Escrevo enquanto alguém que percorre esta cidade quase todos os dias — a correr, de bicicleta e, sobretudo, a observá-la com atenção. Como engenheiro eletrotécnico ligado à área da energia, empresário e atleta de triatlo, aprendi a olhar para os sistemas, sejam eles energéticos ou outros, de forma funcional. E Coimbra, apesar de toda a sua história e identidade, continua a ter um potencial por cumprir.
Coimbra é uma cidade única. Tem escala humana, uma forte comunidade estudantil e uma identidade cultural que a torna uma das cidades mais emblemáticas de Portugal. É uma cidade que convida a ser vivida devagar — a pé, a correr ou de bicicleta. E é precisamente nessa vivência que se revela uma oportunidade clara: transformar a mobilidade urbana num verdadeiro motor de desenvolvimento.
Nos últimos anos, temos visto avanços importantes. A rede de ciclovias cresceu, e o uso da bicicleta, especialmente a elétrica, tornou-se mais comum. Mas há uma realidade simples que continua por resolver: não basta criar caminhos para pedalar, é preciso criar condições para parar.
Hoje, andar de bicicleta elétrica em Coimbra implica uma decisão constante: «posso deixá-la aqui?». E, na maioria dos casos, a resposta é não.
Falo de situações banais, como entrar numa padaria, ir à piscina, passar pelo mercado ou simplesmente parar para apreciar a cidade. A ausência de locais seguros para estacionar bicicletas, sobretudo as elétricas, que representam um investimento significativo, limita a sua utilização no dia a dia. O típico suporte metálico na rua não oferece segurança nem confiança. E, sem confiança, não há adoção.
Quando não conseguimos integrar a bicicleta na rotina — parar, sair, voltar —, ela deixa de ser um meio de transporte prático e passa a ser apenas uma opção ocasional. E isso impede Coimbra de beneficiar plenamente de tudo o que a mobilidade ciclável pode trazer.
Os benefícios são claros. Uma cidade onde mais pessoas usam a bicicleta é uma cidade mais saudável, com mais vida no espaço público, mais interação e mais movimento. É também uma cidade economicamente mais dinâmica, porque quem se desloca de bicicleta pára mais, consome mais localmente e descobre mais comércio.
Imagino, e já vivi em pequena escala, o que poderia ser um fim de semana típico: sair de casa de bicicleta, passear pelo parque verde, explorar o Choupal, ir até Celas, descer até à Baixa e voltar a casa. Tudo sem carro. Tudo com tempo. Tudo com cidade.
Mas para que isso seja realidade, é preciso dar um passo que muitas cidades europeias já deram: garantir que as bicicletas — especialmente as elétricas — têm onde ficar em segurança.
Não é necessário ter soluções em cada esquina. Mas tê-las em pontos estratégicos — Baixa, Alta, universidades ou zonas comerciais, teria um impacto direto na utilização da bicicleta e na mobilidade urbana.
Não se trata apenas de infraestrutura. Trata-se de confiança. Trata-se de permitir que as pessoas usem a cidade sem preocupação.
E, talvez mais importante, trata-se de visão.
A requalificação de zonas como a Baixa de Coimbra não passa apenas por obras ou eventos. Passa por trazer pessoas de volta. Passa por tornar a cidade acessível, fluida e convidativa. E a mobilidade suave, bem suportada, pode ser uma das chaves para isso.
Coimbra tem tudo para ser uma referência. Não pela dimensão, mas pela forma como escolhe evoluir.
A pergunta que deixo é simples: queremos continuar a adaptar a cidade ao automóvel, ou estamos prontos para adaptá-la às pessoas?
Porque, no fim, não é apenas sobre bicicletas.
É sobre como queremos usar, e viver, a cidade.

Carlos Oliveira, de Coimbra, é engenheiro eletrotécnico ligado à área da energia, empresário e atleta de triatlo, com uma forte ligação à bicicleta.
