(Em diálogo com o Gonçalo Quadros sobre como as instituições do ensino superior podem transformar-se e impulsionar a transformação)

1. O otimismo imprescindível

Melhorámos muito, não piorámos, nos últimos 20 anos na ciência e no ensino superior. A despesa global em I&D ultrapassou 1% do PIB e temos hoje mais de metade dos jovens de 20 anos a estudar no ensino superior. Há muitos outros indicadores positivos, desde a balança tecnológica, à internacionalização das nossas Universidades e dos nossos cientistas.

Porém, temos grandes desafios pela frente, uns de continuidade do percurso, por exemplo, em termos de despesa de I&D, e outros novos. Alguns dos mais importantes estão bem identificados no texto do Gonçalo Quadros, ainda que por vezes, na minha opinião, sobrevalorizados.

Os resultados obtidos até agora em Portugal, com persistentes políticas de valorização da ciência e do conhecimento, permitem-nos acreditar que é possível continuar, e até fazer melhor. Esse otimismo é a meu ver indispensável para enfrentar as mudanças difíceis, mas incontornáveis, no ensino e no trabalho científico que lhe subjaz.

Não são exclusivas de Universidades portuguesas, como se mostra em muitos relatórios que sobre elas refletem por esse mundo fora (a título de exemplo, pode ver-se Australian Universities Accord).

É indispensável ter espaços de experimentação para inovação pedagógica, criar incentivos (na carreira dos professores, na avaliação dos cursos, na reputação das universidades), testar novas mobilidades e, claro, aproveitar o melhor de quem já tentou e acertou como a Escola 42 e a TUMO, entre outras.

2. A inovação pedagógica incontornável

Considero este um dos principais desafios do nosso sistema de ensino superior, fundamental para vencer vários outros.

Em primeiro lugar, para podermos alargar os seus públicos e com isso contribuir para o reforço e atualização das competências na sociedade em geral.

Em segundo lugar, para adaptarmos os sistemas de ensino a um mundo com excesso e informação e desinformação não filtrada, mas disponível em tempo real, a um mundo rico em dados e com inteligência artificial capaz de formular respostas rápidas para problemas. Não podemos ensinar e aprender hoje exatamente como eu aprendi e ensinei há décadas atrás.

Em terceiro lugar, é preciso inovação para podermos incorporar abordagens transdisciplinares e colaborativas, cada vez mais relevantes, sem perder as vantagens da especialização. A Universidade de Coimbra, que tem as suas escolas relativamente próximas, devia fazer um esforço muito maior para beneficiar deste cruzamento de saberes no ensino e na investigação e eliminar com mais determinação as barreiras existentes.

Inovar é sempre muito difícil e exige saber lidar com o insucesso. Quem inova e acerta sempre é porque inova pouco ou raras vezes. É preciso ensaiar novas metodologias de design thinking, de interação, de aprendizagem, de teste de conhecimentos e até de governação.

É indispensável ter espaços de experimentação para inovação pedagógica, criar incentivos (na carreira dos professores, na avaliação dos cursos, na reputação das universidades), testar novas mobilidades e, claro, aproveitar o melhor de quem já tentou e acertou como a Escola 42 e a TUMO, entre outras.

3. A endogamia abdicável

Pensemos agora na endogamia, ou seja, no facto, de a maior parte dos professores fazerem a sua carreira na mesma Universidade onde se licenciaram e/ou doutoraram. A minha primeira discordância, se assim pode chamar-se, é sobre a desproporcionalidade da importância dada a este fator pelo Gonçalo, nos seus impactos e na economia do texto.

Começo por dizer que a endogamia não é um exclusivo da Universidade de Coimbra, mas de todas as Universidades portuguesas.  Todas se encontram acima dos 50% (as mais antigas acima de 70%), com exceção das da Madeira, Algarve e do ISCTE (DGES) que estão perto. As mais novas e os Institutos politécnicos são por ora menos endogâmicos porque foram obrigados a recrutar o seu corpo docente fora dos seus próprios licenciados.

Além disso, a lei obrigou até 2009 que os professores apoiados por uma Universidade no seu doutoramento nela permanecessem durante os 4 anos seguintes. Naturalmente, acabavam por ficar para além desse período.

É certo que há casos que merecem atenção, especialmente quando parece ocorrer uma “transmissão” de lugares de pais para filhos, mas essa não é, felizmente, uma situação generalizada.

Posto isto, uma maior mobilidade não faz mal ao sistema, até o pode melhorar, bem como a quem tem de mudar de Universidade para iniciar a sua carreira académica. Contudo, menos endogamia, por si só, não resolveria nenhum dos problemas estruturais identificados. E como as condições de recrutamento e de atratividade são distintas de escola para escola, a regulação da endogamia deverá ser resolvida por cada uma delas, como fez a Nova SBE (embora com cambiantes).

Talvez fosse interessante, além disso, explorar como o sistema francês incentiva a mobilidade geográfica dos professores universitários e a sua saída temporária de Paris para outra Universidade fora da capital. Poderia ser uma medida contra o excesso de “lisboetismo” e um incentivo a relações mais densas de cooperação entre instituições de ensino superior.

Diferente desta questão, mas com ela relacionada, é a falta de condições e sobretudo de vontade para atrair professores de escolas estrangeiras para os quadros das nossas Universidades ou para a sua gestão (incluindo o cargo de Reitor), mesmo que a lei o permita. Aqui estou de acordo com o Gonçalo que será necessário uma maior pró atividade.

4. A transferência de conhecimento indispensável

A transferência de conhecimento é outro dos desafios para o qual precisamos de respostas mais eficazes.

Há boas iniciativas em curso, como os laboratórios colaborativos, e tudo melhorou com o aumento do investimento privado em investigação e a incorporação de investigadores doutorados nos seus quadros bem como na Administração pública.

Porém, as Universidade precisam de ser mais ativas na passagem de conhecimento para o exterior, na devolução à comunidade do que ela lhes proporciona e na interação com a sociedade na própria produção do conhecimento.

Precisam de estabelecer relações de trabalho conjunto e de mobilidade com outras instituições de ensino superior, numa lógica de “coopetition”, e sobretudo com outro tipo de atores individuais e coletivos, públicos e privados, numa lógica de colaboração. Uma estratégia inovadora desta natureza é, aliás, fundamental para Coimbra, inserida numa região demograficamente adversa e com problemas de atratividade de pessoas e investimento.

Para esse efeito, como se  mostra num estudo recente do Joint Research Committee da Comissão Europeia (Competences for Policymaking – Competence Frameworks for Policymakers and Researchers working on Public Policy), os investigadores devem dotar-se das competências adequadas que lhes permitam maior eficácia na passagem do conhecimento e na sua co-produção com outros parceiros que não os seus pares. Por exemplo, são precisas competências de colaboração (dinâmicas de grupo, empatia e emoção), de comunicação (escrita clara, capacidade de comunicar em diferentes formatos de comunicação social), de envolvimento com os cidadãos e stakeholders (planear e desenhar esse envolvimento) ou de compreensão das políticas públicas (monitorização e impacto).

O bem-estar apetecível

Por fim, mas não menos importante, há outro desafio que gostava de referir brevemente.

A Universidade não é apenas lugar onde se aprende um saber, se passa ou se reprova nos exames e se sai com um “canudo”. Não é apenas um local onde se ensina ou investiga um tema ou vários. Ou um lugar onde se trabalha de outro modo para que tudo isto possa ocorrer.

A Universidade tem de ser um local de bem-estar, de cultura, de desporto, de convívio e interação humana. Aprender e ensinar é também ser capaz de tocar numa orquestra, jogar numa equipa, dirigir uma associação, representar num palco, cantar num coro, manter um programa de rádio, interagir com a cidade, fazer voluntariado, organizar um evento, etc.

Para que tal aconteça, há várias políticas e incentivos importantes que vão dos serviços sociais aos culturais.

Não podem ser só serviços no sentido tradicional. Hoje temos meios e dados que nos permitem, por exemplo, antecipar as dificuldades e prevenir o custo individual e coletivo do insucesso. E há outras iniciativas relevantes que devem cobrir e envolver toda a comunidade universitária de forma mais criativa.

Coimbra tem tradição em cuidar do bem-estar dos seus estudantes e pode alargar essa política se quiser fazer disso uma vantagem para atrair os melhores. Tem uma Associação Académica única que tem sido uma grande dinamizadora de atividades culturais e desportivas.

Deveria ter também uma política mais ativa para atrair e fixar os melhores professores, técnicos e investigadores, incluindo a área da habitação e dos espaços de convívio e interação dedicados.

6. A ambição desejável

Seguramente, há outros desafios cruciais, desde o investimento à valorização das carreiras, passando pela internacionalização, que o Manuel Heitor tão bem identifica no capítulo 6 do seu recente livro “Que Pirâmide Humana? O Conhecimento e as opções de Política Pública em Portugal: 2000-2030”, publicado pela INCM, uma espécie de novo manifesto para a ciência, que ele designa por uma “Agenda para a normalidade”, cuja leitura recomendo vivamente aos interessados nesta discussão.

Como aí se defende, este não é apenas um problema de inteligência coletiva, mas também de construção de uma felicidade coletiva (a frase tocante “roubada” para este artigo), ou seja, de como usamos a capacidade científica e de inovação para garantir a “resiliência” da nossa sociedade e da nossa economia, voltados para todo o nosso território e para o mundo.

O que tem Coimbra, a sua Universidade, a cidade, a região, a ver com tudo isto? Tem tudo. A Universidade de Coimbra beneficia das condições para vencer os desafios que o Gonçalo Quadros identificou e outros que possam ser acrescentados. Tem uma história longa, tem massa crítica que pode reforçar, tem qualidade de vida que deve fortalecer, tem uma rede internacional que pode alargar.

Veremos é se tem vontade coletiva, criatividade, determinação e humildade para o fazer. Se preferir uma lógica de vitimização ou, em alternativa, julgar que a sua antiguidade lhe basta para sobreviver e ser feliz sozinha, perderá as batalhas que já estão à vista e provavelmente também aquelas que ainda nos vão supreender. Mas, se a ambição estratégica for a sua marca decisiva na próxima década, poderá aspirar passar na dura prova e contribuir para a felicidade coletiva.

Maria Manuel Leitão Marques
Professora jubilada da Universidade de Coimbra 

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Jornalismo de soluções, Coimbra.

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