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TUMO Center for Creative Technologies

O edifício dos CTT em Coimbra vai transformar-se no primeiro TUMO do país

O centro de tecnologias digitais e criativas abre portas em Setembro, num investimento de 7 milhões apoiado por parceiros e mecenas como a Critical Software, fundadores da Feedzai, Licor Beirão, Altice, Fundações La Caixa e Santander e Câmara Municipal de Coimbra.

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Fotografia: Mário Canelas, TUMO

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«O TUMO é um projecto brutal, é um projecto poderoso, é um projecto transformador que vai transformar efectivamente os nossos mais jovens», atira Gonçalo Quadros, chairman da Critical Software. «Quando vi este projecto, como os meus co-fundadores, vimos que era exactamente este tipo de iniciativa que queríamos trazer [para Coimbra] e ajudar a concretizar», diz Paulo Marques, co-fundador da Feedzai. Foi assim, com um entusiasmo quase juvenil que os fundadores de duas das maiores empresas tecnológicas do país receberam a ideia de trazer o projecto TUMO para Portugal e para Coimbra em particular.

A ideia partiu da Shaken. not stirred, organização de antigos professores e alunos que, nos últimos anos, se uniu para desenvolver e expandir uma escola de negócios em Portugal, a Nova SBE – Universidade Nova de Lisboa. Desse projecto de um novo campus de 70 000 m2 junto ao mar, quase inteiramente financiado através de uma campanha de angariação de fundos – arrecadou mais de 50 milhões de euros – ficou o desejo de construir outros, sempre inovadores e com impacto.

Quando há três anos lhe apresentaram o TUMO, Pedro Santa Clara, fundador da Shaken, diz que ficou «imediatamente convencido que o modelo pedagógico tem um enorme potencial» e devia chegar ao maior número de jovens possível. De toda a gente com quem falou, Quadros e Marques «mostraram-se extraordinariamente entusiasmados em trazer o TUMO para Coimbra» e, com a sua ajuda e um determinante «sim» da Fundação La Caixa, seguido do apoio de outros parceiros e mecenas entretanto envolvidos, vai mesmo acontecer em Setembro deste ano, representando um investimento de 7 milhões de euros.

O que é?

O TUMO é um programa educacional gratuito, complementar ao ensino obrigatório, que põe adolescentes aos comandos da própria aprendizagem. É composto por actividades de auto-aprendizagem, workshops e projectos laboratoriais que acontecem num centro de tecnologias criativas feito à medida e de acesso totalmente gratuito. O objetivo do projeto é capacitar os jovens a lidar melhor com os desafios e oportunidades do mundo do trabalho e da vida em sociedade, através deste conceito educativo inovador e colaborativo com capacidade transformacional.

«Gosto muito desta ideia de trazer algo que já está a ser feito e com provas dadas», atira Mafalda Furtado de Mendonça, também da Shaken, com quem conversámos por telefone. «Começámos o processo há cerca de um ano e isto é para Setembro, não é para daqui a três anos. Não é preciso começar do zero, mas é muito ambicioso», continua, com o brilho nos olhos de quem tem um bebé prestes a nascer. E tem. O TUMO português nasce em Coimbra e não é numa das maternidades da cidade, é no antigo edifício dos Correios, Telégrafos e Telefones (CTT), cedido pela Altice Empresas.

No centro TUMO Coimbra, 1500 jovens com idades compreendidas entre os 12 e os 18 anos vão poder adquirir competências em 8 áreas temáticas na interseção da tecnologia com a criatividade: Modelação 3D, Animação, Desenvolvimento de Jogos, Programação, Música, Design Gráfico, Cinema e Robótica. Os programas são presenciais, totalmente gratuitos e acontecem durante os tempos livres. Através de um percurso de aprendizagem individual e personalizado, mas acompanhado por monitores, os jovens trabalham competências técnicas e sociais que depois aprofundam em workshops e laboratórios especializados. No final do percurso cada aluno tem um portfólio com os trabalhos realizados, um registo individual das suas aprendizagens.

Os laboratórios especializados são dados por profissionais internacionais. Kanye West, Darren Aronofsky, George Clooney, Charles Aznavour e Anne Hidalgo foram alguns dos nomes bem conhecidos que participaram nos laboratórios de centros noutros países.

De onde vem?

O primeiro centro TUMO foi fundado em 2011 em Erevan, na Arménia. A história é bonita. Depois de viver nos Estados Unidos, o casal Sam e Sylva Simonian, nascido e criado em Beirute, reconhecendo as contribuições significativas que organizações arménias tinham feito pela sua educação e sucesso ao longo dos anos, quis estender essas oportunidade à actual geração de «talentosos e motivados» jovens arménios e o TUMO é o seu maior passo nessa direcção até hoje.

TUMO é a abreviatura de Tumanyan, nome de um poeta e activista arménio e também do parque que fica junto ao primeiro centro, e foi criada pelos jovens alunos. Marie Lou Papazian é a CEO fundadora, formada em Informática no Ensino pela Universidade de Columbia e Gestão pela Harvard Business School, que desenvolveu o programa educacional e liderou a concepção e construção das emblemáticas instalações. Os resultados têm sido tão expressivos, que o sucesso do TUMO transbordou e foi parar a outras geografias. O projeto tem vindo a expandir-se com grande sucesso em todo o mundo, estando presente em países como a Alemanha e França, num total de 14 centros e 25 mil alunos activos. Este ano, além de Portugal, abrem novos centros na Alemanha e Estados Unidos da América.

No final de 2022, a equipa da Shaken viajou até à Arménia para ver com os próprios olhos aquilo que já adivinhava completamente arrebatador. «Entrámos e vimos centenas de alunos espalhados por um centro com capacidade para mil alunos, todos em silêncio, não porque alguém os mandou calar mas por estarem totalmente comprometidos com o trabalho», conta Mafalda Furtado de Mendonça.

Gonçalo Quadros e Paulo Marques também foram. «Absolutamente inspirador!», conta Quadros. «Se houvesse dúvidas, bastava ir àquela escola, perceber como funciona, olhar para aqueles miúdos e a maneira como eles se dedicam ao que estão a fazer, perceber toda a energia, tudo aquilo que emana daqueles open spaces onde os miúdos, uns com os outros, trabalham desafios, desenvolvem soluções, e aprendem».

Paulo Marques, que durante muitos anos foi professor na Universidade de Coimbra, onde conheceu os sócios Nuno Sebastião e Pedro Bizarro, diz que «uma das coisas que nós acreditamos profundamente é que é necessário pôr os miúdos e pôr os jovens a fazer coisas com as próprias mãos. Ou seja, muito mais do que por vezes um conhecimento livresco, se as pessoas acreditarem que é possível aplicar o conhecimento de uma forma prática, isso tem resultados muito importantes.»

«Foram eles que «agarraram a nossa ideia e têm sido os nossos ponta de lança, estão a envolver toda a gente! São um coração da razão de isto ser em Coimbra e lá, na Arménia, foi muito bom vermos o que já tinhamos lido sobre o TUMO», relata Mafalda Furtado de Mendonça, sublinhando que «foram [os empresários] que nunca deixaram cair a ideia e que foram sempre pensado em soluções para os problemas que iam aparecendo».

Mais tarde juntou-se outra empresa com ligação forte à cidade, a J. Carranca Redondo Lda., que produz o Licor Beirão, para além do envolvimento da própria Câmara Municipal de Coimbra. «Este empenho da comunidade é fundamental para o sucesso do projecto», afirma Pedro Santa Clara.

«Eu já há muitos anos que procurava estas ferramentas, ver como é que em termos de educação podemos devolver à sociedade aquilo que temos conseguido obter e este é o primeiro projecto em que nós decidimos fazer um grande apoio fora do concelho da Lousã, porque percebemos que o TUMO merece esse risco». Quem o diz é Daniel Redondo, com quem também conversámos em frente ao futuro TUMO Coimbra, no antigo edifício dos CTT.

O empresário partilhou que «a forma como as aulas estão preparadas, que não são bem aulas são projectos em grupo, é uma série de mecanismos que estão adaptados aos tempos correntes. A sociedade evoluiu tanto e a educação deu pequenos passos nesse sentido. E eu percebo muito, tenho filhas novas e vejo que os mecanismos actuais não são propriamente os mais motivadores. Não é só a forma de ensino mas é também o que vão ensinar, o que vão aprender, que é abrir horizontes.»

Um edifício especial

Encerrado há anos, o edifício desenhado por Amílcar Pinto fica entre o Mercado D. Pedro V e o Jardim da Manga e foi construído entre 1936-39. A reabilitação está agora a cargo da CONSTRU, a empresa local TUU será o parceiro responsável pela fiscalização e acompanhamento dos trabalhos e Ana Conduto, da Shaken, é a arquitecta de serviço e abriu-nos as portas do espaço. «Aqui vai ser a entrada com os torniquetes que dão acesso ao open space, que é a área do self-learning», diz Conduto, antes de subirmos ao primeiro andar onde nos mostra as melhorias que terão de ser feitas, fala sobre a vontade de manter portas e janelas e a localização privilegiada do lugar.

«O desafio é o mais empolgante possível, não só pelo projecto em si como ver um edifício com uma dignidade e com uma localização na cidade extraordinária. A fachada era já imponente, o espaço tem todas as condições para fazer a dinâmica necessária ao centro TUMO e penso que com pouca transformação, que é exigida pelo orçamento que temos, pode ficar uma coisa espectacular». Mafalda Furtado de Mendonça já nos tinha dito que tinham visitado dezenas de lugares e que «a ideia é que, num mundo de trabalho remoto, seja para ir, para estar com colegas, com tempo e espaço para todos e para tudo.»

Prometendo manter a «riqueza enorme» do edifício, a arquitecta adianta que «a organização interior, que depois se adapta muito à sua função, tem de ter um ambiente que cative o aluno a querer ficar e a querer lá estar. Diferente da escola mas que também não é a casa, mas é um conceito mais ligado a um presente futuro.»

Cerca de 2000 m2, cinco salas de workshops, uma de robótica e um estúdio de música além do open space, casas de banho e outras áreas necessárias vão ser preparadas até Setembro para receber mais de mil alunos, com idades entre os 12 e os 18 anos, de forma totalmente gratuita.

Só funciona se for para todos

A Shaken not stirred tem uma missão assumida: «empoderar a geração futura». «Acredito que cada um deve contribuir com o que sabe fazer. A nossa equipa contribui com a energia que tem, com a vontade de chegar mais longe e com a criatividade para fazer acontecer. Temos trabalhado em projectos educativos que acreditamos que podem fazer a diferença — desde o desenvolvimento do campus da Nova SBE à 42 Lisboa e 42 Porto. O TUMO vai chegar a mais gente, mais nova, para potenciar a criatividade e as capacidades dos jovens e prepará-los para o futuro», remata Pedro Santa Clara.

Ninguém paga para frequentar o TUMO, cujos horários estão a ser afinados mas serão sempre complementares ao ensino regular. Não há requisitos para admissão. Nem testes, nem diplomas, nem semestres, nem sequer professores. «É uma misturada e só funciona se for assim, com jovens cujos pais puxam para cima misturados com jovens cujos pais não puxam nada», explica Mafalda Mendonça, formada em Gestão, que acrescenta que a paridade também é fundamental – o mesmo número de miúdos e miúdas. A única coisa que a escola não admite são faltas. «Os alunos têm de ser assíduos porque é uma oportunidade, à terceira falha saem para dar lugar a outros», sublinha a responsável.

O financiamento do TUMO Coimbra é actualmente privado. O projecto concretiza-se pela iniciativa de mecenas como a Critical Software, Paulo Marques e Pedro Bizarro (fundadores da Feedzai), da J. Carranca Redondo Lda. (empresa que produz o Licor Beirão), Oxy Capital, Câmara Municipal de Coimbra, Altice Portugal, BPI | Fundação La Caixa, Fundação Santander e Fundação Calouste Gulbenkian. Conta com o Alto Patrocínio da Presidência da República. Mas, segundo a organização, o ideal é conseguir financiamento público «para que seja sustentável e escalável», como acontece em países com a Alemanha. «Lá é uma iniciativa do próprio governo, quando Angela Merkel [ainda como chanceler] visitou um centro disse: “Isto é extraordinário, vamos mudar o futuro da Alemanha”, e abriram o centro em Berlim e há planos para abrir noutras cidades».

Recrutamento local

Consciente do desafio de comunicar o TUMO e trazer os jovens e toda a restante comunidade a bordo do projecto, mas muito confiante no modelo que garante que tem «muita maturidade e está a transformar a geração com muito talento e envolvimento», Mafalda Mendonça diz que o objectivo deste espaço, que se quer inspirador para os jovens pensarem e discutirem, desenvolvendo capacidades em «coisas muito práticas para este nosso futuro digital», é que o trabalho de aprendizagem e desenvolvimento de ideias concretas no TUMO resulte na resolução de problemas da comunidade.

Gonçalo Quadros, que a título pessoal pertence à associação COOL – Jornalismo de Soluções, que detém a Coimbra Coolectiva, não tem dúvidas de que o «edifício emblemático, central à cidade, é um edifício com alma, com dignidade para projectar uma escola que tem, de facto, muita ambição» e Paulo Marques é peremptório: «Nós acreditamos que Coimbra tem uma longa tradição de dar coisas ao país e a sociedade e também acreditamos que é necessário abanar um pouco a cidade e trazer novas formas de fazer as coisas e de ver o mundo. Queremos que a cidade melhore e o país melhore a partir de Coimbra». 

Espreitando o site oficial do TUMO na Arménia, podemos ficar com um cheirinho do que aí vem. O recrutamento dos quadros inclui mentores ou coaches e workshop leaders, em regime part-time, e funcionários da escola, em regime full time. Mafalda explica que a formação de quem é admitido no TUMO para oferecer a sua experiência é importante, mas a capacidade de motivação e inspiração é que são primordiais. «Além das obras do espaço, cedido pela Altice, o investimento é nos recursos humanos, criando postos de trabalho e envolvendo a comunidade», revela Mafalda.

A Shaken not stirred estima que será necessário um quadro de 30 mentores, que recebem formação e podem ter de viajar até à Arménia para perceber como tudo funciona. A abertura em Coimbra marca o início de uma campanha de expansão de centros de educação TUMO por todo o território nacional. Prevê-se a abertura de mais centros em Portugal nos próximos anos. «O objectivo é abrir em Coimbra para ser o nosso farol», remata Mafalda Furtado de Mendonça, fazendo a ressalva: «Somos amigos da escola pública, a ideia é complementar».

*Actualizado às 15h43 de 24 de Janeiro de 2023, por ter sido adicionado o vídeo, identificadas a origem do nome TUMO e autoria do edifício dos CTT enviadas por dois leitores, além de terem sido anunciadas mais entidades parceiras do TUMO Coimbra.

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