Coimbra pode parecer uma cidade de património à vista de todos. Mas, do outro lado do Mondego e no meio da mata de Santa Clara, há um aqueduto inacabado que continua fora dos roteiros mais conhecidos.
Juntámo-nos ao Gabinete de Arqueologia da Câmara Municipal de Coimbra (CMC) para conhecer este património, numa visita integrada nas Jornadas Europeias do Património. O passeio foi aberto à população, o que permitiu a presença de pessoas de várias idades, prontas a conhecer este local, oculto por entre as florestas de Santa Clara.
As fotografias que acompanham esta reportagem revelam a viagem, tanto no espaço como no tempo, que fizemos com os participantes da atividade. Sérgio Madeira, assessor do Gabinete de Arqueologia da CMC, foi um dos guias do trilho. O anfitrião refere que estas atividades são importantes para “valorizar o património tanto no centro histórico, como na área periurbana da cidade de Coimbra”.



Além do aqueduto, a paisagem natural envolvente também mereceu destaque. A floresta que rodeia o troço visitado é, segundo Sérgio Madeira, composta pela flora mediterrânica original. A presença deste arvoredo permitiu escapar ao calor que se fazia sentir, enquanto envolvia os participantes numa calma pouco comum numa cidade.
A visita contou com o apoio da Junta de Freguesia de Santa Clara, que colaborou na limpeza e no desmatamento do trilho. O Gabinete de Arqueologia da CMC reforça que “a atividade não teria sido possível sem a colaboração e esforço” da autarquia na remoção da vegetação que impedia a passagem, em parte ainda vestígio das tempestades ocorridas no início do ano.

As histórias perdidas do Aqueduto de Santa Clara
Ao longo do percurso, foi possível conhecer a história deste pedaço de património, que se encontra do outro lado do rio Mondego. O passeio passou pela nascente do aqueduto, pela Mãe de Água, por respiradouros e pela primeira arcada monumental. A visita ao interior do aqueduto ficou impedida por questões infraestruturais.
O ano de 1649 marcou o início da construção do novo convento de Santa Clara, servido pelo Aqueduto do Real Mosteiro de Santa Clara-a-Nova. A relocalização das freiras que viviam no Convento de Santa Clara-a-Velha deveu-se aos riscos que as inundações recorrentes do rio Mondego representavam para a sua permanência.
Ao mesmo tempo, o antigo aqueduto não conseguia dar resposta às necessidades das religiosas. Estas condicionantes levaram à construção de um novo aqueduto, iniciada em 1783. Foi este empreendimento que deu origem ao Aqueduto de Santa Clara, cuja construção nunca foi concluída.
O empreendimento foi encabeçado pelo mestre-arquiteto Manuel Alves Macamboa, também responsável pela reforma encomendada pelo Marquês de Pombal ao edificado da Universidade de Coimbra. A obra, hoje inacabada, funde-se com o crescimento da própria cidade de Coimbra, algo que pode ser observado por quem passa pela IC2, em direção a Santa Clara.


Coimbra, cidade de património a descobrir
Numa altura em que Coimbra está a ser alvo de uma reconfiguração urbana profunda, devido aos primeiros passos do Metro Mondego, a discussão sobre a valorização do património ganha uma nova importância. Nesse sentido, Sérgio Madeira considera que estes eventos são uma oportunidade para “espicaçar a população para ganharem interesse em conhecer” uma Coimbra diferente da que se apresenta a olho nu.
Sérgio Madeira acredita que é importante aproveitar o presente para desenvolver este tipo de iniciativas. O assessor considera que o facto de o atual executivo ter “vontade política para a promoção destas atividades” é fulcral para a valorização patrimonial da cidade.
Atualmente, o troço visitado encontra-se classificado como Imóvel de Interesse Público. Segundo Sérgio Madeira, espera-se que esta classificação possa abranger os restantes troços referentes à ampliação realizada no século XVIII e que o conjunto seja reconhecido a nível nacional. O processo para esse reconhecimento foi iniciado em 2025.
As Jornadas Europeias do Património 2026 decorreram entre 18 e 27 de setembro, sob o mote “Reviver, resistir, reinventar”. A iniciativa propôs atividades em todo o país para aproximar o público do património cultural, da sua conservação e das formas de o reinterpretar no presente.


