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Comunidade de Aprendizagem das Cerejeiras

Na Comunidade de Aprendizagem das Cerejeiras educar não é ensinar

Não é uma escola. Já foi e ficava em Penela. Há sete anos, e agora no Rabaçal, 36 crianças dos 3 aos 14 anos e de 10 nacionalidades frequentam a CAC e já há 15 em lista de espera para o próximo ano letivo.

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Fotografia: Mário Canelas

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Ter aulas de matemática no cemitério local ou no único mercado da freguesia. Participar ativamente de assembleias semanais para decidir ações a serem adotadas em assuntos relacionados ao bem-estar de todos. Escolher o que aprender. Estabelecer os tempos livres mais adequados. Apresentar projetos a serem implementados, que tanto podem ser trabalhados individualmente como em conjunto com os colegas. Estas são algumas das metodologias utilizadas pela Comunidade de Aprendizagem das Cerejeiras (CAC) que visitámos em Penela e que existe há sete anos.

Para quem está acostumado com o modelo rígido do sistema de ensino tradicional, pode parecer que tanta liberdade só pode resultar em uma anarquia completa, visto que cabe à criança, de forma geral, definir o quê e como aprender, sem esquecer, contudo, as outras crianças. Trata-se de um dos principais pilares da educação democrática: desenvolver a autonomia com responsabilidade e de forma ética. Pode-se dizer de outra maneira: cada um é responsável por si, mas também pelos demais. Com isso, estimula-se a vontade de aprender e promove o respeito ao outro e ao coletivo. 

No início de cada ano letivo, os alunos escolhem o que querem aprender, com exceção de poucas disciplinas que são atendidas por todos, como Português, Matemática e Inglês. Desta forma, como são atualmente 36 alunos, são, portanto, 36 currículos, respeitando, assim, o processo de aprendizagem de cada criança. 

A Cerejeiras não adota uma linha pedagógica única. «Misturamos todas as linhas pedagógicas, de acordo com a necessidade da criança, e sempre embasados cientificamente», explica Adriano Felix, coordenador pedagógico.  Cada criança aprende no seu ritmo, «numa junção de interesses, curiosidades, necessidades, através de metodologias que despertam o desejo de aprender e conhecer, paralelamente ao desenvolvimento de um espírito crítico, com a promoção da responsabilidade e da ética».

Atributos demonstrados na assembleia, que acontece todas as sextas-feiras, e que tivemos o privilégio de testemunhar. Quem preside é uma criança eleita por seus pares, com mandato de três meses. Em pauta, estavam duas questões ligadas à gestão. Depois de apresentar os tópicos, as crianças são divididas por faixa escolar, deslocam-se para outras salas e, com a mediação de uma professora, expõem os motivos pelos quais são a favor ou contra as proposições. A reunião é bilingue – em português e inglês.

Foi esta capacidade de expor uma opinião de forma clara e sustentada por fortes argumentos que fizeram Ana Baptista perceber como seu filho de 10 anos, que antes era tímido e retraído, mudara. Para melhor. Exatamente o oposto do que aconteceu com ela, que toma a si como exemplo. «A educação tradicional, focada apenas em notas, causa muito dano, como aconteceu comigo, que sempre tive notas ótimas, mas acabam com a autoestima”.

Médica, natural de Coimbra, pesquisou bastante antes de escolher a Cerejeiras, onde sua filha de cinco anos também aprende. No início, enfrentou sérias resistências de seu então marido, também médico, mas que agora é um grande entusiasta da educação que promove a autonomia com responsabilidade, e chegou mesmo a recomendar a Cerejeiras à irmã. 

«As crianças têm liberdade, mas também regras. É uma educação democrática, mas não é apenas socialização; elas aprendem.» Foram estes aspetos que fizeram Adva Golan escolher a Cerejeiras para suas crianças, de 11 e 8 anos, que tornaram-se fluentes em português e inglês em pouco mais de um ano.

Pais também são professores voluntários

Sonya Armoza, israelita, ajuda com um projeto de programação proposto por um aluno e que teve a adesão de vários outros. As crianças aprendem sobre permacultura e cuidam da horta, que fica na lateral direita da Cerejeiras, sob a orientação de Jipp Ten Bosch.

A aprendizagem sobre responsabilidade com ética ficou clara também na assembleia daquela manhã nublada de sexta-feira. Todas as crianças têm seu Plano Individual de Trabalho (PIT), que contém todas as atividades que escolheram realizar durante a semana. Contudo, duas crianças não cumpriram o que se propuseram a fazer. A assembleia abordou esta questão e seus integrantes concordaram que deveria haver consequências. Ficou acertado que eles não teriam, durante uma semana, Tempo Livre (TL). Uma das crianças reconheceu e falou: «Eu percebi o meu erro e tenho de mudar». Foi também naquela assembleia que os alunos elegeram dois professores mediadores de conflitos. 

Indagado sobre se palavras como culpa, vergonha, disciplina, punição são proibidas, o coordenador responde que não. O que se faz é trabalhar as emoções que aquelas palavras carregam, quer com a psicóloga da CAC, Daniela Cruz, que também é professora, ou com qualquer outra professora que a criança queira, ou ainda com o coordenador. 

Dos fundadores originários da Comunidade de Aprendizagem Cerejeiras, permanecem quatro, dois casais: um português, Catarina Santana e André Louro, e outro israelita, Ilya e Elina Borin, há seis anos em Portugal. O sonho deles era ter um grupo de pais adeptos do unschooling, movimento que rejeita a premissa de que apenas bom desempenho em avaliações e exames escolares são a maneira correta de tornar-se um adulto bem-sucedido. 

Catarina teve como «mentor» José Pacheco, fundador da Escola da Ponte, no Porto. Eles conversavam regularmente via Skype. A Câmara Municipal de Penela sempre foi um grande parceiro, dizem. Primeiro cedeu o prédio de uma escola em Penela. Posteriormente, permitiu-lhes usar as instalações de uma escola primária onde funcionam até hoje, no Rabaçal.

Para André, os moradores do Rabaçal contribuíram e continuam a ajudar no sucesso da CAC. Para ele, não basta apenas pegar um projeto bem-sucedido e aplicar a mesma fórmula em outro sítio. «É necessário o envolvimento da comunidade onde está inserido».

Cláudia Bonito, que administra há 15 anos o café e o albergue que levam o apelido de seu pai e, há cinco anos, abriu um restaurante com o mesmo nome, é uma das grandes entusiastas da CAC, por considerá-la uma «mais-valia» para a freguesia e todos ganham. «É bom ouvir o riso das crianças. As pessoas gostam de responder as perguntas das crianças. Elas trouxeram alegria para um sítio envelhecido.»

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