«Estamos a limpar», lança uma das crianças de enxada nas mãos, enquanto junta num monte folhas, pedras e serpentinas que restaram de uma festa. Há quem ajude com um ancinho, enquanto outros recolhem o que é amontoado para um carrinho de mão. «A cooperação é muito evidente» lança Anabela Antunes, directora técnica da Creche Jardim de Infância (CJI) da Associação Nacional de Intervenção Precoce (ANIP), em Coimbra.

Estamos no Jardim da Sereia, por trás da Casa Municipal da Cultura, numas instalações que se assemelham a uma pequena quinta, onde está em permanência um grupo da CIJ. É uma extensão da ANIP, cujas instalações ficam junto à Maternidade Bissaya Barreto, uns metros ao lado. Aqui crianças com idades entre os 3 e os 5 anos passam os dias ao ar livre, sem lápis e sem canetas. «Não desenhamos a Primavera. Vemos chegar a Primavera», atira a educadora Isabel Geraldo.

A abordagem «resume-se na valorização do espaço exterior», explica Anabela Antunes. E os riscos são bem-vindos, cabendo a quem orienta perceber se devem ser limitados ou se são meras percepções. «É preciso conhecer o espaço e confiar. Se eles sentem que confiamos e lhes damos responsabilidades, querem corresponder e isso permite o desenvolvimento», reitera Isabel Geraldo. 

O início do projecto

Tudo começou em 2011, quando uma iniciativa de um grupo de estagiárias do curso de Psicologia da Universidade de Coimbra se transformou em rotina: levar crianças ao Jardim da Sereia uma manhã por semana. Um hábito que, recorda Anabela Antunes, rapidamente se começou a notar que era «manifestamente insuficiente». «Percebemos as potencialidades que tinha o espaço exterior mas também os reflexos que trazia e as mais-valias do ponto de vista das crianças e pensámos que teríamos de fazer algo mais do que apenas uma manhã por semana».

No ano lectivo 2017/2018, arrancava o Projecto Sereia, com a monitorização da Universidade de Aveiro: quatro dias por semana, um grupo de oito crianças estava no Jardim da Sereia e, à sexta-feira, regressava às instalações da ANIP. Os resultados saltaram à vista. Do lado dos profissionais, conta Anabela Antunes, percebeu-se que ficavam «muito mais libertos no exterior, muito mais predispostos a brincar com as crianças». Do lado dos mais novos «menos conflitos entre eles e um respeito muito maior pela natureza». 

No ano seguinte, com o apoio da Câmara Municipal de Coimbra, ampliaram-se as instalações sanitárias e instalou-se água quente no espaço do Jardim da Sereia, outrora ocupado pelo Exploratório. As melhorias  permitiram levar mais crianças para o jardim, onde passaram também a almoçar e fazer a sesta. Eram agora cinco dias por semana. No ano lectivo 2019/2020, depois de algumas dúvidas sobre a continuação do projecto, deu-se o salto para a formalização de uma turma de Jardim de Infância na Sereia. «Deixou de ser o Projecto Sereia no Jardim e passou a ser aquilo que denominamos uma abordagem educativa que é a abordagem Florescer, que implica todos os grupos de jardim de infância e de creche», resume Anabela Antunes. 

São actualmente 13, de um máximo de 14, as crianças que fazem parte deste grupo em permanência na Sereia. «A condição sine qua non é que as famílias tenham interesse», explica a directora. E o interesse tem vindo a aumentar, tanto que no próximo ano pode haver dificuldade em receber novas inscrições. «Este grupo tem mais crianças mais pequenas e temos uma criança que sai para o 1º ciclo. As restantes, se renovarem a inscrição manter-se-ão o que significa que, no limite, só poderemos receber mais duas crianças», antecipa a directora. Embora com um grupo em permanência no Jardim da Sereia, todas as crianças usufruem do espaço: as 57 na creche e os bebés no berçário. «É mesmo muito pouco visto, até temos um carrinho adaptado a que chamamos Tuk Tuk», conta Anabela Antunes.

Projecto Florescer

Em vez de batas há galochas no Projecto Florescer. As mesas são a horta, com ervilhas, favas e couves, ou as estufas onde neste momento há alfaces. Nas mãos das crianças, podem estar ferramentas como martelos, pregos ou facas em vez de brinquedos, sempre sob supervisão, como garante a educadora. «[As facas] são um elemento constante em casa e, por isso, é importante aprender a manusear e ganhar consciência da sua utilização», conta Anabela Antunes. «É tão curioso que as crianças sabem perfeitamente onde estão os limites e até onde podem ir. Já me aconteceu vir uma criança dizer: “Encontrei um vidro”. Eles não pegam no vidro! E estes são receios que nós, adultos, às vezes temos», constata.


O trabalho com as crianças parte de um «projecto educativo de estabelecimento que é o chapéu que orienta em termos de filosofia pedagógica», explica a directora. Depois, no início de cada ano lectivo cada orientadora traça um objectivo para o grupo, tendo em conta as suas características e interesses. Na interacção entre as crianças, cabe ao adulto potenciar as brincadeiras , sem se afastar mas também sem interferir. Há assembleias matinais, onde os pequenos decidem o que vão fazer ao longo do dia. «Às vezes ficam aborrecidos, mas temos que explicar que as votações são assim», confidencia Anabela Antunes. Os dias fluem baseados nos interesses das crianças e elas movem-se de acordo com o que lhe chama mais a atenção. Durante a nossa visita, vimos que saltitavam de lugar em lugar, entre a jardinagem, o monte de canas e a rega.


«Estas crianças são muito mais perspicazes a resolver problemas e a procurar informação que não esperam que surja do nada», lança Isabel Geraldo. Neste contexto de exterior, os projectos acabam por fluir em torno da descoberta. Recentemente, uma das crianças encontrou uma lata de salsichas abandonada e daí começou uma limpeza do jardim, onde acabaram por encontrar outro tipo de lixo. O trabalho acabou numa acção de sensibilização, com direito a distribuição de panfletos aos (poucos) visitantes que encontraram no jardim. Neste dia da nossa visita, estavam a preparar cartazes para uma manifestação na Praça da República. «Quando elas aprendem a partir do que é o interesse delas é sempre muito mais fácil, muito mais motivador», atira Anabela Antunes. 

Para o projecto da ANIP, a ligação à comunidade é importante. A directora conta que a catalogação de todas as espécies florestais da Sereia chegou a ganhar uma fase do Prémio Ilídio Pinho. «As crianças começaram por investigar as árvores que existiam, os nomes, de onde vinham», explica Anabela Antunes. Depois foi feito um catálogo, que incluía um desenho de cada espécie feito por eles e, com o apoio da Câmara Municipal de Coimbra e da Universidade de Coimbra, foi feita uma apresentação científica de cada espécie.

Abrir caminho

Sem estudos profundos sobre os efeitos da abordagem, a ANIP tem apenas a avaliação do Projecto Sereia no Jardim, com evidências ao nível pedagógico e do desenvolvimento das crianças. De quem trabalha com o grupo, há a percepção de um grande nível de respeito e, com base no registo de ocorrências, de que as crianças adoecem «muito menos» estando no espaço exterior. «Não temos evidências científicas. É algo que perspectivamos conseguir, através da universidade ou de um algum investigador que queria pegar e fazer algum projecto, inclusive de doutoramento», revela Anabela Antunes

Anabela Antunes espera que para o futuro seja possível receber mais crianças e que a abordagem Florescer fosse validada pelo Ministério da Educação. «Temos uma série de brochuras do Ministério da Educação da componente de apoio à família, da literacia, da matemática e gostava muito que houvesse uma desta abordagem e das vantagens do exterior», atira. A directora da CJI da ANIP diz que há que contrariar a persistência da «educação padronizada e em sala». Este ano o grupo em permanência no jardim tem pela primeira vez um grupo de estagiários e a educadora Isabel Geraldo diz que isso já é um «começar a abrir caminho».

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