Dificilmente outro nome ficaria tão bem no projeto que ocupa o apartamento no primeiro andar do Lote 2 na rua Cidade de Cambridge, Bairro da Rosa, em Coimbra. O imóvel difere (bastante) das outras 11 unidades habitacionais do edifício. Ali funciona o Trampolim — uma prancha que impulsiona o salto daquela comunidade —num apartamento muito vivo e colorido composto por uma sala, três quartos, casa de banho e pequena cozinha. 

Foi neste lugar que Telmo Gonçalves, 18 anos, diz ter adquirido capacidades para fazer a gestão dos seus conflitos, explorar a própria criatividade e desenhar estratégias para perseguir mais claramente objectivos considerados, por ele, como inalcançáveis. Telmo é um dos 163 jovens que hoje integram este programa governamental de âmbito nacional, cuja missão passa por promover a inclusão social e a igualdade de oportunidades de centenas de crianças, jovens e familiares, provenientes dos territórios do Planalto do Ingote, Campos do Bolão, Relvinha, Bairro do Ex-IGAPHE, Bairro da Rosa e Centro de Estágio Habitacional. 

O programa é promovido pela Secretaria de Estado da Juventude e do Desporto, co-financiado pelo Pessoas 2030, Portugal 2030 e União Europeia, e resulta de um consórcio composto por várias entidades, como a Câmara Municipal, estando sob gestão do Centro de Apoio Social dos Pais e Amigos da Escola n.º10.  O projeto Trampolim recebe qualquer criança ou jovem que pertença àquele território de intervenção ou que venha de contextos vulneráveis — em qualquer altura do ano. 

Telmo vinca que foi a sua participação numa das actividades do Trampolim, o Mentes Jovens, que alavancou aptidões que desconhecia: «Nesta iniciativa, temos de traçar um objetivo e trabalhar para concretizá-lo. Decidimos que andar de avião era o sonho de todo o grupo. Depois de dois anos de muito, imenso, trabalho, conseguimos angariar o dinheiro e ficar em Madrid por três dias! E eu vi aquele enorme anseio tornar-se realidade. Mudou a minha vida.» Foi o primeiro lugar onde chegou com um «preciso realizar isto» e ouviu de volta um «vamos fazer acontecer».

Hoje, Telmo está a tirar um curso na Escola de Hotelaria e Turismo de Coimbra e outro para ser árbitro de futebol.

O Mentes Jovens é uma das actividades desenvolvidas na gestão de Vera Silva, a coordenadora do projecto que conversa connosco enquanto algumas crianças espreitam curiosas a nossa entrevista. É impressionante a força que Vera imprime ao contar-nos tudo o que fazem ali; ela detalha os objetivos e o impacto que este trabalho tem naquela geografia: «Esta é a nona geração da iniciativa implantada em 2004. Cheguei aqui em 2021 e integrei uma equipa já estruturada, forte e coesa. Fui muito bem recebida e acho que consegui trazer novas maneiras de pensar.» No Trampolim não há rotina, «nunca, nunca, nunca, todos os dias são diferentes», reforça.

A intervenção na comunidade ultrapassa a fronteira da sede e vai também ao encontro de quem precisa nas escolas. A faixa etária atendida estende-se dos seis aos 25 anos. As dinamizações estão divididas em duas medidas específicas: o sucesso escolar e a cidadania. Há ainda uma psicóloga que garante acompanhamento psicopedagógico a quem precisa e, no dia-a-dia vivenciado por todos ali, as ocupações de arte e cultura aguçam capacidades fora da caixa.

Atualmente, um grupo trabalha na produção de uma novela radiofónica em parceria com a RUC (Rádio Universidade de Coimbra) — desde a escrita do guião, passando pela direção artística, gravação e edição. Há ainda o Futebol de Rua, o Gabinete de Apoio à Formação e Emprego e a mediação entre a família e escola, em caso de insucesso, abandono ou indisciplina.

Uma das salas é ocupada por alguns computadores e uma impressora. É o Centro de Formação Digital, uma atividade que também atende adultos.

«Fazemos ainda colónias de férias para muitas crianças cujas famílias não podem deixar de trabalhar em nenhum momento do ano e disponibilizamos uma bolsa de voluntariado para quem possa vir ler cartas àqueles que não conseguem. Estamos também a criar outra bolsa de estudantes do ensino superior que queiram dar explicações aos jovens que não podem pagar por aulas de reforço», elenca Vera. 

Desporto, fotografia e teatro são novos saltos

Dentro das atividades está ainda o Desporto Ativo – Rugby no Bairro, em parceria com a Escola Superior Agrária de Coimbra. Nascido em 2015, busca reforçar estilos de vida saudáveis juntamente com a prevenção de comportamentos de risco para valorizar as competências que estas crianças e jovens já têm. Os treinos acontecem todas as terças no Campo da Rosa, sempre das 18h30 às 19h30, e os equipamentos são garantidos pela própria Agrária. «Para muitos, esta é a única oportunidade de praticar desporto e eu, antiga participante do Rugby no Bairro, tenho a responsabilidade de mediar esta actividade entre o projecto, as famílias e os atletas», diz Carolina Dimas, 20 anos, atual dinamizadora e que sonha estudar Direito. 

Há três anos, o Trampolim decidiu abordar um problema de que pouco se fala: crianças filhas de pessoas privadas de liberdade. Notou-se que algumas crianças apresentavam sintomas que iam desde a quebra no rendimento escolar, isolamento dos colegas, longos períodos em silêncio, repressão dos próprios sentimentos e, não raro, comportamentos violentos e adoecimento mental. Como lidar?

«Identificámos os jovens que tinham pais em situação de reclusão e começamos a estudar esta problemática. Disto surgiu um outro projecto a que demos o nome de Reclus@ 008, porque eram oito jovens.» A ideia era colocar em fotografias as vivências e os sentimentos surgidos no meio daquela situação. Os retratos, feitos pelas próprias crianças, transformaram-se numa exposição que já circulou em muitos lugares, com o intuito de sensibilizar para esta temática invisível.

Este ano, o objetivo é publicar um livro com as fotografias e que incluirá ainda alguns relatos desta experiência. O Trampolim ainda não têm condições financeiras para viabilizar a edição e está atrás de quem queira apoiar a iniciativa.

Vera finaliza a entrevista com mais uma novidade: o projeto Trampolim foi convidado a participar na Bienal Anozero’24 e tem vindo a construir uma parceria com o artista espanhol Pedro G. Romero para interpretarem juntos o «Auto das Ciganas» de Gil Vicente. É mais um salto que impulsiona a mudança.

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Autor

  • Vilma Reis

    Nasci em Belém, vivo em Coimbra e me reinvento constantemente entre projetos. Comecei na RUC – Rádio Universidade de Coimbra, vivi o ritmo acelerado da Rádio CBN na Amazónia e me apaixonei pela ponte entre Ciência, Comunicação e Sociedade durante a especialização em divulgação científica na Fiocruz. Agora, enquanto doutoranda em Ciências da Comunicação, continuo jornalista porque gosto de contar as histórias das pessoas. Para mim, histórias sonoras são as melhores, o que me levou a criar o podcast investigativo narrativo O Caso Boaventura. Escrevo guiões e faço pesquisas para cinema documental. Aprendo as regras do rugby com o meu filho e continuo convencida de que o melhor perfume do mundo vem do patchouli. Sigo fiel aos jornais de papel, às séries true crime para espairecer e à frase de Cláudio Abramo que melhor define o ofício: «O jornalismo é, antes de tudo e sobretudo, a prática diária da inteligência e o exercício cotidiano do caráter.»

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