No passado dia 14 de novembro, a Framedrop, uma startup de Coimbra dedicada à edição e pós-produção de vídeos com Inteligência Artificial, recebeu o título de startup mais promissora no programa “Road 2 Web Summit” da Startup Portugal. A empresa, que foca o seu trabalho em soluções para media e criadores de conteúdos digitais, está incubada no Instituto Pedro Nunes (IPN).
Falámos com Mário Tarouca, cofundador da Framedrop, sobre o significado deste reconhecimento e partilhou os planos futuros da equipa após esta importante conquista.
Como foi receber este reconhecimento e o que representa para a Framedrop?
Mário Tarouca: A possibilidade de reunir com vários stakeholders dentro do evento deu-nos imensa visibilidade. Foram mais de 25 reuniões durante os 3 dias, nomeadamente, com investidores potenciais e atuais, e com empresas da indústria dos media. Isto ajuda-nos a centralizar muitos contatos, que vamos trabalhar nas próximas semanas. Este prémio culmina nessa visibilidade, ajuda-nos a potenciar os novos negócios, e acima de tudo, é uma motivação para nós, fundadores, e para a equipa toda, e é o reconhecimento do trabalho.
Agora que ganharam este prémio, quais são os próximos passos para a Framedrop?
MT: Os próximos passos estavam já bem definidos, mesmo que não tivéssemos ganho o prémio, isso só nos dá mais força e mais validação. Adquirimos mais de 100 mil utilizadores desde janeiro. Portanto, temos tido imensa validação e gerado muito dinheiro. Mais de 50% dos nossos clientes pagos são dos EUA, 15% do Reino Unido e trabalhamos noutros países também. Temos podcasters, gamers, youtubers, e também muitos meios de media. É nessa vertente que nos estamos a focar e, neste momento, trabalhamos com os maiores outlets de media em Portugal.
O foco no próximo ano é internacionalizar estas ferramentas, nomeadamente, para os Estados Unidos e outros países, onde a indústria de media é bastante grande e promissora.
O que motivou a criação da Framedrop e como a empresa evoluiu desde a sua fundação até conquistar este destaque?
MT: A empresa existe há 3 anos e meio e foi criada pelo meu sócio, o João Costa. Ele é informático de profissão e gamer nas horas livres, então criou o primeiro algoritmo com o jogo “Call of Duty Warzone”, em que o objetivo era encontrar os melhores momentos. Daí começámos a trabalhar com a indústria do gaming – com a Twitch – e fomos evoluindo ao longo dos anos. No início deste ano, decidimos integrar com o YouTube, e desde aí estamos a crescer no chamado Talking Content, ou seja, podcasts e entrevistas.

Qual é a importância do IPN para a Framedrop?
Quase desde o dia 1 que estamos incubados no IPN, estamos também incubados na Unicorn Factory Lisboa. O IPN tem sido muito importante desde a ronda de investimentos que captamos, até outros processos que passámos de acreditação. Mas, sem dúvida, o IPN faz parte do ecossistema de Coimbra e também nacional e vão-nos abrindo portas à medida que temos alguns desafios, seja no nível de investimentos, potenciais clientes ou de outros tipos de parcerias com fornecedores. Então, estamos muito agradecidos ao ecossistema de Coimbra e ao IPN.
Quais os principais objetivos que pretendiam alcançar com a participação na Web Summit?
MT: Tínhamos dois grandes objetivos. O primeiro tinha a ver com reuniões com investidores. Tive bastantes reuniões já todas agendadas pré-Web Summit com atuais e potenciais novos investidores. O segundo era criação de negócios, nomeadamente, na indústria dos medias. Portanto, reunimos com muitos líderes de vários canais de televisão, rádios, jornais digitais. A captação de novo negócio, além de mostrarmos o que estamos a fazer e o novo produto que vamos lançar, focado na indústria dos medias, foi, sem dúvida, bem alcançado.

Na tua visão, quais são os principais benefícios de uma startup estar presente na Web Summit?
MT: Depende de caso para caso. Pode ser um objetivo de captação de capital, outro de tentar abrir portas com novos negócios ou simplesmente receber conhecimento, pessoas da minha equipa foram ver várias apresentações na indústria da Inteligência Artificial e dos media. Portanto, trouxeram algumas ideias interessantes para discutirmos nos próximos dias.
Algumas empresas mais embrionárias quererão ter o primeiro feedback de potenciais utilizadores, de experts da indústria, outras pessoas poderão querer falar diretamente com alguns dos usuários que vão. Portanto, acho que depende sempre de caso para caso, em que estágio está, em que indústria se encontra.
A visibilidade realmente traduz-se em oportunidades de negócio?
MT: A Web Summit é um evento muito grande e muito agnóstico em termos de indústrias, pois qualquer empresa ou indústria pode estar presente. Isso traz vantagens e desvantagens. A vantagem é que há muitos potenciais utilizadores, a desvantagem é que não é especializada e, por isso, fazer negócio, dependendo da indústria, pode ser mais complicado. Portanto, não diria que a Web Summit é o evento mais direcionado para a captação de negócio.
Estando a trabalhar com a indústria dos medias, houve vários meios presentes e isso deu-nos a oportunidade de poder falar com eles. Portanto, para a nossa indústria fazia sentido. Eventualmente, existirão outros eventos mais interessantes para a captação do negócio.
Como medem o retorno da participação na Web Summit? É possível quantificar os ganhos em termos de networking, leads, parcerias ou visibilidade?
MT: No nosso caso, temos algumas ‘frameworks’ e processos implementados para conseguirmos fazer isso. Portanto, fomos colecionando toda a informação ao longo do evento e agora vai haver um momento de ‘debriefing’ em que vou juntar toda a informação e fazer um relatório com todos os contactos e conhecimento em termos de retorno de investimento.
Desta vez, é fácil medir, pois temos um número direto dado o prémio que ganhámos, que foram 15 mil euros em dinheiro. No mínimo, temos esse retorno, mas mesmo que não tivéssemos ia ser super positivo porque reunimos com bastantes investidores e conhecemos potenciais clientes dentro da indústria de media, até mesmo fora de Portugal. Portanto, o retorno foi super positivo dado o investimento financeiro para lá estar e o tempo investido da equipa em preparar o pré-evento.

Na tua opinião, eventos como a Web Summit são fundamentais ou determinantes para o ecossistema de startups?
MT: Se olharmos para 2016, quando chega a primeira edição da Web Summit a Portugal e para este percurso passado, nove edições, não sei se não teríamos conseguido chegar aqui sem a Web Summit. O que eu sei é que foi uma ajuda e é ainda um evento que posiciona Lisboa e Portugal no mapa em termos de empreendedorismo. Portanto, nunca saberemos se não tivéssemos tido a Web Summit, se conseguíamos chegar aqui, mas quero acreditar que teve o seu impacto positivo.
Depois há outros eventos, mais específicos em termos de indústrias, ao longo do ano, que continuam a contribuir. Portanto, todos eles juntos têm um efeito composto, para que o crescimento seja solidificado e contínuo. Hoje em dia, é indiscutível que Lisboa e Portugal são um polo tecnológico e de empreendedorismo excelente na Europa, para não falar no mundo inteiro. Isso foi feito graças a todo um trabalho com a Web Summit e outras entidades ao longo dos últimos dez, quinze anos.
Quais são os aspectos mais relevantes para uma empresa em crescimento?
MT: Depende da empresa, do setor, do negócio e dos objetivos. No nosso caso, a equipa é fundamental. Quando se começa uma empresa deste estilo, a equipa tem de ser algo muito bem criada, gerida e motivada. Depois, é garantir que a empresa não fica sem capital para poder continuar a inovar. Diria que o terceiro é a resiliência toda a equipa. Começamos há três anos e meio, somos agora nomeados como Most Promising Startup, isto não foi um ‘overnight sucess’. Por isso, uma das palavras que é importante é a resiliência, para não desistir ao longo do caminho, porque é muito difícil.
Para outras startups que buscam reconhecimento, que conselho darias sobre a participação em eventos como a Web Summit?
MT: A preparação e o retorno de investimento depende do trabalho que fazemos pré-evento. Nós preparamos o evento várias semanas antes e isso ajuda-nos a maximizar o retorno. Portanto, uma dica que eu deixo é preparar muito bem o evento. Quanto maior o evento em termos de tempo, duração e de escala, como é a Web Summit, maior tem de ser a preparação.
Como tens vivido a transformação pessoal e profissional de ter sido voluntário na Web Summit em 2016 e regressar, anos depois, como fundador?
MT: Cheguei a Lisboa em 2015, não conhecia ninguém, mas sabia que queria ter a minha empresa e queria trabalhar em startups. Portanto, quando a Web Summit chega para mim foi óbvio que tinha de lá estar e comecei como voluntário para poder ser inspirado e aprender mais. Ir estes anos todos, ter este conhecimento, ter acesso a estas pessoas, tem sido, sem dúvida, uma experiência brutal e que tem impactado a minha vida.

