Quando entrámos, já estava sentado numa das enormes bancadas de madeira do salão principal do TUMO Coimbra, no antigo edifício dos CTT, em Coimbra. Lembramo-nos bem de ver esta mesma sala cheia de pó e teias de aranha, há apenas alguns meses. Mas João Carreira tem memórias bem mais antigas e importantes do que as nossas deste lugar. Foi aqui, no actual TUMO, que o empresário, fundador e actual CEO da Critical Software viu o pai trabalhar como reparador de telefones e apanhar o elevador social. Levou consigo uma mochila pesada de esforço, mas também de motivação e talento que inspiram João e são também os principais ingredientes do centro de tecnologias digitais e criativas que abriu no início de Outubro, co-financiado pela Critical.

Depois de trabalhar na Fábrica de Lanifícios de Santa Clara e depois como técnico de reparação de telefones nos Correios – funções que começou a exercer com 16 anos de idade -, aos 40 anos, Fernando Amaral Carreira decidiu completar os estudos e formar-se em Engenharia Electrotécnica pela Universidade de Coimbra (UC) e do Porto – sempre em horário pós-laboral, a trabalhar em simultâneo. Já engenheiro, voltou para os CTT, mas para uma posição de direcção, só que não gostou da experiência. Era estranho e duro chefiar os antigos colegas, por isso preferiu deixar Coimbra e abraçar outro desafio em Évora, na entretanto criada Telecom.

João Carreira não tem dúvidas de que o exemplo dos pais «é de um tremenda capacidade de trabalhar em equipa, colaborarem e fazerem o projecto familiar crescer». Sublinha várias vezes o importante papel da mãe, Odete Viegas, professora primária e a primeira a deixar a aldeia de Monte de Lobos, no concelho de Mortágua, para estudar fora.

Criança introvertida e com «óculos fundo de garrafa», João garante que sempre foi um aluno aplicado. Cresceu em Évora e, quando terminou o ensino obrigatório, «estava fora de questão não ir para a universidade e, naturalmente, para Coimbra». Escolheu Engenharia Informática e, depois de se licenciar, foi trabalhar para Lisboa porque queria «experimentar, conhecer e trabalhar no mundo real».

Foi um encontro casual com João Gabriel Silva, professor catedrático de Engenharia Informática no Departamento de Engenharia Informática da Faculdade de Ciências e Tecnologia e reitor de 2011 a 2019, que levou João a deixar o emprego na Siemens e abraçar um doutoramento na UC. Rapidamente surgiram novos trabalhos, como o desenvolvimento de soluções de software inovadoras, que lhe deram a confiança para ir mais longe e criar a própria companhia com Gonçalo Quadros e Diamantino Costa.

Hoje, a Critical Software é uma multinacional de tecnologia, especializada no desenvolvimento de soluções de software e fornecimento de serviços de engenharia para suporte a sistemas críticos e confiáveis, orientados à segurança, à missão e ao negócio de empresas. Colabora com clientes internacionais em sectores tão diversos como espaço, aeronáutica, energia, defesa, finanças, e-commerce, dispositivos médicos e transportes.

João Carreira diz que a segurança de ter uma educação sempre o deixou «muito confortável», porque se algo falhasse «tinha a certeza de que encontraria outra coisa para fazer». Depois de Coimbra e Lisboa, viveu em Amesterdão, Edimburgo e nos Estados Unidos, porque sempre gostou de conhecer outras culturas e acredita que esse aspecto também o formou. «Em Portugal fazemos muitas coisas bem, mas também temos muitas coisas a aprender com a forma como se trabalha noutros países», afirma. «Os Estados Unidos foram o exemplo mais revelador por causa da «veia de arriscar que aqui era tão rara»,atira, e recorda que, há 25 anos, a Critical foi um «salto no vazio» de uma situação segura e respeitada na cidade onde «ainda há muito o culto dos doutores e da universidade».

A Critical Software tem mais de mil colaboradores nos escritórios em Portugal, Reino Unido e Alemanha e já levou ao desenvolvimento de um ecossistema de novas empresas, subsidiárias, joint-ventures e startups, incluindo a Critical Holding, a Critical TechWork, a Critical Manufacturing, a Watchful Software, a Retmarker, a Critical Links e o fundo Critical Ventures, entre outros. É uma das poucas empresas tecnológicas no mundo a ter processos de desenvolvimento de software ágeis e em cascata classificados com CMMI® Nível 5, alcançou o estatuto de Investors in People Gold e leva a sério o compromisso de usar os negócios como uma força para o bem, comprometida com a sustentabilidade, social e ambiental, e a transparência no desenvolvimento de negócios.

Carreira desempenha várias funções e actua como investidor externo, conselheiro e mentor. Entre várias acções que a empresa tem lançado nos últimos anos estão a Companhia do Estudo e uma iniciativa que adapta o processo de contratação e formação a pessoas com autismo/Asperger, entre outras dinâmicas levadas a cabo pela «empresa cidadã», como a flexibilidade de horários, regime de part-time, dias de férias extra a partir do primeiro ano de antiguidade, dois meses extra de licença parental para as mães e um mês para os pais suportados pela empresa, seguros de saúde e snacks preparados pelos masterchefs da Critical com ingredientes frescos, alguns provenientes das hortas comunitárias promovidas pela empresa.

A filosofia da empresa passa ou talvez comece pelo estilo de liderança. Não há títulos, não há gabinetes pessoais, João não tem secretária e garante que «há uma grande transparência e uma grande proximidade das pessoas, ninguém está num pedestal».


Onde também se trabalha de forma estimulante e próxima é no TUMO, que aconteceu graças a outro encontro casual de João Carreira, desta vez com Pedro Santa Clara, o fiscalista, professor catedrático e fundador da escola de Programação 42 em Lisboa e no Porto – um projeto de ensino gratuito, sem fins lucrativos e totalmente financiado por mecenas. Foi a sua Shaken not Stirred que trouxe o centro de tecnologias digitais e criativas para Portugal, a começar por Coimbra, onde agora mais de um milhar de jovens dos 12 aos 18 anos – a idade em que o pai de João começou a trabalhar, apenas com o 4.º ano de estudos – aprendem através da combinação de atividades de autoaprendizagem, workshops e laboratórios avançados.

O TUMO Coimbra foi o primeiro centro internacional que abriu com capacidade para 1050. As inscrições abriram no dia 5 de junho com 2251 inscritos – 25% dos jovens em Coimbra. Há 934 a frequentar o centro neste momento, dos quais 58% são rapazes e 42% são raparigas, 120 têm ação social escolar e 21 são jovens institucionalizados. Além disso, há vários de zonas periféricas da cidade de Coimbra, bem como de outros concelhos do distrito como a Lousã, a Figueira da Foz, Soure, Condeixa e Montemor-o-velho, e vários em lista de espera, para os diversos grupos onde escolhem o que querem aprender e são constantemente inspirados por mentores e especialistas das mais diversas áreas.

João Carreira diz que quando recruta presta especial atenção à forma como as pessoas lidam com as falhas e o que fazem com elas, além disso partilha a visão da vida que Winston Churchill colocou nas seguintes palavras: «We make a living by what we get. We make a life by what we give», que em português significa «Ganhamos a vida com o que recebemos. Construímos uma vida com o que damos». «É esse o caminho que estamos a fazer», nomeadamente apoiando projectos como o TUMO, que tem financiamento público-privado.

Yvon Chouinard, ex-milionário, ambientalista e fundador da Patagonia, abriu mão da fortuna e alocou a totalidade dos lucros a organizações empenhadas no combate às alterações climáticas. Apesar do apelido, João garante que as suas motivações nunca foram nem a carreira nem o enriquecimento pessoal e posturas como a de Chouinard «são exemplos que queremos seguir de formas que temos de encontrar aqui, no nosso país e na nossa comunidade.»

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Jornalismo de soluções, Coimbra.

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