Carlos Costa, participante na 2ª edição do Fator C’Idade, é, pelas suas próprias palavras, um eterno curioso, pelo que gosta “de estar sempre a aprender”. Aliada à curiosidade encontra-se também um sentido de preocupação em ajudar e contribuir para melhorar a vida das pessoas que o rodeiam. “Sou profundamente humanista”, refere o também professor e mentor. São estas preocupações e desejos por uma vida melhor que têm marcado o seu progresso no mundo do empreendedorismo social e sénior.
O mentor considera que os maiores desafios no processo de envelhecimento são o confronto com as limitações naturais que daí advêm, tanto físicas como psicológicas. Estes condicionamentos tornam as pessoas idosas particularmente vulneráveis a acidentes e a condições adversas de saúde que, com uma estratégia de prevenção, poderiam ser evitadas. É a estes desafios que Carlos Costa, mente por trás do projeto Lugar de Morar, pretende responder.
Dignificação do envelhecimento em casa
Ao longo da sua vida profissional, foi adquirindo uma vasta experiência em gestão e prevenção de riscos. É mestre em Gestão de Riscos pela Universidade do Porto, tendo também investido numa especialização em engenharia de segurança. Este interesse, por sua vez, permitiu-lhe ter “as bases técnicas e científicas” para desenvolver o projeto que propõe no âmbito desta nova edição do Fator C’Idade.
No entanto, este saber não se encontra desligado da sua própria experiência pessoal. Confessa que tanto os seus pais como os seus sogros, de idade já avançada, já tiveram acidentes graves em algumas ocasiões. Estas ocorrências fizeram o professor refletir sobre a falta de “soluções adaptadas às casas de pessoas velhas, de acordo com a sua idade biológica e cronológica”.
Carlos não se conformou perante a falta de resposta. Em vez disso, pôs os seus conhecimentos e experiência à prova e criou o Lugar de Morar, projeto que se encontra neste momento em fase de incubação. O projeto tem como principal objetivo “a prevenção primária tanto de acidentes como de doenças em casa das pessoas”.
O Lugar de Morar foi pensado para oferecer três programas diferentes. Como se de uma casa se tratasse, a base é, em primeiro lugar, fazer uma avaliação dos riscos a que as pessoas possam estar expostas dentro da sua casa. De seguida, é preciso fazer as alterações necessárias de adaptação e prevenção, tendo em conta a vida que já existe dentro daquelas paredes.
“Uma casa é construída ao longo do tempo e tem a memória das pessoas”, algo em que não tem interesse em interferir. Por esse motivo, o trabalho do Lugar de Morar passa por trabalhar as acessibilidades, identificar os perigos e “preparar a casa para mais 20 ou 30 anos para que a pessoa possa viver sem grandes sobressaltos” e manter a sua autonomia, reforça. Ao mesmo tempo, o projeto também pretende preparar as pessoas para estarem mais cientes dos riscos “de acordo com a sua saúde e idade”.
Em relação aos restantes serviços, o segundo programa teria como principal objetivo “trabalhar os quatro pilares da OMS para o envelhecimento ativo e saudável”, de acordo com o empreendedor. Assim sendo, a abordagem iria contemplar a saúde, a segurança, a aprendizagem e a participação. Por fim, o terceiro programa iria contemplar o envelhecimento em casa e na comunidade.
No entanto, o também empreendedor pretende focar-se primeiro na “base da casa”, e investir no primeiro programa de adaptação e prevenção primária. Segundo Carlos Costa, é preferível começar por “preparar a casa para um envelhecimento digno e autónomo” e abraçar outros desafios numa fase posterior.
Neste momento, o Lugar de Morar conta apenas com o seu trabalho e presença. O mesmo admite que “não tem recursos para avançar com um projeto mais empresarial”. Nesse sentido, assume que a prioridade, dentro da incubação do projeto, é procurar “pessoas que tenham uma visão estratégica e de longo prazo”. Estas parcerias, de acordo com o empreendedor, permitiriam incorporar uma equipa mais multidisciplinar para desenhar um plano que responda a todas as necessidades inerentes ao envelhecimento.
Cultura da prevenção em Portugal
Carlos Costa aponta alguns desafios inerentes à implementação do programa Lugar de Morar. O principal obstáculo a superar são, nas palavras do também professor, “as pessoas”. Para o participante desta edição do Fator C’Idade, o indivíduo, no geral “não reconhece o seu eu mais velho”. Este desconhecimento implica, segundo ele, que “não se dá atenção ou se prepara um futuro com mais segurança”.
O segundo maior desafio encontra-se na própria sociedade. Considera que “se gastam muitos mais recursos em remediar, do que prevenir”. Nesse sentido, o empreendedor acredita que tem de haver uma mudança de mentalidade, para que seja possível mudar também as políticas de prevenção e gestão de riscos.
“Acreditamos que a culpa nunca é da pessoa, e essa noção tem de mudar”, explica o participante. Esta tendência é, para o empreendedor, uma questão política e cultural, devido ao facto de “lidar com questões emocionais muito fortes, pelo que a mudança é sempre algo difícil”. Assim sendo, considera que, dentro daquilo que é possível controlar, “nós somos responsáveis por nós próprios”.
“Na Inglaterra, por exemplo, fizeram um estudo científico e, por cada libra investida em políticas públicas de prevenção e gestão de riscos, obtém-se no mínimo 3,5 libras de retorno”, explica. A aplicação deste tipo de medidas é o que permite, segundo Carlos Costa, que os idosos recebam “um apoio para terem as suas casas aquecidas no inverno”.
Fator C’Idade: aprendizagens e partilhas
Carlos Costa atribui à participação no Fator C’Idade várias valências que o podem ajudar no futuro do seu projeto Lugar de Morar. Uma delas é o contacto com outros empreendedores, algo que o também professor reconhece ser uma mais-valia pela entreajuda que se faz sentir entre os demais participantes. “Partilhamos as nossas experiências e os nossos projetos e vemos de que forma é que nos podemos ajudar”, reforça.
Por outro lado, o empreendedor também acredita que a incubadora é um lugar propício para aprender coisas novas e aplicá-las aos seus projetos. Refere ainda que o seu tempo no Fator C’Idade “tem sido uma aprendizagem constante e uma transformação contínua”.
Neste momento, tem como prioridade a criação de parcerias, sobretudo que lhe permitam levar o Lugar de Morar a quem tem menos possibilidades. “Quem tem recursos financeiros pode facilmente adquirir estes serviços, mas essa não é a realidade das pessoas invisíveis aos olhos da sociedade”, acrescenta o participante.
Por esse motivo, considera relevante trabalhar junto dos municípios e outras instituições, de forma a criar uma cultura de implementação de um sistema de prevenção primário que mude “coisas simples, mas que fazem toda a diferença no dia-a-dia”. O empreendedor espera que, ao haver uma mudança de mentalidade, se consiga passar “da demagogia para a prática”.
O Fator C’Idade é um projeto do Instituto Pedro Nunes, da Fundação Bissaya Barreto e da Coimbra Coolectiva. São investidores sociais do projeto a Câmara Municipal de Coimbra, a Climacer, a Black Monster Media e a GEHC – Global Elderly Health Care. A operação Fator C’Idade – Empreendedorismo Sénior e de Impacto em Coimbra é apoiada pelo Portugal Inovação Social, pelo Centro 2030, pelo Portugal 2030 e pela União Europeia. Os Fundos Europeus Mais Próximos de Si.
