Durante quase duas semanas estive em Coimbra, como livreiro participante na Feira do Livro. Para o efeito, desloquei-me diariamente a partir da Figueira com viatura própria. Óbvio que tive de estacionar o carro todos os dias, das dez da manhã até onze da noite (recordo que durante este período se assistiram máximos de temperatura em Portugal Continental). Qual o meu espanto quando percebi que deixei de encontrar sombras de árvores, sombras essas pelas quais me deslocava nos dias tórridos, durante quase 25 anos, tempo esse que laborei apaixonadamente na cidade dos poetas (é pela sombra que devemos andar, dizia Breton).

Estes momentos fizeram-me lembrar um texto publicado há 63 anos atrás, tão actualmente útil quanto belo, de Joaquim Vieira de Natividade, publicado no extinto Diário Popular (Ano XVIII, n.º 6090, Lisboa, 1959) em torno de A Árvore e a Cidade. Utilizei-o como forma de protesto quando na cidade que «faz o favor» de acolher a minha família há seis gerações, e que é a bela Figueira da Foz, se assistiu, entre 2017 e 2021, sucessivos abate arbóreo de médio e grande porte.

E a minha indignação pela falta de sombras na semana passada em Coimbra, leva-me a recordá-lo, na esperança de conseguir sensibilizar alguém a não repetir os erros de desrespeito, tanto pelo trabalho desenvolvido por mentes capazes na preservação de património natural, como pelas árvores centenárias e de grande porte connosco cohabitam (tenho a certeza que os «fundamentalistas da preservação do coberto vegetal da praia da claridade, ou será obscuridade (?)», vão dizer-me que me contradizo, uma vez que eu defendo a sua remoção. Esses mesmo entenderão muito bem, e muito melhor que eu, ao ler o texto, que nada tem a ver com As Árvores e a Cidade)

E diz o seguinte:

«A Árvore e a Cidade

Uma das coisas que desfavoravelmente impressionam quem visita o nosso País é a incapacidade, aparente ou real, para, com inteligência e dignidade, aproveitarmos a árvore no urbanismo. Há quem fale, à boca pequena, de atávicos instintos arboricidas, o que é desprimoroso, antipático, quando não degradante e sinistro, porque pode levar a crer que, apesar de baptizados e de nos termos por bons cristãos, de todo nos não libertámos ainda dos vícios e das tendências ingénitas, da infiel moirama.

Para se contornarem os melindres, recorramos, não já ao neologismo «arborifobia», porventura também cruel, mas a eufemismo suaves e eruditos, como a dendroclastia, para traduzir o desamor de muitos dos nossos municípios pela árvore ornamental.

Em boa verdade, por esse País fora, em tantas caricaturas de jardins a que se dá por vezes o nome de parques municipais, raro se nos depara uma árvore verdadeira, uma árvore autêntica, em todo o esplendor da majestosa arborescência: a árvore esbelta, digna, umbrosa e acolhedora, orgulho da Criação. Onde acaso existiu, poucas vezes escapou a brutais mutilações que a transformaram em grotesco Quasímodo, sem o mínimo respeito pela dignidade do mundo vegetal.

Nos jardins, em lugar da árvore, plantou- se um reles ersatz, uns arbustozitos burlescos, quase bobos arbóreos, tão inúteis que nem dão sombra a uma pessoa crescida: as tais falsas acácias de importação, maneirinhas, embonecadas, dengosas, com o ar, não de fazerem parte do jardim, mas de terem ali ido, em passeio, exibir a ramagem, com a sua «permanente»manipulada no salão de qualquer coiffeur arborícola municipal.

Compreende-se, num povo de fraca cultura, o desamor instintivo ao marmeleiro e ao castanheiro, árvores estas consideradas, desde remotos tempos, estimáveis ferramentas de educação e esteio dessa vida patriarcal, austera e digna, que os velhos, ao olharem o que vai pelo Mundo, recordam com saudade e respeitoso enlevo. Já se não compreende, todavia, que se mutilem ou suprimam sem piedade o ulmeiro, o plátano, o umbroso freixo, o álamo esbelto, os nobres e austeros ciprestes, os cedros, os carvalhos e tantos outros soberbos gigantes vegetais que, estranhos, embora, muitos deles à nossa flora, encontraram na Lusitânia como que a sua segunda pátria.

Num país castigado por uma ardente canícula, dir-se-ia que temos horror à sombra; onde se pediam arvoredos frondosos e acolhedores, o ninho de um oásis a suavizar as inclemências do estio, fizemos terreiros imensos, cruamente ensoalheirados e inóspitos; quando tantos dos nossos monumentos lucrariam com uma nobre moldura vegetal que acarinhasse e aquecesse essa frieza da pedra ou por vezes quebrasse, com a cortina da folhagem, a monotonia das grandes massas arquitetónicas, e num ou noutro caso escondesse até a sua real pobreza; quando a presença da árvore exaltaria o poder evocador e o poético encanto que emana de tantas ruínas, como acontece aos templos perdidos nos bosques sagrados da Grécia – nós, pela calada, metodicamente, cinicamente, fomos degolando, mutilando, rapando tudo o que tivesse jeito de árvore para não prejudicar as «vistas», tal como faria qualquer ricaço de letras gordas aos empecilhos que ofuscassem ou escondessem os arrebiques pelintras do seu chalet.

O que haveria a dizer sobre as grandezas e as misérias da árvore nas cidades e nas vilas de Portugal»

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Miguel de Carvalho é proprietário da Livraria Miguel de Carvalho

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