O animal na imagem de capa deste artigo é tão adorável quanto raro. Chama-se foca-monge do Mediterrâneo ou lobo-marinho e Nuno Vasco Rodrigues conheceu-o na Reserva Natural das Ilhas Desertas, na Madeira. Nós também já o podemos conhecer, mesmo que não da mesma forma, e não deixa de ser um privilégio.

Restam menos de 500 lobos-marinhos no mundo. «Temos a sorte de os ter, são extremamente curiosos, este estava «colado» à minha lente, tivemos a sorte de estar ali e ele chegar-se e permitir esta imagem», diz o investigador de Coimbra na inauguração da exposição Segredos do Mar Português na Science Gallery do Exploratório Centro Ciência Viva de Coimbra. É lá que assistimos atentamente à visita guiada do também fotógrafo que nasceu cá, mas deixou a cidade para rumar à costa e perseguir o sonho da biologia marinha. Décadas depois, mais do que estudar explica que se dedica a comunicar e defender a vida que acontece oceano.

«Segredos do Mar Português», na Science Gallery do Exploratório Centro Ciência Viva

Autor de fotos premiadas e publicadas em exposições internacionais, jornais, revistas e livros, Nuno é instrutor de mergulho certificado com mais de 1500 horas debaixo d’água em várias partes do mundo, a maioria delas a estudar e fotografar animais marinhos. Revelar os seus encontros e descobertas fotografia a fotografia, mas sobretudo história a história, trazendo à tona a importância das áreas marinhas protegidas e da conservação das espécies, é a paixão do biólogo que fala de chocos que em milésimos de segundo mudam de cor com um entusiasmo quase infantil. Aliás, é a proximidade ao público mais jovem e às famílias que o move.

Agora apresenta um mero da Ilhéu das Formigas, a norte da Ilha de Santa Maria, no arquipélago dos Açores. «É uma das reservas marinhas mais antigas do país onde mergulhar é como uma viagem ao passado; conseguimos ver animais em muita abundância, de uma dimensão que hoje em dia já não vemos na maior parte dos sítios e facilmente temos 10 ou 12 animais destes a vir ter connosco e pedirem-nos festas. Parecem autênticos cães. É um sítio absolutamente fascinante.» A seguir, diante de um gigante cachalote, o colaborador da National Geographic Portugal, fala sobre esse «animais incríveis mas muito desafiantes de trabalhar», porque estão na superfície apenas cerca de 10 a 12 minutos e depois afundam para as profundezas a três e quatro mil metros de profundidade, em busca do alimento preferido: lulas gigantes. 

«Segredos do Mar Português», na Science Gallery do Exploratório Centro Ciência Viva

Para chegar perto e fotografar baleias não é permitido usar garrafas de oxigénio, apenas mergulhar com máscara e tubo. Dá que imaginar, não dá? Ao mesmo tempo que bebemos os detalhes técnicos, levamos também com um pouco de contexto, até porque há uma foto na exposição que também mostra uma baleia morta, por razões desconhecidas. Nuno explica que desde 1986 que se deixou de praticar a baleação ou caça à baleia em Portugal, que era uma actividade económica muito importante nos Açores, mas hoje os cachalotes «continuam a ser um produto interessante graças à oportunidade de observação e esse tipo de turismo». «A sua protecção tem esse benefício», atira. Sobre a imagem aérea dele mesmo junto ao cachalote morto, captada com recurso a drone, diz que apesar de trágica a situação «foi também uma oportunidade para investigadores saberem mais sobre a espécie protegida desde os anos 80, que tem visto a sua população recuperar paulatinamente». 

«Segredos do Mar Português», na Science Gallery do Exploratório Centro Ciência Viva

Tartarugas, lesmas do mar, anémonas, trompeteiros e a caravela portuguesa que tem honras de capa da exposição, por ser inteiramente dedicada à costa nacional. A exposição é um mergulhos nas águas dos arquipélagos dos Açores, Berlengas e Madeira. A caravela foi captada junto à ilha do Pico, onde Nuno também fotografou o maior peixe do oceano, o tubarão baleia, que não costumava rondar aquelas paragens. Na foto «posa» junto ao empresário e atleta madrileno Pablo Fernandez, detentor de cinco recordes do Guiness e dedicado à causa da remoção de plástico dos oceanos. A escala ilustra bem a dimensão do gigante marinho, mas o mergulhador não parece intimidado. 

«É muito importante a ponte entre a ciência e a sociedade civil que ainda está a dar os primeiros passos. A formação em comunicação da ciência, por exemplo, não tem nem uma década, está a começar a aparecer agora e é fundamental porque temos todos ideia que os cientistas estão lá num laboratório fechado, fazem coisas que ninguém percebe muito bem, comunicam entre os pares nos seus congressos fechados, mas passar essa mensagem sobre o que eles trabalham e como afecta o nosso dia-a-dia, como traz melhoras à nossa vida, acaba muitas vezes por não passar essa mensagem», diz Nuno Vasco Rodrigues, que propôs ele mesmo a mostra ao Exploratório Centro Ciência Viva devido à proximidade com todas as gerações e a linguagem acessível do espaço ímpar no país. «Não é especificamente uma exposição de fotografia, é uma exposição de comunicação; tem a sua componente estética, mas também de histórias, assumo-me como fotógrafo de conservação», explica.

«Segredos do Mar Português», na Science Gallery do Exploratório Centro Ciência Viva

Há uma turma do ensino básico a visitar a galeria. Admiram curiosos dois tubarões azuis que rodopiam e na fotografia quase parecem o símbolo do yin-yang. «São conhecidos também como tintureiras», explica o autor. «Que vejo de vez em quando nos menus de restaurantes e peço-vos: não peçam tintureiras. É a espécie de tubarão mais pescada a nível mundial. São 100 milhões mortos todos os anos, grande parte para alimentar o mercado asiático, mas são fundamentais para o equilíbrio dos ecossistemas e estão a desaparecer a uma velocidade vertiginosa.» E remata: «Talvez se as pessoas soubessem que são animais devoradores de metais pesados não tivessem tanto vontade de ingeri-los».

Nuno começou por fotografar espécies para um livro, depois quis apenas «fazer fotos bonitas», mas hoje já não é isso que procura. Fotografar é apenas o suporte para contar as histórias de quem habita o oceano, alguns animais mais familiares da sociedade do que outros. «Esta imagem conhecerão mais do prato, por exemplo», aponta. «São percebes, mas estas estruturas normalmente não as vêm porque se as vissem provavelmente não os comiam. São pequenos tentáculos que têm na zona da extremidade e que permitem a captação de alimento», continua.

«Segredos do Mar Português», na Science Gallery do Exploratório Centro Ciência Viva

Nuno é coordenador de Cogestão da Reserva Natural das Berlengas e investigador e professor do Mare-Politécnico de Leiria. Perguntamos se os alunos partilham do seu entusiasmo. «Cada vez mais. Noto que os alunos têm fascínio pela conservação, é isso que querem estudar e que querem fazer quando forem grandes, envolvem-se em muitas iniciativas. Acaba por ser muito simbólico que esta geração tenha esta consciência, muito diferente – para melhor – do que as gerações anteriores. Certamente porque foram estimuladas nesse sentido e isso está a começar agora a ter os seus frutos.» 

Da foto da garoupa do Porto Santo que está em vias de extinção devido à sobrepesca até aos peixes-rei, que tem a particularidade de ser hermafrodita e as fêmeas transformarem-se em machos com a idade, e que sempre abundaram nos Açores e na Madeira mas começa a surgir também na costa continental, a exposição Segredos do Mar Português é ao mesmo tempo um momento de laser, uma aula e um alerta. «[Aquele facto é] uma evidência clara do aquecimento global», diz o investigador antes de passar ao tubarão azul que nos olha de perfil, «um animal perfeito que vive cá há muito mais tempo do que nós e se fizermos tudo bem há-de continuar também por muito mais tempo» e à manta que brilha «sob a luz de meio dia».

Nuno Vasco Rodrigues, biólogo marinho e fotógrafo de conservação

Enfrentando desafios como o recurso a caixas tanque para ter electricidade dentro de água, transporte de pesado equipamento de mergulho e de fotografia, condicionantes relacionados a luz artificial e natural, Nuno Vasco Rodrigues diz que «é preciso ser muito bom mergulhador» para fazer fotografia subaquática e que em 20 anos admite que sim, nota o aumento da poluição e a diminuição da abundância de espécies marinhas. «Estamos a tirar muito mais do que a natureza pode produzir. Temos de fazer alguma coisa rapidamente. A poluição é um dos maiores factores a contribuir para este processo e é aquilo em que podemos actuar directamente, tal como o consumo. Se não houver procura, deixa de haver oferta. Não é tarde demais. Há movimentos mas são urgentes políticas e tem de haver esperança.»

Também no Exploratório

A inauguração da exposição de Nuno Vasco Rodrigues aconteceu no Dia Mundial da Água e da Conferência da Água da ONU 2023, em Nova Iorque. O Centro Ciência Viva de Coimbra associa-se às Nações Unidas na missão de alertar para a mudança de hábitos e práticas através de outra exposição: Água – uma exposição sem filtro. A produção Ciência Viva – Pavilhão do Conhecimento enquadra-se no Objetivo 6 das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável: água e saneamento para todos até 2030.

A exposição interactiva e feita num registo positivo, cativante e acima de tudo consciente, convida públicos de todas as idades a experimentar e descobrir as múltiplas facetas da disponibilidade e uso do nosso bem essencial, desde as compras conscientes na Mercearia da D. Rosalia ao Duche Eficiente (e cantado) e Labirinto das Escolhas.

Segundo o Exploratório, a inspiração para o programa com o qual a ONU pretende convocar todos é simples e eloquente: 

«A Lenda do Colibri

Um dia, um grande incêndio deflagrou na floresta. Todos os animais fugiram, assustados, tentando escapar ao fogo. Enquanto corriam, reparavam que um pequeno colibri voava até ao lago mais próximo e regressava com uma gota de água no bico minúsculo, deitando-a sobre as chamas. Então, um elefante, um pouco irritado com aquele vai e vem, gritou-lhe: Tu és louco? Em vez de fugires, tentas apagar o fogo com essas pequenas gotas de água? Não vês que é impossível? E o pequeno colibri, sem perder tempo, respondeu-lhe: Eu sei. Mas eu estou a fazer a minha parte!»

As exposições podem ser vistas todos os dias das 10h às 13h e das 14h às 18h. A de fotografias de Nuno Vasco Rodrigues tem entrada livre.

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