A baixa de Coimbra ainda é casa de uma das últimas lojas da Tricots Brancal, marca portuguesa fundada em 1972 por Manuel e Antero Brancal, na Covilhã, que chegou a ter 26 lojas espalhadas pelo país. O espaço na Rua Visconde da Luz foi o terceiro a abrir portas e conta uma história de 48 anos de amor aos fios. Desde novembro do ano passado que o encerramento iminente paira sob a atmosfera da pequena loja.

Paula Veríssimo, professora na Universidade de Coimbra, é cliente habitual da loja há 40 anos. Na sua ótica, o encerramento «não faz sentido» e vai fazer muita falta por se tratar de uma marca tradicional portuguesa. «A situação provavelmente é uma diversificação de negócios e é uma questão também familiar, a empresa tem negócios em outras áreas e este não deve ser tão chamativo quanto os outros», pondera.

Qual o futuro da Tricots Brancal?

Ao que tudo indica, a fábrica de fiação e tinturaria da Manuel Brancal & Companhia, Lda cessou a produção há mais de um ano, sem anúncio oficial. Neste momento, as lojas ainda em funcionamento vendem o stock restante.

A 16 de janeiro, após um interregno de 5 meses sem atualizações, a Tricots Brancal publicou um comunicado nas suas redes sociais no qual afirma atravessar «um período particularmente exigente, marcado por profundas alterações na sua estrutura operacional e comercial».

A empresa atribuí o encerramento de «algumas lojas» e a suspensão da produção de fios na fábrica a «um contexto económico e industrial cada vez mais desafiante». Além disso, declara estar «ativamente à procura de alternativas que permitam relocalizar e reestruturar a produção de forma sustentável». A Coimbra Coolectiva procurou esclarecer aspetos deste comunicado, porém não obteve resposta às perguntas enviadas.

Na década de 90 do século passado, a família de Manuel Brancal expandiu o negócio para o imobiliário e turismo, criando o Natura IMB Hotels. O maior grupo hoteleiro da Serra da Estrela é dono do H2otel, do Puralã Wool Valley, do Sport Hotel, do Hotel Versátile, do Hotel Lusitânia, além do Covilhã Country Club.

Perante o declínio, quem ainda tricota?

Diogo Carvalho, seixalense de 23 anos, sempre utilizou o seu lado mais criativo como um escape. O estudante do Mestrado em Biologia Celular e Molecular na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra fez um ano de pausa para juntar dinheiro antes de ingressar novamente no ensino superior. Durante esse interlúdio dedicou-se a aprender mais sobre crochê e criou um pequeno negócio de venda de peluches. Melissa, uma marca espanhola, é a sua escolha de eleição por se encontrar com facilidade em lojas.

Por ser trabalhador-estudante não tem tanto tempo livre para fazer crochê, o levou à interrupção do negócio. «Tenho mesmo de ter vontade e, com o cansaço, isso não acontece», ilustra. Porém, espera conseguir voltar a dedicar mais tempo a esta arte num futuro breve, sem a obrigatoriedade associada à gestão de um negócio.


«Para mim, o crochê representa momentos de introspeção e alívio de ansiedade, além de ter um lado emocional e familiar associado às minhas avós que me ensinaram e dedicaram muito carinho às peças que me ofereceram». Diogo Carvalho

A liberdade criativa, o escape ao stress e o afeto que pode ser transmitido aos outros são as principais vantagens enumeradas por Diogo. Por outro lado, identifica a dificuldade em encontrar uma grande variedade de materiais bons ou o preconceito que sente por ser um homem que faz crochê, uma atividade «mais feminina». «Ia fazer crochê para a esplanada de um café e as pessoas olhavam de lado, mas não me importa», assevera.

Diogo considera que trabalhos artesanais feitos com lã são muito importantes, apesar de não serem valorizados. Deu como exemplo um coelho que comercializava por 20 euros e lhe custava 16 euros a fazer, sem contar com a mão de obra, que teve muita dificuldade em vender. Nesse sentido, considera que numa era de fast fashion dedicar tempo a criar a própria roupa é uma forma de resistência ao consumo desenfreado. «Há peças que demoram muito tempo até ver um resultado», acrescenta.

Tem receio de que a prática de crochê se perca por ser vista como uma atividade para pessoas idosas e porque o ritmo acelerado da vida atual não permite que as pessoas dediquem o tempo necessário. Na sua ótica, cursos gratuitos e sessões comunitárias de aprendizagens podem ajudar a reverter este cenário. Além disso, acredita que celebridades como o atleta olímpico Tom Daley ajudam a repopularizar a arte, trazendo-a para o grande público através das redes sociais.

Diogo vê o encerramento da Tricots Brancal com muita pena, devido à dificuldade em encontrar lojas que se dediquem exclusivamente à venda de materiais para tricô e crochê, especialmente portugueses, retirando ainda mais o acesso a quem pratica. Assim sendo, o estudante não vê o futuro da lã portuguesa com bons olhos. «Não conheço ninguém da minha idade que faça crochê, só conheço pessoas mais velhas e as minhas avós», remata.

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Autor

  • Daniela Fazendeiro

    A curiosidade por explorar o vasto mundo que habitamos aliada à vontade de escrutinar as instituições de poder que o governam como bem entendem levaram-me a estudar Jornalismo e Comunicação na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Tive o gosto e o privilégio de ter o Jornal Universitário de Coimbra – A CABRA como segunda casa durante três dos cinco anos do meu percurso académico. Aprendi e cresci muito com os camaradas de excelência que lá conheci. Ao longo do caminho também tive a oportunidade de estagiar na Coimbra Coolectiva e conhecer ainda melhor o jornalismo de soluções e proximidade que aqui é produzido. Um ano depois, estou de volta e pronta para produzir jornalismo capaz de contribuir para um mundo melhor, uma história de cada vez.

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