Na semana em que todos os caminhos do setor da tecnologia e empreendedorismo foram parar à Web Summit, conversámos com Jorge Pimenta, diretor de Inovação do Instituto Pedro Nunes (IPN), sobre o impacto no ecossistema local, as motivações para participar, o retorno em termos de networking, visibilidade e parcerias, entre outros temas.
Qual continua a ser a motivação do IPN para participar na Web Summit?
Jorge Pimenta: A primeira motivação é apoiar as startups da nossa incubadora, para as auxiliar nos contactos com investidores e potenciais clientes, e promover a sua presença e exposição.
A segunda motivação é promover a nossa oferta. O IPN, além de incubadora, também desenvolve serviços de investigação aplicada. Portanto, fomos demostrar as nossas capacidades técnicas, o que podemos trabalhar em conjunto com outras startups ou outras empresas nacionais ou internacionais nos nossos domínios técnicos, nomeadamente, nas áreas de informática, automação, materiais e medical devices.
Uma terceira motivação é o caráter internacional. O evento, apesar de se realizar em Lisboa, tem um caráter muito internacional e permite-nos estabelecer contatos, ligações e potenciais pistas para novos projetos ou clientes.
Que benefícios específicos a participação na Web Summit traz para o ecossistema de startups do IPN?
JP: Um primeiro benefício é a atenção mediática nos meios de comunicação, nas redes sociais, nos vários canais sobre o que se está a passar no mundo da tecnologia e no mundo das startups. Portanto, estar nesse foco mediático é importante, acima de tudo, para as startups e para as empresas que estão a lançar com novos produtos e poder fazer parte desse impacto é, sem dúvida, um dos benefícios que o IPN também quer obter. Diria que há um impacto mais indireto de notoriedade, de destaque, que é permitido ter.

Existem casos de sucesso ou parcerias que surgiram de edições anteriores?
JP: Sim. Mais uma vez, não é um evento específico que faz com que depois o sucesso aconteça, mas, muitas vezes, acontece ali a primeira conversa. Portanto, foram as conversas e as reuniões durante o evento que originaram segundas conversas, negociações posteriores e que deram origem a esses exemplos de sucesso.
No nosso caso, não há tantos casos de sucesso direto. Mas aproveitamos para ter reuniões e conversas que, de outra maneira, demorariam mais meses ou mais semanas a agendar e que, naquele caso, conseguimos fazer de forma mais imediata.
Que tipo de feedback têm recebido das startups do IPN sobre o valor da Web Summit em termos de desenvolvimento de negócios e expansão internacional?
JP: Há algumas startups que retiram bastante benefício e conseguem resultados mais ou menos imediatos e outras que não. Aí também penso que tem a ver muito com a preparação e a forma como as empresas olham para este tipo de eventos. Este é um tipo de eventos em que não basta só aparecer. O evento tem que ser preparado antes e devem agendar coisas previamente. Quer sejam reuniões e conversas durante o evento, quer sejam um conjunto de outros eventos paralelos que podem ser importantes.
Depois os três dias, são bastante intensos e devem tirar o máximo partido de todos os minutos. De seguida, a fase de muita importância é o follow-up. A missão número 1 agora é dar sequência a todos os contactos que se estabeleceram. É uma fase muito intensa e, da minha experiência, dita muito do que é o sucesso ou insucesso da presença das empresas.
A Web Summit é, um evento interessante, mas é muito grande e é difícil destacar-se. Estamos a falar mais de 3 mil startups. Se eu for uma startup individual, como é que me consigo destacar no meio de 3 mil? É um exercício bastante difícil, mas é possível e o feedback é que algumas têm bastante destaque.
No ano passado, a startup mais promissora do programa Road 2 Web Summit foi uma empresa de Coimbra, a Ethiack. Este ano foi uma que está incubada no IPN, a Framedrop. Estas empresas têm um conjunto de oportunidades à volta desse destaque que lhes podem ser muito benéfico.

Qual o balanço que fazem das participações do IPN na Web Summit até agora?
JP: O balanço enquanto evento de tecnologia realizado em Portugal é muito positivo. Existe um antes e um depois da Web Summit em termos da perceção internacional sobre as startups portuguesas, a nossa capacidade tecnológica, as oportunidades que existem no país. Portanto, ela tem esse efeito de ampliação da mensagem, que acho que é muito positivo. Neste momento também já sofre de algum cansaço e que já não tem o mesmo impacto que teve nos primeiros anos. Este é um dos pontos menos positivos.
O balanço para o IPN tem sido positivo. Temos tido a oportunidade de, através da exposição e dos contactos, encontrar algumas oportunidades de novas colaborações. Agora, existem desafios e alguns pontos menos positivos, nomeadamente, o custo financeiro. É um evento que tem um envelope de custo financeiro relativamente alto e alguma dispersão da mensagem derivada da forma como o próprio evento funciona.
Como medem o retorno da participação em eventos como a Web Summit? Existe uma forma de quantificar os impactos em termos de networking, parcerias e visibilidade?
JP: Nós medimos através do registro e do follow-up dos visitantes e dos contactos que temos no nosso stand. Depois fazemos essa avaliação em termos do que são a criação de novos projetos ou novas receitas. Daí a nossa avaliação, ainda que alguns efeitos sejam indiretos. São efeitos de visibilidade, notoriedade, de impacto na comunicação social ou nas redes sociais.
Este ano foram a única incubadora portuguesa com representação própria e apoiaram 20 das vossas startups na Web Summit. O que significa esse feito?
JP: Diria que não é um feito, é um investimento e uma marca que queremos deixar. Somos um ecossistema forte que tem uma relevância não só nacional como internacional. Coimbra e as startups que apoiamos já têm essa relevância e daí também o destaque e os prémios que temos ganho.
O que também se materializa nestas ações diretas. Nós não deixamos de os acompanhar, colocamos algum do nosso esforço de tempo, de investimento financeiro neste suporte. É um esforço que fazemos com muito gosto e, acima de tudo, com muito orgulho das empresas e todos os projetos que apoiamos, porque eles é que são as verdadeiras estrelas.

Na sua opinião, qual é o impacto direto e indireto da presença do IPN e das suas startups na Web Summit para a cidade de Coimbra?
JP: A presença é globalmente positiva. No caso da cidade, mostra que tem ambição e que tem argumentos. Portanto, acho que é um papel que pode ser considerado interessante e relevante, pois há vários eventos onde multiplicamos essa mensagem. Acho que é nesse contexto que a cidade de Coimbra e cada ecossistema se pode posicionar e depois dependendo do objetivo de cada um e tirar partido disso.
Como é que Coimbra poderia tirar maior proveito da Web Summit? Que oportunidades a cidade pode explorar?
JP: Enquanto cidade, diria que a Web Summit pode não ser o melhor meio de atrair potenciais novos investimentos. Penso que o Startup Capital Summit, que é organizado pela Universidade do IPN e pela Câmara Municipal de Coimbra, o Coimbra Invest Summit e outros eventos desse tipo fazem mais sentido para uma região e uma cidade como a nossa do que a Web Summit.
Que lições da Web Summit podem ser aplicadas para fortalecer o ecossistema de inovação local?
JP: Primeiro, temos razões para estar confiantes e sermos ambiciosos. O que vemos de outros ecossistemas e de outras regiões leva-me a ser ainda mais confiante nas potencialidades e no que já é feito.
O segundo ponto é a preparação. Deve haver uma maior preparação e uma comunicação muito clara sobre a ligação entre o conhecimento, a ação dos clusters, a dimensão europeia que o país tem. Portanto, esse alinhamento é importante, independentemente, de estarmos a falar de startups, de novas empresas, de iniciativas culturais ou sociais.
O que falta em Coimbra ou no IPN para que startups locais possam competir de forma mais robusta em eventos internacionais?

JP: Acho que elas já competem, não considero que falte muita coisa. Há sempre coisas a melhorar. É uma pergunta sempre muito difícil e algo traiçoeira, porque as condições ideais nunca existirão. Gostaríamos que houvesse mais apoio financeiro à investigação e mais condições para haver ações conjuntas. Mas tudo isso são melhorias estruturais do país e não necessariamente em relação à nossa cidade. Em relação a Coimbra, o ecossistema funciona muito bem, já temos relações estabelecidas entre diversos atores e é só reforçar o que já se faz e tentar ser mais unidos.
Na sua visão, qual é o próximo passo para o IPN depois da Web Summit? Existem novos planos para reforçar o papel do instituto na cena global de inovação?
JP: Pretendemos ser cada vez mais internacionais, não só pela relevância que o IPN possa ter em áreas de inovação concretas, mas, acima de tudo, para termos essa dimensão internacional que podemos oferecer às startups e empresas que apoiamos. Podermos ser um trampolim ainda melhor para novas oportunidades e novos negócios no contexto internacional.
Especialmente nestes momentos tão conturbados como agora com a alteração da política americana, com a introdução de novas tarifas, bloqueios ou dificuldades internacionais, a capacidade de sermos ágeis, de encontrarmos outros parceiros comerciais, é muito importante para Portugal e consequentemente para as nossas startups. Diria que é reforçar mais a nossa visibilidade no contexto europeu, mas também no contexto mundial.
