O estacionamento “selvagem” ou irregular é um problema comum em Coimbra, com impacto negativo na circulação segura de veículos e peões e na ocupação desordeira do espaço público.
Nos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC), a situação é ainda mais crítica devido à grande procura de lugares de estacionamento por utentes, visitantes e profissionais. As obras para a construção do Metrobus agravaram o problema, reduzindo temporariamente as opções de estacionamento e causando maior congestionamento.

A Unidade Local de Saúde (ULS) de Coimbra tem vindo a implementar um plano de mobilidade, com um conjunto de medidas, entre as quais a introdução de estacionamento pago, que começou esta semana no Hospital Pediátrico e será expandido para os outros hospitais.
A medida tem gerado controvérsia entre profissionais de saúde e utentes.
A decisão de introduzir o estacionamento pago não foi uma decisão tomada de ânimo leve, foi cuidadosamente estudada e pensada e faz parte deste plano mais amplo para melhorar a mobilidade e as condições de acesso ao complexo hospitalar.
(Diogo Saudade Vieira, vogal executivo da ULS de Coimbra)

Plano de mobilidade da ULS de Coimbra
De acordo com Diogo Saudade Vieira, vogal executivo da ULS de Coimbra, “o plano de mobilidade é um passo fundamental para modernizar o acesso ao complexo hospitalar, garantindo que ele continue a ser um centro de excelência na prestação de cuidados.”
Segundo o que nos explicou, neste plano estão previstas medidas como o estacionamento pago, a colocação de barreiras físicas nos passeios para impedir o estacionamento desordenado e um maior acompanhamento da gestão dos parques.
Quanto ao estacionamento nos HUC, que enfrentam uma grande pressão em termos de acessibilidade e gestão de recursos, “a decisão de introduzir o estacionamento pago não foi uma decisão tomada de ânimo leve, foi cuidadosamente estudada e pensada e faz parte deste plano mais amplo para melhorar a mobilidade e as condições de acesso ao complexo hospitalar”, afirmou.
Até ao dia 12 de novembro, qualquer pessoa podia estacionar no parque coberto (pago) ou no parque exterior (gratuito) do Hospital Pediátrico. Com a entrada em vigor das novas regras, os lugares do parque exterior passaram a ser pagos, com um custo de 1,5 euros na primeira hora, até a um máximo de 10 euros por dia.
Esta medida foi contestada pelos trabalhadores, tendo a ULS de Coimbra decidido atribuir lugares de estacionamento aos colaboradores no parque exterior, gratuitos até ao dia 30 de novembro. A partir dessa data, o estacionamento também será pago para os trabalhadores, através de um cartão recarregável.
O parque coberto continua a ser pago, embora se tenha verificado um aumento de preço, sobretudo contestado pelos utentes. Anteriormente, a primeira hora tinha um custo de 0,20€, e as seguintes 0,40€. Os trabalhadores do Hospital Pediátrico podem optar por uma avença anual de estacionamento, com o custo de 100€, entrando uma nova tabela a 1 de fevereiro, com valores ainda não definidos.
Outras medidas do plano de mobilidade incluem ainda a aposta na utilização de transportes públicos e de mobilidade suave, bem como a reorganização das consultas para minimizar as deslocações dos utentes. Por sua vez, a aposta na telesaúde e no teleseguimento de doentes também vai permitir a redução das deslocações de utentes ao hospital e, consequentemente, o excesso de veículos que acedem aos HUC. “Estamos a reorganizar as consultas para que os doentes possam ser vistos por várias especialidades no mesmo dia, reduzindo a sobrecarga de mobilidade e o stress associado às viagens frequentes que teriam de fazer de outra forma”, declarou.
Naturalmente as pessoas não estacionam em cima dos passeios desordenadamente apenas por mero capricho. Efetivamente há falta de lugares de estacionamento no polo hospital e estamos a fazer um reforço.
(Diogo Saudade Vieira)

Falha na comunicação interna e externa
De acordo com uma fonte anónima, a informação relativa à introdução do estacionamento pago no Hospital Pediátrico de Coimbra “tem sido escassa e até ao momento não há uma informação formal aos trabalhadores do preço real que será cobrado a partir do dia 1 de fevereiro de 2025“.
A mesma fonte adianta que a comunicação oficial escrita é reduzida e, para a comunidade de trabalhadores, não é claro o objectivo desta medida, não existindo qualquer informação relativa a programas de descontos ou passes para funcionários ou utentes regulares, nem de regimes especiais que considerem necessidades específicas da comunidade hospitalar.
Aponta ainda falhas na comunicação interna, que poderia ter evitado este período de contestação: “talvez se percebêssemos que seria vantajoso para todos, se calhar as pessoas estariam disponíveis para isso.”
No que toca à adaptação ao novo modelo de estacionamento pago, Diogo Saudade Vieira garantiu que o estacionamento para os profissionais de saúde irá continuar gratuito até o Metro Mondego estar em pleno funcionamento, o que está previsto para final de 2025. Por outro lado, a ULS conta comparticipar os passes mensais dos seus funcionários.
Desafios e soluções na acessibilidade aos cuidados de saúde
O Hospital Pediátrico de Coimbra está localizado num espaço urbano que só tem um ramal de acesso, formando-se, muitas vezes, uma fila de estacionamento nalguns momentos do dia, e não existindo espaços de estacionamento alternativos que possam ser utilizados. Por esta razão, apesar de pago (com um tarifário mais económico, que não era actualizado desde 2011), o estacionamento era considerado um benefício para os trabalhadores, tendo em conta as características do trabalho por turnos, e para os utentes, nomeadamente para as crianças com estados clínicos graves, que precisam de apoios na mobilidade, que carregam consigo equipamentos, etc.

Maria Laureano, médica pedopsiquiatra, pós-graduada em Economia e Gestão em Organizações de Saúde, considera que a dimensão da acessibilidade aos cuidados de saúde é fundamental.
“Quando se fala de acessibilidade, a dimensão da acessibilidade funcional e económica passa pelo acesso aos cuidados de saúde através de diferentes meios de transporte. É importante que as organizações de saúde tenham contemplado isso, que as pessoas precisam de espaços na periferia da organização onde possam deixar os transportes que dirigem”.
Relembra também o princípio da equidade, segundo o qual todas as pessoas devem ter a mesma possibilidade independentemente das suas características: “se pensarmos nas pessoas que tenham um consumo elevado de horas hospitalares, de acesso a terapêuticas dentro da organização de saúde, se perceberem que a acessibilidade do ponto de vista económico é mais difícil, podem deixar de o fazer e temos um impacto na sua saúde individual e na das famílias”.
Outras medidas que poderiam ser consideradas para mitigar os impactos do estacionamento pago e tornar a medida mais equilibrada para toda a comunidade podem passar pela criação de passes com preços acessíveis ou tarifas diferenciadas para pacientes que precisem de tratamentos regulares ou consultas frequentes, regimes de isenção ou desconto para utentes com condições especiais e respectivas famílias, entre outras.
