“Já não vinha aqui há muitos anos. Isto traz-me memórias de infância e agora estou aqui a falar de longevidade.” Variações desta frase ouviram-se vezes sem conta na sexta-feira, 25 de setembro, no Portugal dos Pequenitos, em Coimbra, onde decorreu o II Networking do Programa de Incubação Fator C’Idade 2026. A contradição estava à vista de todos: um grupo de empreendedores ligados ao envelhecimento ativo e à economia da longevidade a pensar o futuro num parque que, para a maioria, pertencia ao passado.
O dia foi dedicado ao encontro entre pessoas que já andam no projeto há alguns meses e que começam a dar corpo às ideias. Gente que decidiu começar, ou recomeçar, numa altura em que muitos já pensam noutra coisa. Passaram pelo encontro Carlos Costa, do Lugar de Morar; Eduardo Queirós, do Escudo do Tempo; António Simões, do podcast Gávea; Agostinho Martins, do FixAR; Izabel Balieiro, da TeraPão; e Carla Rézio, do Simplifica Atelier.

Encontros como este são parte central do programa. O Fator C’Idade promove eventos regulares de networking e de criação de parcerias para fortalecer o empreendedorismo sénior e de impacto em Coimbra, ligando os projetos ao ecossistema de inovação da cidade, com entidades como o Instituto Pedro Nunes, a Fundação Bissaya Barreto e a Coimbra Coolectiva. A conversa cruzou-se com a de quem os acompanha: Sónia Matias, da Fundação Bissaya Barreto; Ana Heitor, da Câmara Municipal de Coimbra; e Sílvia Pelham, participante do projeto Empreendedorismo 5.0. O grupo foi recebido pela administradora da fundação, Lúcia Santos, e pelo diretor do parque, Nuno Gonçalves, a par da equipa do Serviço Educativo do Portugal dos Pequenitos.
Numa sala de capelos em miniatura, falou-se de empreender a sério
Há uma ironia simpática em discutir os riscos de empreender numa sala de capelos em miniatura, na zona do parque dedicada a Coimbra. Foi lá que João Claro, criador do Brew! Coimbra, contou como uma ideia pode demorar a sair do papel. O festival de cerveja artesanal, que desde 2019 ocupa Coimbra, nasceu depois de uma visita a um evento do género e da vontade de trazer o conceito para a cidade. A história que partilhou foi menos festiva do que o festival: durante dois anos, por mais parceiros que procurasse e por mais que insistisse, nada avançava. Depois veio a pandemia. Investiu todas as poupanças de engenheiro informático, contou com a ajuda da família e foi resistindo. Hoje o Brew! atrai milhares de visitantes, junta centenas de referências de cervejas nacionais e internacionais, música e street food, e já deu origem a cervejas feitas com ingredientes da região. Numa sala cheia de gente a dar os primeiros passos, o que mais ficou foi a persistência. Não a versão de cartaz motivacional, mas a das portas fechadas, das poupanças em jogo e dos anos sem resultado, contada por quem, no fim, viu a ideia ganhar corpo.



O cenário ajudou à conversa. Na visita guiada, o grupo percorreu a génese do parque, as fases da sua construção e os pormenores do seu património arquitetónico, paisagístico, etnográfico e histórico. Bissaya Barreto, Cassiano Branco e muitos mestres talentosos trabalharam juntos durante mais de 20 anos numa obra que a organização descreve como uma “biblioteca para ser lida com todos os sentidos”.



O diretor, Nuno Gonçalves, lembrou que o Portugal dos Pequenitos nunca foi só um parque de miniaturas. “O Parque tem 86 anos, é o sonho do professor Bissaya Barreto e a sua formulação de humanidade, de civismo, de progresso, de educação”, disse. Não nasceu para ser um parque temático, mas para dar resposta à Casa da Criança Rainha Santa Isabel, num tempo em que cada pormenor, da arquitetura aos talheres, contava. “O professor Bissaya Barreto acreditava que os pormenores do Parque e os pormenores que nos envolvem também são uma importante manifestação naquilo que é a formação das nossas competências”, explicou.
Para Nuno Gonçalves, a coincidência era evidente. “De sonhos e de ideias estamos a falar também aqui no Parque, e por isso nada melhor que um Parque que tem esta identidade para receber este programa. Fala de sonho, fala de projetos, fala de resiliência.”
Fator C’Idade é um projeto do Instituto Pedro Nunes, da Fundação Bissaya Barreto e da Coimbra Coolectiva. São investidores sociais do projeto a Câmara Municipal de Coimbra, a Climacer, a Black Monster Media e a GEHC – Global Elderly Health Care. A operação Fator C’Idade – Empreendedorismo Sénior e de Impacto em Coimbra é apoiada pelo Portugal Inovação Social, pelo Centro 2030, pelo Portugal 2030 e pela União Europeia. Os Fundos Europeus Mais Próximos de Si.
