Numa cidade com a mais antiga universidade do país, nem sempre o saber académico chega a todos os cantos da vida quotidiana. O UC Exploratório quer mudar isso: a nova exposição Espelhos: Dentro e fora da realidade surge como ponte entre investigação sofisticada e a comunidade. É um espaço vivo onde a ciência se desdobra em experiências directas, sem barreiras. Para uma Coimbra que caminha entre tradição e inovação, faz sentido ter este ponto de contacto, onde o pensamento científico ganha corpo e conversa connosco.

Reflexos que enganam e iluminam o cosmos

Inspirada em Alice do Outro Lado do Espelho (1871), de Lewis Carroll — sequela aclamada de Alice no País das Maravilhas, onde a menina atravessa um espelho para um mundo invertido, estruturado como um tabuleiro de xadrez gigante, cheio de figuras enigmáticas e lógica absurda —, a exposição brinca connosco: os espelhos reflectem luz de formas que questionam o que vemos, transformam realidade em ilusão e voltam a revelar verdades escondidas. Experimentamos como a luz se reflecte e ilude nos espelhos, descobrimos os retrorrefletores das missões Apollo que devolvem o sinal laser para medir com precisão a distância Terra-Lua, e entendemos melhor como os infravermelhos revelam aplicações em saúde, indústria e comunicação.

Mas vai mais fundo na astronomia, onde os espelhos são heróis silenciosos que constroem telescópios gigantes – do Hubble, com as suas imagens icónicas, ao James Webb, que nos leva ainda mais longe no tempo e espaço, culminando no futuro ELT (Extremely Large Telescope) que é o maior telescópio ótico/infravermelho do mundo, um projeto europeu no deserto de Atacama, Chile: um monstro de 39 metros de diâmetro, com espelho segmentado de mais de 1.100 m² de superfície, feito de 798 hexágonos que prometem espreitar exoplanetas em detalhe, discos planetários à volta de outras estrelas e, quem sabe, sinais de vida além da Terra.

Esta tecnologia milenar, os espelhos nasceram há cerca de 8 mil anos, em obsidiana vulcânica polida na Anatólia, passando por cobre e bronze no Antigo Egito e Mesopotâmia, até ao vidro prateado na Idade Média, pela mão dos artesãos de Veneza. Do ritualístico aos confins do cosmos, dobram a luz para revelar o infinito. Do truque óptico ao mistério estelar, provam que o simples pode ser infinito.

«O trabalho da ciência é transformar espelhos em janelas», diz o professor Alexandre Quintanilha, físico e biólogo português. Deixamos de ver só a nossa imagem reflectida para abrir horizontes: da física quotidiana à exploração espacial, da arte à matemática que engana o olhar.

A Coimbra Coolectiva já lá esteve e saiu com a certeza: esta visita tem muitas camadas – para quem quer brincar com ilusões ópticas, para quem procura aplicações práticas, ou para quem reflecte sobre o Universo. É ciência traduzida e acessível, mas com profundidade, aberta a diferentes públicos, como o próprio Exploratório ambiciona.

A exposição já está aberta ao público e ficará em exibição por um ano e meio. Horários: terça a domingo, 10h-13h e 14h-18h. Preços: 10€ adultos, 8€ crianças (a partir dos 3 anos), 20€ bilhete família (2 adultos + filhos). Bilheteira Solidária com entradas gratuitas diárias para quem precisa, sem necessidade de prova. Totalmente acessível para quem tem a mobilidade reduzida. Vale mesmo a pena.

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Nasci em Belém, vivo em Coimbra e me reinvento constantemente entre projetos. Comecei na RUC – Rádio Universidade de Coimbra, vivi o ritmo acelerado da Rádio CBN na Amazónia e me apaixonei pela ponte entre Ciência, Comunicação e Sociedade durante a especialização em divulgação científica na Fiocruz. Agora, enquanto doutoranda em Ciências da Comunicação, continuo jornalista porque gosto de contar as histórias das pessoas. Para mim, histórias sonoras são as melhores, o que me levou a criar o podcast investigativo narrativo O Caso Boaventura. Escrevo guiões e faço pesquisas para cinema documental. Aprendo as regras do rugby com o meu filho e continuo convencida de que o melhor perfume do mundo vem do patchouli. Sigo fiel aos jornais de papel, às séries true crime para espairecer e à frase de Cláudio Abramo que melhor define o ofício: «O jornalismo é, antes de tudo e sobretudo, a prática diária da inteligência e o exercício cotidiano do caráter.»

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