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Lindo Serviço | 5

Nova rubrica satírica e gastronómica quinzenal assinada por O Tatonas.

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Fotografia: Mário Canelas

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Olá, meus pantagruélicos coimbrinhas.

De todos os textos em que perorei sobre gastronomia este será certamente o mais difícil. Da mesma forma de Coimbra voltar a assumir qualquer papel de relevância na vida nacional, esse nível de dificuldade.

O espaço é frugal, no limite setentrional da cidade. À borda da estrada, mas fora dela. Dentro da urbe e fora desta. O restaurante de Schrodinger. Qual Coimbra capital do conhecimento e da cultura que ao mesmo tempo não o é. Coimbra, eterno Schrodinger cultural. Haja Évora enfim.

Podem apelidá-lo como vos aprouver: casa de pasto, estabelecimento, bistrô, cozinha de autor. O nome não lhe molda o carácter, nem lhe altera o sabor. Tal qual como o título de Dr. não define ninguém.

Sentemo-nos numa das duas salas. Poisemos os braços nas toalhas de papel, encimadas de cestinhas de pão e verdejante azeitona a implorar por um glacial fino, enquanto aguardamos a opípara refeição pela qual todas as almas aqui se dirigem.

As vozes vociferam, o ruído de fundo faz parte da moldura da casa, servindo de acolhedora telefonia permanente. A mesma onde se ouve a Académica a afundar-se cada vez mais no lodo das divisões inferiores do futebol nacional. Desta feita, contra o concorrente pelo último lugar na tabela. Ah, bela metáfora coimbrã. Que não é, de certeza, a mesma que define este estabelecimento.

Após o queijinho, o pão, a azeitona e mais uns rabiscos na folha que serve de toalha, alvíssaras! Poisam as batatas e as couves macias, certamente cozidas aproveitando o apaladado caldo do prato principal que nos fez vir aqui hoje. Desde que não seja de Ecovia, que o nosso edil apelida de Ecovazia, pois seria desconfortável atender somente meio passageiro – que é o que esta transporta em média por dia.

Nós viemos ao Barracão pelos ossos! Por alguma razão se denomina «Cantinho dos Ossos». Legado natural do Quim dos Ossos, este literal barracão junto à circular norte, como quem sai para a Mainça, São Romão e quejandos, faz lembrar palafitas, aquelas construções em madeira que fazem parte do imaginário dos bayous norte-americanos. Terra dos blues, tal qual Coimbra em Blues, daqueles bons eventos que não se devem perder na cidade. Haja algo que façamos bem.

Há quem refira que o Barracão dá ares de sede de motoqueiros, nalgum árido deserto. O que eu sei é que é casa dos mais saborosos ossos servidos na Lusa Atenas. Todas as cidades se orgulham de uma qualquer Meca culinária que albergam. Coimbra deveria orgulhar-se da Meca culinária que é o Barracão. Deveriam formar-se filas à porta, mas este tem uma característica que o impede.

Não há na cidade mesa mais democrática. Quem tenha mais bem partilhado a exegese do comunismo comensal da igualdade social. A mesma mesa serve funcionários da ERSUC, das Águas de Coimbra, trabalhadores de fim-de-semana, calças pintadas e o doutor que se acha mais relaxado com as suas Adidas brancas.

Ossos de comer à colher, de tal forma se desfazem ao primeiro contacto com o metal. Ossos ligeiramente, quase subrepticiamente, picantes, acordando-nos levemente do insípido torpor do dia-a-dia. Doses generosas, como não podia deixar de ser onde se serve quem trabalha. A quantidade conhece a qualidade e aqui se amantizam, procriando sensações para nosso regalo.

Há bifanas, há cozido, há feijoada, jardineira e tudo o mais. Mas é sempre pelos ossos que aqui se deve regressar e ser feliz.

Fidelino de Figueiredo escreveu, na primeira metade do século XX: «a cozinha exprime a técnica e a estética da conservação do alicerce físico da personalidade, do invólucro e condição da alma. O que há de mais peculiar no carácter de um povo expressa-se no tipismo da cozinha».

Que sejam, então, os ossos o tipismo idiossincrático desta cidade e o Barracão a sua morada!

Pantagruélicas saudações, meus coimbrinhas.

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