Agora que tem “todo o tempo do mundo”, Licínia Matias, com raízes em Tentúgal, aventurou-se na criação do Linhas que Contam Histórias, um projeto focado no ensino e na preservação do bordado de Castelo Branco, uma arte tradicional em linho artesanal cru e fio de seda natural. A participante da segunda edição do Fator C’Idade quer promover inclusão social, combate ao isolamento e bem-estar emocional, tendo como alvo principal a população sénior. Para tal, planeia ministrar workshops, nos quais grupos pequenos trabalham a motricidade fina, a autoestima e a criatividade, aliadas a um incentivo ao envelhecimento ativo.

“Abrir horizontes”

Reformada desde agosto de 2025, Licínia Matias conta que o contacto com o croché se deu quando tinha apenas 10 anos, através de “uma velhota que cortava sacos de plástico e fazia chapéus e bolsas”. Assim nasceu um bichinho que nunca desvaneceu, mesmo a vida tomando outro rumo profissional.

A contabilista, com formação na área de Economia, dedicava parte do seu tempo livre a aprender novas técnicas, como o tricô, ponto de Arraiolos, ponto cruz, entre outras. A reforma trouxe consigo a liberdade para se dedicar ao que gosta, sem os impedimentos profissionais e familiares. Assim, aos 64 anos acumula formações de costura, bordados e design, sem qualquer intuito de abrandar a busca por conhecimento.

“Enquanto há vida, é criar”

O primeiro contacto com o Fator C’Idade partiu da sua filha, que lhe enviou o cartaz do projeto de empreendimento sénior. Nesse momento pensou “porque não candidatar-me?”, e assim o fez porque, a seu ver, “é um projeto que tem pernas para andar”.

Licínia Matias partilha que o Linhas que Contam Histórias nasceu após uma formação de bordado de Castelo Branco, que terminou com um sabor agridoce pois o formador disse-lhe que o pano estava mal bordado. A deceção levou-a a focar-se na aprendizagem da arte. Além disso, “acha deprimente uma pessoa num lar ou num centro de dia não continuar a fazer o que gosta”.

Nesse sentido, a artesã considera que este projeto ajuda a “continuar a vida”, através do relaxamento e da criatividade proporcionados pelo ato de bordar. Aponta também a tendência crescente de isolamento social associada ao envelhecimento, que quer combater através do convívio com os outros participantes dos workshops. Espera também conseguir atrair um público mais jovem, uma vez que o croché e o tricô têm vindo a atiçar a sua curiosidade.

Apresentar o pitch marcou a instância em que o projeto saiu do papel. “Estava há muito tempo na minha cabeça e não arrancava, assim já está formalizado”, esclarece. Licínia Matias admite que falta “coragem para dar o primeiro passo” por “ser envergonhada”, apesar de ter propostas de parcerias para ministrar os workshops. No que toca ao processo de criação de um negócio após os 50 anos, acredita que “nunca se é velho para aprender e avançar, enquanto há vida, é criar”.

Percalços no caminho

A ausência de ensino desta técnica tradicional em Coimbra foi outra motivação para a criação do projeto. A seu ver, a importância de preservar o bordado de Castelo Branco passa pela urgência de perpetuar e promover a cultura portuguesa. Quando implementado, Licínia Matias pretende oferecer workshops semanais, entre hora e meia a duas horas, totalizando 30 horas de formação, a grupos de seis pessoas, para oferecer um ensino personalizado.

A fundadora do projeto ambiciona estabelecer parcerias com juntas de freguesia, lares, associações culturais e bibliotecas municipais. Contactou a União de Freguesias de São Martinho do Bispo e Ribeira de Frades, porém a resposta foi negativa. Os responsáveis disseram-lhe que não havia interesse por parte da população porque o grupo de bordados separou-se durante a pandemia de Covid-19. Contudo, Licínia Matias mantém-se otimista para o futuro e crê que a publicidade boca a boca vai ser a chave para crescer o negócio.

O Fator C’Idade é um projeto do Instituto Pedro Nunes, da Fundação Bissaya Barreto e da Coimbra Coolectiva. São investidores sociais do projeto a Câmara Municipal de Coimbra, a Climacer, a Black Monster Media e a GEHC – Global Elderly Health Care. A operação Fator C’Idade – Empreendedorismo Sénior e de Impacto em Coimbra é apoiada pelo Portugal Inovação Social, pelo Centro 2030, pelo Portugal 2030 e pela União Europeia. Os Fundos Europeus Mais Próximos de Si.

 

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Autor

  • Daniela Fazendeiro

    A curiosidade por explorar o vasto mundo que habitamos aliada à vontade de escrutinar as instituições de poder que o governam como bem entendem levaram-me a estudar Jornalismo e Comunicação na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Tive o gosto e o privilégio de ter o Jornal Universitário de Coimbra – A CABRA como segunda casa durante três dos cinco anos do meu percurso académico. Aprendi e cresci muito com os camaradas de excelência que lá conheci. Ao longo do caminho também tive a oportunidade de estagiar na Coimbra Coolectiva e conhecer ainda melhor o jornalismo de soluções e proximidade que aqui é produzido. Um ano depois, estou de volta e pronta para produzir jornalismo capaz de contribuir para um mundo melhor, uma história de cada vez.

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