O importante é não desistir e ir ultrapassando as barreiras para atingir o objectivo, individualmente ou em equipa. Esse é o espírito ninja e é também de ambientalistas como Carolina Bianchi que deslocou o seu foco do empreendedorismo através da separação dos resíduos, oficinas e instalação de compostores comunitários, em aliança com os municípios, para a educação ambiental, dos adultos e das crianças que ganhou a forma de um livro com uma história que se passa precisamente no Verão, como este que está prestes a começar.

E se o futuro estivesse literalmente nas nossas mãos, em forma de bicho-da-conta? É o que acontece a Eva, a menina que aceita o desafio de mudar os seus comportamentos para se tornar mais sustentável e membro da sociedade secreta dos Ninjas da Compostagem. A protagonista do primeiro livro da MudaTuga descobre mais sobre o destino dos biorresíduos, em particular, nos contextos em que se insere, como a sua casa e a escola, e podemos todos aprender com as suas descobertas.

Já conhecíamos Carolina Bianchi, mas, desde 2021, ano em que a start up que criou instalou e monitorizou dois compostores comunitários em Coimbra, a especialista em compostagem deparou-se com vários obstáculos à sua missão de implementar o processo de aproveitamento de resíduos orgânicos na cidade e resolveu mudar de estratégia.

A educação ambiental é o novo foco da bióloga e activista que escreveu Eva, a Ninja da Compostagem (Betweien, 2023), com o apoio do projeto Eco-Escolas da Associação Bandeira Azul da Europa. O livro foi apresentado no Circular 23, em Coimbra, e pretende sensibilizar o público mais jovem e ensinar a comunidade em geral sobre temáticas, como a compostagem, o ciclo dos nutrientes, a reciclagem e a sustentabilidade. 

«São as mulheres que estão a carregar nas costas o movimento da sustentabilidade em Portugal e no mundo todo. Não digo isto de uma forma má, é uma estatística, é como é. Eu queria que a Eva fosse a primeira rapariga e puxasse por todos os colegas de escola, professores e família; inspirasse uma nova geração de pequenos activistas. É um bocado ambicioso mas tenho fé que vai dar certo», disse-nos Carolina Bianchi no final da apresentação e logo depois de dar um autógrafo a uma das gurus da sustentabilidade ambiental em Portugal, a «super ninja» Ana Milhazes. «O objectivo é mostrar que com o apoio de uma comunidade somos mais fortes e capazes de mudar o mundo à nossa volta. Os ninjas da compostagem no livro podem ser pessoas fictícias mas no nosso país, nas nossas cidades e outras localidades, são pessoas reais.»

Maria do Mar e Eunice são algumas das personagens do livro inspiradas em pessoas de Coimbra que também acreditam que «compostar é sempre uma aventura mágica». Quando Carolina percebeu que «não havia material didático que contemplasse o tema [da compostagem], muito menos de uma forma leve», não demorou muito a pôr mãos à obra e criar a história onde cogumelos, abutres, minhocas, bichos-da-conta e outras espécies que existem em Portugal ajudam uma menina a conhecer, entender e lutar por soluções para o problema urgente que é o do desperdício e tratamento dos nossos resíduos.

Carolina Bianchi com Ana Milhares no Circular 23, em Coimbra

O livro inclui momentos de investigação e códigos QR com textos complementares para os pais mais curiosos aprofundarem os assuntos que são complexos para crianças do primeiro ciclo, como a compostagem Bokashi. Carolina Bianchi diz mesmo que este é o primeiro livro que fala sobre o assunto em Portugal e, segundo sabe, também no Brasil. A autora contou com o apoio de Margarida Gomes, directora pedagógica das eco-escolas, que apoia oficialmente a obra que será distribuída com as instituições de ensino com esse selo e para as quais Carolina também está a produzir materiais didáticos gratuitos.

«Em termos de lixo, Coimbra é uma cidade trágica»

Carolina Bianchi diz que se a educação ambiental no mundo é urgente, mas em Coimbra é fundamental. Depois de muito tempo a tentar trabalhar uma relação com a Câmara Municipal de Coimbra, quebrada pela mudança de executivo, a activista conta que esta é a cidade onde mora há seis anos, mas onde menos trabalha. «Já dei mais workshops de compostagem no Alentejo do que em Coimbra», completa.

«Sei que já foi aprovado um projecto piloto e sei que vão ser entregues muitos contentores castanhos, portanto, vão optar pela recolha bio colocando contentores na rua, como fazemos como os eco-pontos. O problema é que Coimbra, em termos de lixo, é uma cidade trágica. Vamos aos eco-pontos e vemos lá de tudo e mais um bocado. As pessoas não sabem fazer a separação dos resíduos recicláveis. Colocam tudo mal, o problema da falta educação ambiental continuada. As pessoas fazem projectos pontuais, palestras, mas o que a cidade precisa é uma revolução de mentalidade. Tem muitos estudantes, pessoas que vêem do país todo e não sabemos como foram ensinadas a separar os resíduos. É preciso fazer um nivelamento por baixo. Temo uma população relativamente considerável e as pessoas não estão prontas sequer para fazer reciclagem, está muito atrás. É um bocado preocupante», relata Bianchi.

Carolina Bianchi e Ana Milhares no Circular 23, em Coimbra


A bióloga diz que a maior parte dos municípios com os quais trabalha não tem investido dinheiro suficiente em educação ambiental transformadora, mas em Coimbra simplesmente não sabe se há investimento porque não tem acesso à informação. No entanto, considera que uma coisa é certa: «numa cidade onde as pessoas não sabem fazer reciclagem [a distribuição de contentores] é uma péssima abordagem, tinham de ser domésticos. Se as pessoas entenderem que se fizerem mal cheira mal, elas vão aprender».

«Algumas cidades que têm bons programas de ensino e taxas de reciclagem mais altas, nessas cidades os contentores funcionam. Em Coimbra só se fosse tentando fazer por zonas, dependendo de cada dinâmica, das característica e hábitos da população», remata, apontando o dedo às zonas por onde passam mais estudantes que «são impressionantes, como a Praça da República, a Baixa, algumas zonas do Polo II e o caminho para a rodoviária».

Bianchi considera que o Circular 23 foi um evento «super importante», porque «temos muitos eventos em Porto e Lisboa e Coimbra está a gritar por ajuda». A activista, que também realizou um workshop gratuito no evento dedicado à sustentabilidade ambiental e economia circular, vai oferecer mais uma oficina à comunidade este mês na Ler ao Cubo, com o apoio da Biblioteca Municipal de Coimbra.

Além do selo das eco-escolas e aquisição por parte de escolas privadas e empresas como a Mind the Trash, Loja do Zero, Maria Granel, o livro Eva, a Ninja da Compostagem está a ser considerado para o Plano Nacional de Leitura, cujos resultados é anunciado no dia 30 de Junho. Até lá, a autora vai fazer uma nova apresentação em Coimbra no dia 28 de Junho, na Feira do Livro, às 17h, desta obra que «tem uma mensagem super importante sobre a comunidade, a importância de trazer pessoas para o movimento da compostagem e que sozinhos não temos o mesmo impacto».


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