Cinco livros, uma mudança de país e uma vida inteira por rearrumar. É a partir desse gesto aparentemente simples que Livros Restantes, de Márcia Paraiso, constrói um filme sobre memória, desapego e reinvenção, e chega esta terça-feira, 28 de julho, a Coimbra, para a sua antes-estreia em Portugal. A sessão decorre às 21h30, no TAGV – Teatro Académico Gil Vicente, com entrada gratuita, e será seguida de apresentação e conversa com a realizadora, Márcia Paraiso, a atriz principal Denise Fraga e o produtor executivo Ralf Tambke.

Em Coimbra, o filme encontra um território especialmente atravessado por mobilidades, encontros culturais e comunidades migrantes. Livros Restantes acompanha Ana Catarina, professora universitária na casa dos 50 anos, que se prepara para mudar de vida e de país. Entre o que tem de deixar para trás e o que insiste em permanecer, restam-lhe cinco livros — e esses livros tornam-se o ponto de partida para reencontros e perguntas que a obrigam a rever o passado antes de avançar para o futuro.

A história, que se desenrola entre Florianópolis e Portugal, fala de desapego e de memória, mas também de identidade, envelhecimento e vínculos afetivos. Na conversa com a Coimbra Coolectiva, Márcia Paraiso explicou que este é um filme profundamente ligado ao feminino, não apenas pela personagem central, mas também pela forma como foi feito: “É um filme muito coerente comigo, com a minha história, porque eu sou essa mulher também”, afirmou a realizadora, sublinhando que a equipa é composta maioritariamente por mulheres nas funções centrais. Para Márcia, essa escolha foi também uma tomada de posição num setor ainda marcado por forte presença masculina, sobretudo nas áreas técnicas.

A realizadora traz para Livros Restantes um percurso fortemente marcado pelo documentário, algo que se nota na atenção à escuta, aos gestos e às relações entre as personagens. Foi a partir dessa observação do real que construiu Ana Catarina, uma mulher inquieta, em mudança, atravessada pela necessidade de se desprender do que já não cabe na sua vida.

Denise Fraga, que interpreta Ana Catarina, também destacou essa qualidade de verdade no filme. Ao ler o argumento, sentiu que estava perante um texto que parecia nascer da escuta da vida real: “parecia que não era escrito, parecia gente falando”, resumiu. A atriz sublinhou ainda que Livros Restantes é um filme sobre relações, sobre o impacto dos vínculos comunitários e sobre a força de uma mulher que, depois dos 50, decide rearrumar a própria existência. Para Fraga, trata-se de uma obra que toca temas sociais e íntimos em simultâneo: racismo, feminismo, homofobia, abuso infantil, envelhecimento, desejo, amizade e recomeço.

Essa dimensão múltipla ajuda a explicar o alcance do filme. Embora seja, em muitos aspetos, uma história de mulheres e feita por mulheres, Denise Fraga disse que o público masculino também se reconhece nela. “Esse filme feminino, feito por mulheres, com questões feministas, foi adorado pelos homens”, contou, referindo-se à reação de espectadores no Brasil. A atriz vê nisso uma das forças do cinema de Márcia Paraiso: a capacidade de falar de experiências concretas e, ao mesmo tempo, universais. “São pessoas muito reais, todo mundo fala isso, que é aquele filme em que você vai entrando na vida daquelas pessoas”, observou.

A relação com Portugal é outro eixo importante de Livros Restantes. Parte da narrativa decorre em solo português, e a coprodução entre a brasileira Plural Filmes e a portuguesa Filmógrafo reforça essa circulação entre os dois países. Márcia Paraiso explicou que a escolha de Coimbra para iniciar o percurso português do filme não foi casual: existe uma proximidade simbólica com a universidade, o conhecimento e o intercâmbio intelectual. “Eu fiquei muito feliz de ser a primeira cidade”, disse a realizadora, apontando ainda para o facto de a protagonista ser professora universitária.

Para Denise Fraga, essa circulação luso-brasileira também reflete algo que já se tornou parte da vida cultural contemporânea: elencos mistos, sotaques cruzados, histórias em que brasileiros e portugueses surgem lado a lado sem que isso precise de ser explicado como exceção. A atriz vê nisso um sinal de mudança e de amadurecimento do cinema feito entre os dois países. E reconhece que o filme fala também, de forma muito concreta, da experiência de quem vive entre lugares e pertencimentos.

Num tempo em que a literatura, o cinema e as relações humanas parecem frequentemente esmagados pela pressa e pela saturação digital, Livros Restantes aposta no contrário: na pausa, na escuta, na conversa e na emoção. Denise Fraga definiu o filme como uma obra que “dá vontade de viver”, de ler mais, de cuidar das relações e de voltar a olhar para a vida com intensidade. É um retrato de uma mulher em transformação, mas também uma reflexão sobre aquilo que nos prende ao passado e o que nos permite seguir em frente.

Com estreia comercial prevista para setembro de 2026, Livros Restantes chega agora a Coimbra como um convite à atenção e à partilha. A sessão de amanhã no TAGV será a primeira oportunidade para o público português ver o filme e ouvir a equipa falar sobre ele. E, para uma cidade habituada à circulação de pessoas, ideias e culturas, trata-se de uma estreia particularmente significativa: um filme sobre partir, ficar, lembrar e recomeçar chega primeiro a Coimbra.

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Autor

  • Vilma Reis

    Nasci em Belém, vivo em Coimbra e me reinvento constantemente entre projetos. Comecei na RUC – Rádio Universidade de Coimbra, vivi o ritmo acelerado da Rádio CBN na Amazónia e me apaixonei pela ponte entre Ciência, Comunicação e Sociedade durante a especialização em divulgação científica na Fiocruz. Agora, enquanto doutoranda em Ciências da Comunicação, continuo jornalista porque gosto de contar as histórias das pessoas. Para mim, histórias sonoras são as melhores, o que me levou a criar o podcast investigativo narrativo O Caso Boaventura. Escrevo guiões e faço pesquisas para cinema documental. Aprendo as regras do rugby com o meu filho e continuo convencida de que o melhor perfume do mundo vem do patchouli. Sigo fiel aos jornais de papel, às séries true crime para espairecer e à frase de Cláudio Abramo que melhor define o ofício: «O jornalismo é, antes de tudo e sobretudo, a prática diária da inteligência e o exercício cotidiano do caráter.»

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