatos e deixava a Rita ainda mais isolada. A humilhação já não era só direta; era também acumulada, repetida e amplificada por outras pessoas que iam recebendo fragmentos daquilo que circulava.
Para a Rita, esse foi um dos momentos mais duros, precisamente porque a violência já não estava confinada a um episódio. Tornou-se uma presença contínua. E, quando chegou aos canais formais, a escola parecia não conseguir travar a circulação do que já estava a acontecer. O resultado foi este: a agressão deixou de ser pontual e passou a fazer parte da paisagem do dia a dia.


A denúncia
A mãe da Rita, Carla Rézio, decidiu então formalizar a situação. No primeiro email enviado à escola, em outubro de 2025, descreveu uma situação grave de humilhação continuada, com comentários depreciativos, troça, exclusão e perturbação de uma prova e de várias aulas. Pediu uma intervenção urgente e avisou que o caso podia evoluir para queixa-crime.
Ao longo dos meses seguintes, a família insistiu. Houve emails repetidos, reclamações, contactos com a escola e recurso a várias entidades: PSP, Direção-Geral da Educação, Provedoria de Justiça e Ministério da Educação. A mãe da Rita diz que a dificuldade não foi apenas provar o que estava a acontecer, mas obter uma resposta clara sobre o que a escola estava de facto a fazer.
Segundo a Carla, chegaram a ser aplicadas suspensões a dois alunos envolvidos. Mais tarde, uma dessas medidas ficou em suspenso após reclamação do aluno, sem que a família recebesse uma explicação final objetiva. Houve também proposta de pedido de desculpas, que a mãe recusou por entender que isso não resolvia a ansiedade nem devolvia segurança à filha.
O que a escola responde
A escola, segundo a mãe, respondia com fórmulas genéricas: falava em “tolerância zero”, em avaliação interna e em proteção da aluna. Mas a experiência da família foi outra. A comunicação chegava tarde, muitas vezes por escrito só em termos vagos, e a consulta presencial aos processos parecia ser a regra para aceder à informação que, na visão da mãe, lhe dizia diretamente respeito enquanto encarregada de educação.
A Carla aponta também contradições. Em alguns momentos, a escola dizia que não podia falar; noutros, já tinha comunicado por email medidas disciplinares. Para a mãe, a opacidade não era apenas um problema administrativo. Era parte da própria falha de proteção.
E a proteção, insiste, nunca lhe pareceu suficientemente visível no terreno. A Rita continuou a encontrar os mesmos colegas, continuou a sentir-se observada e continuou a viver episódios que a faziam recuar. O medo não desapareceu com a formalização do processo.
O caso no contexto
O caso da Rita inscreve-se numa realidade mais ampla. Entre janeiro e setembro de 2025, a APAV – Associação Portuguesa de Apoio à Vítima apoiou 77 vítimas de bullying e ciberbullying, das quais 17 em situações de ciberbullying e 5 em casos mistos, num universo em que mais de metade das ocorrências envolveu pessoas agressoras da mesma escola da vítima, segundo as estatísticas da APAV. Estes números ajudam a lembrar que o que aconteceu à Rita não é apenas um episódio isolado, mas parte de um problema que continua a atravessar as escolas e a vida digital de muitos jovens.
A escola e a proteção que não se sente
Este caso mostra uma tensão central: quando uma vítima denuncia, o que é que a instituição faz para que a vítima continue a sentir-se segura? A resposta ideal não se resume a suspensões ou a emails formais. Exige acompanhamento, clareza, registo, comunicação e uma resposta que chegue antes da desconfiança total.
A Direção-Geral da Educação tem um plano de prevenção e combate ao bullying e ao ciberbullying, e o próprio enquadramento oficial insiste na necessidade de diagnóstico, intervenção e articulação entre escola, família e autoridades. Mas a Rita e a mãe descrevem um desencontro entre a norma e a prática.
Quando a resposta institucional é lenta, a vítima sente que a denúncia não serviu para a proteger. Quando o processo é opaco, a família sente que está a insistir no vazio. Quando a escola não consegue tornar visível a proteção, o gesto de denunciar pode tornar-se, paradoxalmente, mais desgastante do que o silêncio inicial.
O efeito na Rita
Ao longo da conversa, a Rita volta sempre ao mesmo ponto: o impacto emocional. No início estava confusa. Depois, triste. Depois, traída e irritada. Agora, vive com ansiedade e frustração. Tem momentos de nervosismo quando encontra os mesmos alunos e diz ter ataques de pânico. O que sente não é apenas medo do que já aconteceu, mas antecipação do que pode voltar a acontecer.
“Acontece sempre alguma coisa”, resumiu. Essa frase ajuda a perceber o estado em que a violência a colocou: não é só a memória do dano, é a expectativa do dano. E isso altera a forma como se está numa escola, numa sala, num intervalo ou até num evento social.
A denúncia também a expôs. A Rita conta que colegas passaram a falar do caso, que circulavam boatos e que a sua imagem ficou associada a algo que não controlava. Parte da violência, diz, foi precisamente essa: tornar a sua presença pública numa presença desconfortável para os outros.


O presente e o futuro
Hoje, Rita já está fora do 12.º ano. As aulas terminaram, o ciclo fechou-se, mas o que viveu ao longo destes anos continua presente. Já não tem de atravessar os corredores da escola todos os dias, mas ainda carrega o que aconteceu e o impacto que isso deixou.
Agora, espera saber se entra em Música. Se não entrar, pensa seguir para Multimédia, Fotografia ou Cinema. A escolha não é apenas vocacional; é também emocional. A música continua a ser um caminho que gosta, mas que, depois de tudo o que viveu, também lhe parece psicologicamente pesado.
Enquanto aguarda a resposta às candidaturas, Rita continua numa espécie de intervalo: já saiu da escola, mas ainda não entrou realmente no próximo capítulo. E esse espaço entre o fim e o começo é também o lugar onde se mede o que fica depois de uma experiência destas.
O que fica para outras escolas
A história da Rita não termina numa acusação simples. O que fica é uma pergunta mais ampla: como é que uma escola responde quando uma aluna diz que já não se sente segura? A resposta não pode ser apenas formal. Tem de ser visível, consistente e compreensível para quem está a ser afetado.
Este caso mostra que a prevenção não é só um programa no papel. Passa por canais de denúncia claros, comunicação objetiva, acompanhamento emocional e medidas que a vítima consiga reconhecer como proteção real. Sem isso, a escola corre o risco de transformar a denúncia num novo foco de desgaste.
A coragem da Rita em contar a sua história não resolve sozinha o problema, mas ilumina-o. E esse pode ser o primeiro passo para que outras famílias percebam mais cedo os sinais, para que outras escolas não falhem da mesma forma e para que a palavra “proteção” passe a significar mais do que uma resposta administrativa.
No fim, Rita resume o que quer: paz.
Para quem enfrenta situações de bullying ou ciberbullying, existem também canais de apoio e denúncia, como o portal Escola Sem Bullying | Escola Sem Violência, a Linha Internet Segura e o Gabinete de Cibercrime do Ministério Público.

