Salão Nobre da Câmara Municipal de Coimbra (CMC) bem preenchido de curiosidade para a apresentação das alterações ao Plano de Pormenor da Estação Intermodal de Coimbra (PPEIC), uma expectativa adiada da cidade. O interesse maior era despertado pelo revelar da grande maquete com a representação tridimensional do plano, já integrando o tratamento urbanístico e paisagístico da frente ribeirinha da margem direita do rio, entre o Açude-Ponte e a Estação Nova.


Sob coordenação geral do urbanista Joan Busquets, em proximidade com a CMC e a Infraestruturas de Portugal (IP), esta apresentação pública a 15 de Março assume-se como um passo preliminar do processo que a CMC pretende ter concluído até ao final de 2024, fazendo depois integrar o PPEIC na calendarização de concurso e execução da Linha de Alta Velocidade (LAV).
O urbanista e o plano
Joan Busquets, de mão sobrevoando sobre a maquete, refere-se à «enorme complexidade» do plano, que «não se resolve rapidamente». Mais de um ano separa a última vinda a Coimbra do urbanista catalão. Desde então, a grande evolução do plano foi integrar diversas soluções e alargar a visão da proposta. De 143 hectares de área analisada até há uns meses, a área do PPEIC alargou para 273 hectares (2,73 km2, sensivelmente 270 campos de futebol). Além da envolvente da Estação Velha (Coimbra-B), com a criação de um bairro da estação com usos comerciais e habitacionais, o plano estende-se até à Estação Nova (também conhecida como Coimbra-A ou apenas Coimbra), articulação urbana a que Busquets chama de «matriz da operação».
A nova estação é um edifício-ponte que incluirá também a gare rodoviária, a deslocalizar da Avenida Fernão de Magalhães, além de prever a intermodalidade com táxis, aparcamento para 1500 bicicletas, veículos automóveis (com Kiss & Ride, zona de largada e recolha rápida de passageiros) e com o Sistema de Mobilidade do Mondego, o transporte bus rapid transit (BRT) baptizado de Metrobus, a ligar a estação ao centro da cidade, admitindo-se a sua posterior continuidade para norte, pelo eixo da EN1 da Pedrulha. O edifício relaciona uma praça a Nordeste com outra a Sudoeste, como explica Busquets sobre a materialização à escala diante de si, e conta com três edifícios emblemáticos, a que chama de landmarks, com cerca de 50 a 60 metros de altura e com cobertura panorâmica, com «vista sobre o Choupal e a cidade antiga».
O uso destes edifícios será definido posteriormente, por entidades ou investidores privados, e que Busquets sugere poderem vir a ser «hotel, centro de reuniões ou de negócios, etc.» A cota de cheia, a ser alvo de revisão pelo Plano de Gestão dos Riscos de Inundações, que a reviu de 15,20 para 17,40, pode vir a ter nova revisão, obrigando à alteração geral do projecto da estação e envolvente, colocando-a a uma cota superior.
Velocidade em alta
Segundo o vice-presidente da IP, Carlos Fernandes, presente na sessão, Coimbra é actualmente servida por 13 Alfas por sentido, por dia (número variável, consultando a calendarização da CP). A expectativa é ter 9 serviços LAV a parar em Coimbra e 34 serviços LAV híbridos ou mistos, isto é, que param na estação, mas que iniciam ou concluem o seu trajecto noutras localizações que não Porto ou Lisboa. Estes serviços acrescem aos comboios convencionais – regionais, urbanos e intercidades – que continuarão a servir Coimbra pela Linha do Norte.
A Linha de Alta Velocidade (LAV) promete colocar Coimbra mais próxima das maiores cidades desta frente atlântica luso-galaica. Aponta-se que Porto ficará até 2028 a 30 minutos de Coimbra, e Lisboa, até 2030, ficará a 51 minutos, um ganho de 39 e 47 minutos, respectivamente. Estes tempos, que consideram já a aceleração e desaceleração na chegada à estação de Coimbra, tornam este eixo manifestamente competitivo em relação ao automóvel. Daniel Ferreira, director do Departamento de Estações da IP, explica como a LAV funciona na aproximação a Coimbra. Esta será feita com um bypass, um desvio do eixo LAV principal que liga Porto a Lisboa, idêntico ao que será feito em Leiria e Aveiro, compatibilizando as novas linhas ferroviárias com a Linha do Norte existente. Isto permite que alcancem a velocidade de 300km/h no eixo principal e que não se obstaculizem os serviços regulares.
A ponte e o viaduto
O tema da eliminação parcial do viaduto do IC2 na Rua do Padrão e das novas travessias do rio é um dos elementos mais abordados – e mais criticados – do plano. A LAV precisa duma nova ponte ferroviária para aceder à futura estação e a CMC vê aqui a oportunidade para propor uma nova travessia rodoviária usando o canal da actual ferroviária, a ser desactivada. As questões levantadas por alguns cidadãos prende-se com a presença visual dessas duas novas pontes e o seu impacto na estrutura arbórea da Mata Nacional do Choupal, tendo alimentado diversas petições.

Busquets questiona: «A [nova ponte será] muito marcante? Diria que as pontes do Porto, por exemplo, são positivas, estão bem desenhadas, não são anónimas. A IC2 é um elemento de grande impacto na cidade, temos que o superar. Este projecto [do PPEIC] não resolve isso, dá a possibilidade doutra solução. Será fruto de outro projecto, de outra negociação com a CMC».
Daniel Ferreira aponta que a ponte não resulta do projecto ferroviário, mas sim «dos estudos que a CMC está a desenvolver», indicando-a como uma «oportunidade para a CMC rever a parte rodoviária». Ana Bastos, vereadora da CMC, acrescenta que a cidade tem «vários problemas sérios de congestionamento, quer na Casa do Sal, quer na Rotunda do Almegue. A solução de futuro, se quisermos resolver esses problemas, é aumentar a capacidade [de tráfego] de forma substancial. A nova ponte vem trazer essa capacidade. É evidente que tem externalidades negativas, o corte de algumas árvores, nunca neguei isso. É importante que a população de Coimbra veja o global, a oportunidade que Coimbra não pode perder».
Final da viagem
Em relação a prazos de concretização do PPEIC, que aponta ser uma proposta preliminar e um «plano dinâmico», Ana Bastos traça o calendário: «Espero ter esta solução estabilizada antes de Agosto», já com os estudos e especialidades que estão a ser concluídos, como o estudo de tráfego, a avaliação estratégia ambiental e o mapa de ruído. O plano será depois aberto à discussão pública e posteriormente, enriquecida a solução com as participações dos cidadãos, levado à aprovação à assembleia municipal. Aponta-se assim o ano de 2024 para finalização do PPEIC, integrando-o no concurso em 2025 da concessão do segundo troço da LAV pela IP, o troço de Oiã-Soure, que serve Coimbra.
Daniel Ferreira acrescenta: «Com o planeamento em vigor, espero que no final de 2025/2026 se consiga avançar e colocar a primeira pedra». A maquete do PPEIC encontra-se exposta no átrio da CMC para contemplação e análise. Tudo o mais necessário ao plano, assinala Busquets, terá que ser trabalhado a uma escala mais próxima, de detalhe.

















