«Os grandes monumentos do século XXI são as infraestruturas», atirou o arquitecto Nuno Grande na apresentação pública da proposta Parque Multimodal do Choupal – uma visão complementar para a Alta Velocidade em Coimbra, servindo de corolário à muito aguardada futura estação ferroviária de Coimbra e indo ao encontro do prenunciado por Ana Bastos, vereadora da Câmara Municipal de Coimbra (CMC), que a antecipou como «uma Estação do Oriente em escala proporcional à cidade de Coimbra». Numa sucessão de formulações, a transformação da centenária Coimbra-B em nova Estação Intermodal de Coimbra (EIC) foi sendo enquadrada em planos territoriais que acolhem a revisão do traçado da Linha de Alta Velocidade (LAV) entre Porto e Lisboa e uma nova ponte rodoviária a jusante do Açude-Ponte.

O Plano de Pormenor da Estação de Coimbra (PPEC) foi aprovado no início de 2023, seguindo-se o regular período de participação preventiva e de discussão pública, muito participados. O plano, agora Plano de Pormenor da Estação Intermodal de Coimbra (PPEIC), foi ampliado para acolher a margem direita da frente ribeirinha até Coimbra A. O urbanista catalão Joan Busquets (pronuncia-se ju-an bus-que-tes), comprometido há quase 15 anos com o pensamento urbanístico para esta área da cidade, é o coordenador geral do PPEIC.

Um plano é um plano, um projecto é um projecto

Adelino Gonçalves fala por um grupo de cidadãos-arquitectos que apresentaram publicamente uma proposta sobre o plano delineado por Busquets. Irão a tempo? «Perfeitamente. Busquets está a definir os termos de referência para a EIC e uma solução para a integração urbanística. Consideramos que a nossa proposta melhora aquilo que está a ser trabalhado.» Em conjunto com Luís Sousa e Paulo Antunes, o cidadão-arquitecto identifica esta como uma oportunidade para a cidade. «Uma e outra vez acontecem uns “encontrões” que temos que saber aproveitar para moldar a Coimbra do futuro. A LAV pode ser um desses encontrões. Como a Anozero definitivamente em Santa Clara-a-Nova. Estes encontrões são fundamentais para tirarmos partido deles».

Segundo Adelino, a «CMC obriga-se a fazer um Plano de Urbanização (PU) desde o próprio Plano Director Municipal (PDM)», na área definida como Entrada Poente e Nova Estação Central de Coimbra no PDM, de Julho de 2014, em revisão, delimitada como Unidade Operativa de Planeamento e Gestão (UOPG 3), e seguindo os trâmites legais do Regime Jurídico dos Instrumentos de Gestão Territorial (RJIGT).

«Busquets», continua, «está a prestar um serviço à CMC [e à Infraestruturas de Portugal (IP)]. Poderá ser ou não o autor do projecto da estação, assim como os restantes edifícios, ele é o autor do PPEIC. Um plano é um plano, um projecto é um projecto. A solução [para a EIC] que Busquets tem vindo a mostrar, mostra um edifício ponte, um não-edifício. O que apresenta como ícones daquela área da cidade são dois edifícios-torre destinados a hotéis. Na nossa proposta, queremos que o landmark (elemento marcante) seja ao nível da qualidade dos serviços prestados. A nossa ambição é criar o Parque Multimodal do Choupal, no qual está inserida a EIC».  

Parque Multimodal do Choupal

A 28 de Fevereiro, o Salão Brazil preencheu-se de gente curiosa pela apresentação pública, cujo foco ultrapassa largamente o entorno da estação. A proposta apresentada por Adelino Gonçalves, Luís Sousa e Paulo Antunes defende a criação duma circular regional de Coimbra, definida pela A1, A14, IP3, A13 e A13-1 ao redor de Coimbra, admitindo desportajar estes trechos. A actual circular externa de Coimbra é renomeada como circular urbana, funcionando enquanto «eixo que recebe as vias de penetração desde a circular regional até ao miolo da cidade». Com esta circulação periférica, pretende-se evitar tráfego de atravessamento.

Abdicam da nova ponte rodoviária a jusante do Açude-Ponte, defendida pela CMC, e excluem o viaduto do IC2 ao longo da Rua do Padrão, propondo que o tráfego automóvel passe a circular por um túnel a ser construído no subsolo de Monte Formoso que descarrega na Rotunda da Fucoli, e que permite aceder ao tabuleiro superior do Açude-Ponte, para atravessamento para a margem esquerda. «Isto é falar de sustentabilidade», dizem, «não é construir mais uma ponte rodoviária no centro da cidade. Esta deve libertar-se de quem apenas a pretende atravessar».

O Parque (Urbano) Multimodal do Choupal, um parque de 49 hectares, que surge em continuidade aos 80 hectares da Mata Nacional do Choupal, contém, além da EIC, equipamentos para o lazer e desporto, um pavilhão multiusos de 8000 lugares sentados (já previsto no PDM, com 5000 lugares) e uma spin-off do Instituto Pedro Nunes, «dedicada a trabalho laboratorial e incubação duma nova geração de empresas para a economia verde e azul», a que chamam Instituto Ribeiro Telles. Consideram que o princípio do eixo de mobilidade suave entre a EIC e o centro da cidade é «violado de forma gritante no plano de Busquets» e querem recuperar essa ideia.

Parque Multimodal do Choupal proposto (azul claro) e a sua relação com diversos elementos envolventes (EIC a azul escuro, Mata Nacional do Choupal a amarelo), cortesia dos proponentes

Pretende-se o reforço da urbanidade e integração urbanística da área norte de Coimbra, com a criação duma praça da estação e a clarificação duma verdadeira avenida da estação, ligando-a à cidade. A oportunidade é para densificar a zona, com a criação de 120 mil m² de construção habitacional, a que se somam 54 mil m² para o terciário. Admite-se a expansão do metrobus a norte, pelo corredor da EN1 e uma ligação mecânica a Monte Formoso. Luís Sousa conclui: «Coimbra deve [bater-se] pela localização de uma agência portuguesa contra a seca, uma agência governamental, transministerial, que ponha a acção perante as alterações climáticas na agenda. [Coimbra tem] vantagem competitiva, é um centro importante no território».

Palavra à vereação

Ana Bastos assinala que o PPEIC contempla «além dos princípios de intermodalidade, os conceitos de multifuncionalidade e sustentabilidade, numa área onde coexistem espaços edificados, infraestruturas e zonas verdes, e onde se incluem áreas agrícolas».  O PPEIC continua em desenvolvimento, avançando vários estudos de especialidade, conforme avançado pela vereadora, como o «mapa de ruído, avaliação estratégica ambiental e estudo de tráfego». Prevê-se que o PPEIC assuma a sua «expressão final» durante 2024, de forma a integrar a Fase 1 da LAV, correspondente ao troço Porto/Soure, Lote B –Soure/Aveiro (Oiã).

Visualização tridimensional do plano proposto por Joan Busquets, imagem CMC

Uma das condicionantes apontadas é o Plano de Gestão dos Riscos de Inundações (PGRI), instrumento que visa reduzir o risco de inundações e que «está em fase final de elaboração, com publicação prevista para breve». Este instrumento elevou a cota de cheia para 17,40 m [quando estava definida 15,20 no PDM], dois metros acima da anteriormente definida, «o que limita substancialmente o desenvolvimento urbanístico e edificado de todo aquele espaço». É identificada como essencial a construção da Barragem de Girabolhos, em Seia, 90km a montante de Coimbra, no Rio Mondego. Adianta ainda que, conhecidos estes novos estudos, a CMC «considera que importa promover um novo momento de participação pública, de forma a recolher sugestões e contributos por parte de todos os interessados».

E depois do plano

Todo este processo é uma transformação a longo prazo, que abraça a Linha de Alta Velocidade como uma oportunidade. A apresentação foi comentada por Gonçalo Quadros, chairman da Critical Software, Nuno Grande e Nuno Pinto, professor de planeamento urbano em Manchester [ver separador pop up em cima]. Gonçalo Quadros reforçou a ideia de fazer cidade, alavancada na sessão: «Esta é a cidade que queremos construir para os nossos filhos e netos. Ninguém quer apenas uma estação, isso devíamos ter tido há décadas, queremos construir cidade, não queremos deixar de tirar partido desta oportunidade».

Adelino Gonçalves, co-autor da proposta «Parque Multimodal do Choupal – uma visão complementar para a Alta Velocidade em Coimbra»

No dia 6 de Abril, Nuno Pinto propõe ampliar a discussão deste assunto usando um método participativo eficaz baseado na metodologia de um conceito chamado geodesign num evento promovido pela Coimbra Coolectiva. Alterando um pouco a lógica da participação pública no contexto português, em que as comunidades podem ter uma palavra a dizer, não nos planos, mas na estratégia, de forma colaborativa, codesenhada e combinando os representantes dos cidadãos, todos vão poder pensar a «nova Coimbra B» ou zona Norte da cidade. Brevemente anunciaremos detalhes.

Adelino Gonçalves assinala que a sua é «uma visão política (na acepção de pólis) para a cidade, não partidária, de cidadania. Custa-me entender que digam que não querem o tráfego de atravessamento fora da cidade, custa-me a crer que haja quem não queira que haja maior oferta de transporte colectiva. Aquilo que fazemos é uma ambição pelo bem-estar de todos. Naturalmente que haverá quem pense, “lá vêm estes gajos, então eu não posso tirar o carro da garagem?”. Não estamos numa de proibir coisas, queremos construir coisas, apontar um cenário de vida, porque Coimbra precisa».

A IP não respondeu em tempo útil e a CMC remeteu esclarecimentos adicionais para 15 de Março, quando Busquets regressa para apresentação da maquete e possíveis alterações ao PPEIC.

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