Há pouco mais de meio ano, ainda ontem e para sempre, a Sofia, médica-legista, pendurou a vida num «arame envolvido por plástico (de cor cinzenta) e com nó corrediço», como, se ainda pudesse, o descreveria ela mesma, no seu Relatório da Autópsia Médico Legal. A morte levou-lhe a palma, Jorge: sabendo que nenhuma ganharia, a Sofia enlaçou as suas «almas em guerra / Só, por existir / Só, por duvidar / fez a cama na encruzilhada e chamou casa a esse lugar».
Quarenta e três. 43 os anos agora soterrados na sepultura 43, Leirão 1, de um, ironia semântica, semi-etéreo…. A Sofia é(ra) minha irmã. A Menina, a «minhanossa» Menina, que à falta de melhor norte, me fugiu por entre os dedos, grão de areia fina tornada áspera, desespero que tentei travar na mão fechada de um punho cerrado. Com brechas, porém… não a detive; nada a deteve. Preciso acreditar, enganando-me, que nada a podia deter. Esfalfei-me por compreendê-la em cada olhar perdido, em cada súplica calada, mas nada, nada lhe arranquei que me permitisse evitar a única certeza que trazemos desde o nascimento. Foi- se, a Sofia. Para sempre. Só. Escorraçada por uma dor dilacerante que aprendi a perscrutar- lhe e que jamais consegui erradicar.
A depressão, siamesa da solidão, é um estado de uma alma sofrida, gasta, desalmada de tanto almejar o que não sabe que seja. Uma dor sem remissão, numa viagem muitas vezes só de ida. Sufocou, a Sofia. Implodiu. Foi até onde conseguiu ir. Sei que não quis este fim. Sei que se afogou na falta de pé deste viver traiçoeiro cuja ondulação a levou a chocar de frente com a incapacidade de ser aquilo que, a seus olhos, se lhe afigurava ter de ser. Adoeceu. Não a soubemos curar. Nem a medicina, nem a análise ou nenhuma das «logias» da psique, nem a fé, a amizade ou o amor. Nada. Nada conseguimos fazer para a resgatar de um lugar para onde não quis ir e do qual não soube sair. A verdade é que somos todos ainda muito rudimentares no que é essencial.
A Sofia, dirão muitos, senti-lo-ão alguns, estará sempre no meio de nós. Certo é que viverá sempre, sem intervalos, algures no íntimo dos que a amávamos, bolsas lacrimais de abertura fácil a chover aconchego e impotência em território vazio e agreste, escavado em pleno peito com a brutal força de um só golpe, mas iluminado pela luz encantatória da bondade, inteligência, beleza e humanidade que dela sempre brotaram. Não menos certo é que já não respira connosco e todos e ela não mais nos olharemos, não mais nos tocaremos, não mais nos ouviremos a rir a par do riso aberto e desconcertante com que nos quebrava quando se ausentava das suas ausências. Que encontre, onde quer que chegue, o lugar que aqui sempre lhe escapava.
Perdoem-me a heresia, em Deus só creio na sua omni-ausência, na sua sempiterna distração. Se existisse, com os atributos com que o ornamentam, ter-se-ia apercebido dos sinais que a Sofia deu para que reparássemos nela, lhe acenássemos, a convencêssemos de quão importante é(ra) para todos nós, pais, filhas, irmãos e quem mais a amasse. Se existir, e, para expiação de todos, assim o ficciono, que consiga aplacar em nós toda esta dor que, por decoro, aqui procuro a custo maquilhar, mas que exorto aos demais a manifestá-la a bem da sua saúde…mental.
Aqui chegado, após este revoluteado solilóquio intimista, autocentrado na dor imensa solidamente ancorada nos vãos de um buraco negro, todo ele virado para dentro deste meu peito onde um coração agora me bate por castigo, permito-me nomear, com o presumido consentimento de Andrew Solomon, esse verdadeiro Demónio que é a Depressão: autêntica máquina devoradora de vidas e chaga a que chegamos sem hora marcada nem propósito definido. A depressão, espécime silente e dissimulado de doença mental que corrói lenta, profunda e insidiosamente, fez da nossa vida um lugar irrespirável: em primeiro lugar e de um modo letal, para a Sofia. De seguida, em doses cavalares de tortura, para os meus pais, para as filhas da Sofia e o pai delas, para mim e para o agora único exemplar feminino do que resta da nossa fratria, para as sobrinhas e primos direitos da Sofia e, como poderia figurar no topo da lista, para os grandes amigos da Sofia que acima não figurem já. Arrancou de mim, e de alguns dos atrás elencados, um verdadeiro pedaço de alma e muito do bom que tivéssemos para dar.
Acompanhei de perto o definhar da minha irmã. Logo que disso me apercebi e sempre que ela suave e sussurradamente mo recordava. Sempre funcional no seu dia-a-dia, «maxime» no desempenho das suas altíssimas competências profissionais – uma das melhores alunas de sempre da sua especialidade na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra – a Sofia passou a carregar em si uma tristeza profunda, que por vezes chegou a exteriorizar, que não sabia de onde vinha, mas que conhecia de cor o lugar de destino, mais tarde ou mais cedo, e cada vez mais cedo que tarde, um itinerário que desenharia com as suas próprias mãos, não porque o quisesse, que manifestamente não quis, mas simplesmente porque o Demónio não lhe deixou alternativa, tais eram os impulsos de fim de linha com que acicatava o desespero em que a encarcerou.
Carrego em mim a culpa de não a ter acompanhado 24 horas por dia e luto por acreditar que isso não era possível e que, mesmo que fosse, não teria evitado o inevitável. Dizem-mo todos. Quiçá por falta de humildade e/ou da noção da verdadeira dimensão da atrocidade do sofrimento da Sofia, continuo a pensar que in casu era possível a cura e luto sem convicção para acreditar no contrário. Aliás, creio convictamente na hipótese do evitamento e/ou da cura da depressão.
Calcorreei com a Sofia psicólogos e psiquiatras. Uns menos, outros mais, sempre se mostraram certeiros no diagnóstico, mas, todos eles, tal como eu, ineficazes na cura. Honro-me de ter sido irmão de um dos seres humanos mais bonitos, sensíveis e inteligentes que conheci, e que ainda assim, ou por isso mesmo, desistiu muito antes do fim, mas, não duvido, muito para lá da dor humanamente suportável. Não sendo essa a minha área de formação, quiseram as circunstâncias que a depressão se tornasse o ringue em que me vi a patinar com quase ininterrupta frequência, pelo que se algo de útil sinto sobre ela poder dizer, é, sucintamente:
| Primeiro, impõe-se-nos, a todos, chegarmos a quem está mais perto de nós e ser directo,
corajoso e sangue do mesmo sangue na abordagem às questões essenciais: o que se passa
contigo, que estás triste? O que é que te inquieta tanto? O que posso fazer por ti para que te sintas bem? Sentes-te só? Queres a minha companhia? Vamos até minha casa, ou à tua, ou a um lugar em que te sintas bem, segura, confortável, conversamos calmamente e a seguir faço-te a comida de que mais gostas? No fundo, auscultar como verdadeiramente se sente o outro, escutando-o com inabalável atenção e sincera vontade de saber as respostas. E não falo aqui do ecuménico amor ao
próximo, no sentido da atenção que cada um e todos os seres humanos, num mundo ideal, merecem dos demais. Não. Falo tão simplesmente daqueles que nos são mesmo próximos, física e emocionalmente: pais, filhos, irmãos, avós, companheiros de vida, amigos, colegas de trabalho. Falo de ver quando se olha, escutar quando se ouve, conversar quando se fala. Falo de cuidado. Carinho. Compaixão. Amizade. Falo do Amor, nas suas variegadas nuances. Falo de uma humanidade que pode evitar ou fazer regredir a doença e, acredito, trazer a cura. Falo do combate à solidão, ao desamor.
| Segundo, a resposta dada pelo Serviço Nacional de Saúde e pelos vários serviços privados
ligados às doenças mentais parece-me manifestamente enviesada. A título de exemplo, mas
disso sintomático, se o portador de uma depressão profunda, crónica, major, ou como lhe chamem, se mostra desmotivado e pouco crente no tratamento e deixa de ir às consultas, invariavelmente o clínico (psiquiatra, psicólogo) não faz um esforço para o trazer de volta. Por outras palavras, não lhe transmite a quota de humanidade, afecto, compaixão e até, ou sobretudo, amizade, que, no meu simples entendimento, deveria fazer parte integrante de uma terapia que se quer eficaz e eficiente numa área tão sensível como a de que aqui cuidamos. Por outro lado, aqueles clínicos, muitos deles excelentes profissionais, vêem-se marionetados por uma máquina grotesca, cara, mal oleada e sem capacidade de resposta, que afasta ou nem sequer recebe o enorme contingente de deprimidos que vão paulatinamente definhando… em rede, sem que os primeiros possam verdadeiramente contribuir com esse plus crucial de empatia. Sim, em rede: a experiência trágica e traumática da minha irmã, por
exemplo, uma depressão que ultrapassou o último reduto de uma eventual cura, transformou todos quantos lhe são mais próximos num conjunto de personas de uma experiência depressiva colectiva.
Vivemos autenticamente num sufoco existencial, a tentar cuidar uns dos outros e a procurarmos disfarçar as nossas indisfarçáveis fragilidades e falta de competência e fôlego para cuidarmos de nós próprios. Andamos do psicólogo para o psiquiatra, como de Herodes para Pilatos, de comprimido em comprimido, comprimidos até à medula e sem um horizonte risonho de descompressão. Enfim, apelam-nos à presença de espírito. «Prefiro a ausência de corpo», como dizia Millor Fernandes – não ter de estar aqui, nestas circunstâncias, em memória de por quem tanto lutei e de quem esperava que preservasse a minha quando me fosse.
Escreveu Rui Costa, poeta e amigo, «Ris muito e pensas que quem ama a luz não pode ter medo da escuridão». Assim terá pensado a Sofia, que, depois da luz, tanta, que irradiou, se fundiu na noite, na mesma noite que não quero que acabe em tantas das minhas manhãs.
«Isto de estar vivo ainda um dia acaba mal», sentenciou-o com refinado humor o escritor Manuel da Fonseca. Resta-nos a esperança de verdadeiramente cuidarmos uns dos outros, aniquilando o demónio. Sei que não é fácil o caminho, mas por certo sê-lo-á bem mais simples se feito a ouvir Daniel Johnston, doente mental, a ecoar em todas as tantas Sofias que somos em potência: Don’t be sad I know you will | Don’t give up until True love will find you in the end.


João José Coelho, nascido na Praia de Mira, pelas mãos da sua avó materna.
