Gonçalo Quadros e João Bicker enviaram esta carta à presidente da Câmara Municipal de Coimbra, Ana Abrunhosa, reclamando do ruído dos concertos na Praça da Canção durante a Queima das Fitas. Damos aqui conta desse texto porque entendemos que esta questão merece ser discutida publicamente.
Convidamos agora a nossa comunidade de leitores a dizerem o que pensam. Concordam com a reclamação? Subscrevê-la-iam? Ou nem por isso? Desafiamo-vos também a deixarem aqui os vossos comentários. Se tivessem de decidir, que decisões tomariam? Se acharem que este é, sim, um problema, que soluções proporiam para o resolver?
A vossa opinião importa!
Exma. Senhora
Presidente da Câmara Municipal de Coimbra,
Os abaixo-assinados vêm por este meio apresentar uma reclamação formal contra a violação reiterada do direito ao descanso provocada pelo ruído dos concertos realizados na Praça da Canção durante as festividades da Queima das Fitas de 2026.
Entre os dias 22 e 30 de Maio, o ruído proveniente dos concertos na Praça da Canção atingiu níveis insuportáveis e manifestamente ilegais. Os prolongados soundchecks começavam durante a tarde e os espetáculos estendiam-se madrugada adentro — frequentemente até às 5 ou 6 horas da manhã —, privando sistematicamente do sono os residentes da zona envolvente, noite após noite, após noite. Sendo aquela uma área densamente habitada, a utilização de um espaço a céu aberto para espetáculos desta natureza, com níveis sonoros de semelhante magnitude e em tais horários, constitui uma violação flagrante do Regulamento Geral do Ruído e dos direitos fundamentais dos cidadãos.
Estando tais eventos sujeitos a autorização municipal, a Câmara Municipal de Coimbra (CMC) é diretamente responsável pela adequação do local, pelos horários e pela fiscalização dos limites sonoros. Ao licenciar estes eventos nas condições em que decorreram, falhou nas três dimensões — e sacrificou deliberadamente o direito ao descanso de milhares de cidadãos que tem o dever de servir e proteger.
Os signatários vêm assim expressar a sua profunda indignação e exigir:
1. Que a presente reclamação seja registada formalmente, integrada no histórico de queixas relativas ao ruído na cidade, e que lhe seja dado seguimento nos termos da lei.
2. Que a Câmara Municipal de Coimbra reveja, com carácter de urgência, os critérios de licenciamento de eventos na Praça da Canção, em particular:
- a adequação do local a este tipo de concertos;
- os horários máximos de funcionamento;
- os limites de ruído permitidos, em conformidade com a legislação aplicável sobre ruído ambiental e ruído de vizinhança.
3. Que sejam adotadas medidas que garantam o direito ao descanso dos residentes, designadamente a redução dos horários de funcionamento e limites de ruído, a relocalização dos eventos para espaços afastados de zonas residenciais, ou a implementação de soluções de acondicionamento acústico eficazes.
4. Que a CMC torne pública a sua posição sobre esta matéria, designadamente as medidas que se propõe adotar para impedir a repetição desta situação, dando resposta transparente e célere aos inúmeros cidadãos que reclamaram do que aconteceu.
A importância cultural e académica da Queima das Fitas não pode servir de pretexto para a violação sistemática dos direitos dos moradores. Nenhuma festividade justifica que milhares de pessoas sejam privadas de sono durante nove noites consecutivas. O equilíbrio entre a realização de eventos e a qualidade de vida dos residentes não é um favor que se peça — é uma obrigação legal e moral de quem licencia, autoriza e fiscaliza.
Na expectativa de uma resposta e da apresentação de medidas concretas que não permitam a repetição do que aconteceu, os signatários apresentam os seus melhores cumprimentos,
Gonçalo Quadros
João Bicker
PS. Daremos nota da reclamação aqui apresentada à comunicação social.

Gonçalo Quadros e João Bicker são cidadãos de Coimbra.

18 comentários
Concordo integralmente
Subscrevo.
Concordo integralmente com o teor da carta de João Quadros e Goncalo Bicker.
Subscrevo, agradeço e aplaudo a iniciativa dos autores! Eu e uma colega ORL tínhamos pensado escrever uma carta com uma queixa semelhante, uma vez que ambas moramos nas imediações do recinto e somos afetadas pelo mesmo problema de ruído. No entanto, durante a nossa reflexão sobre o assunto, surgiu também uma possível solução que poderia ajudar a conciliar a realização dos eventos com a qualidade de vida dos moradores.
A minha colega lembrou-se de propor a realização de uma “silent party”, através da utilização de auscultadores pelos participantes. Desta forma, seria possível manter o ambiente festivo e a componente musical do evento, reduzindo significativamente o impacto sonoro para quem reside nas áreas envolventes.
Consideramos que esta poderá ser uma alternativa interessante e inovadora, permitindo encontrar um equilíbrio entre o sucesso dos eventos e o legítimo direito ao descanso e bem-estar da população residente.
Moro na zona baixa de Santa Clara e sinto na pele o excesso de ruído, pelo que concordo com a mensagem dos autores. No entanto, acho de certa forma “injusto” que este tema do ruído na Praça da Canção seja sempre abordado APENAS no contexto da Queima e da Latada. Sim, são os eventos mais notórios, quer pelo horário pela madrugada dentro, quer pelos níveis de ruído (que variam de concerto para concerto, desde situações em que com tampões para ouvidos é possível descansar a situações em que a casa quase vai abaixo com a vibração).
Mas e eventos como o Burguer Cup que teve lugar há umas semanas? Um evento que nem sequer tem “importância cultural e académica” e, como agravante, alegava ser de cariz gastronómico. Como se justifica aí que um festival de hambúrgueres tenha um DJ residente praticamente todos dias durante duas semanas, a tocar até depois da meia-noite? E o que dizer de festas em estabelecimentos do Parque Verde que duram até às tantas, situações em que a polícia mesmo depois de alertada para os níveis de ruído, nada faz?
Seria importante ver o problema como um todo e não como estando exclusivamente ligado a eventos académicos que, como os autores realçam, pelo menos têm algum tipo de significado para a cidade como um todo.
Nao tiro una palavra. Subscrevo integralmente. Inclusivamente apresentei queixa na CMC que até à data não foi digna de resposta.
Lembro o grande Laboriinho Lúcio reinventando a verdade feita: “a nossa liberdade COMEÇA, quando começa a liberdade do outro.” Ora ninguém pode, em liberdade, privar alguém da liberdade e do direito ao descanso e ao sono. É preciso reinventar a Queima, é preciso a coragem de resolver este problema que todos fingem não ver e que se arrasta por décadas.
Obrigada aos dois!
Onde se subscreve?
Apoiado!
Apesar de não sentir o problema, por residir longe do recinto, entendo e subscrevo a carta que foi endereçada à Sra. Presidente da Autarquia.
Este problema sente-se não só nas imediações mas também na margem direita do rio, todos os dias. Há 20 anos pelo menos que é assim na queima e na latada. Em média conseguem dormir-se 3 horas por noite, e de pouca qualidade.
Será que a cidade dá tão pouco à Universidade e seus estudantes durante o resto do ano que temos de sacrificar o nosso bem estar e descanso? Nas festas da cidade os concertos começam a horas normais e terminam a horas normais. Porque é que só nas festas universitárias tem de ser num regime horário diferente?! Por acaso estão todos a ter aulas à noite e só depois podem ir lá ter?!
Mais! Reparem que esta queixa é só das festas académicas, mas há zonas (Praça da república/ Sá da Bandeira) onde é isto nos restantes dias do ano, com a conivência de donos de estabelecimentos e organizadores, bem como das autoridades que se recusam a ir aos locais fazer cumprir a lei.
Sim, os que vivem permanentemente nesta cidade têm de ser ouvidos. Pagamos impostos e não estamos aqui temporariamente. Contribuimos para a estrutura permanente da cidade. Temos de ter uma palavra a dizer. Não queremos acabar com as festividades universitárias, mas tem de haver um entendimento que não tenha de pôr em causa constantemente o bem estar de uns em detrimento da boémia de outros.
Faço minhas as suas palavras!
Tenho um negócio de alojamento onde ofereço qualidade e atraio turismo de valor para a cidade, que é prejudicado com o barulho originado pela noite de Coimbra.
A incoerência na atribuição de licenças a espaços de diversão noturna, associada à falta de educação e de cuidado dos seus frequentadores que, uma vez fora dos respetivos estabelecimentos, fazem ruídos vários, sem qualquer preocupação pelos que descansam, em nada contribuem para o bem-estar das pessoas, quer sejam da cidade, quer sejam turistas que nos visitam.
Não só durante a Queima das Fitas, mas durante todo o ano, a diversão noturna tem que ter uma fiscalização mais apertada, fazendo cumprir a lei. Na verdade, se houvesse bom senso por parte dos diversos intervenientes, não seria necessário apelar à fiscalização das autoridades responsáveis.
Subscrevo totalmente!
Tenho um negócio de alojamento onde ofereço qualidade e atraio turismo de valor para a cidade, que é prejudicado com o barulho originado pela noite de Coimbra.
A incoerência na atribuição de licenças a espaços de diversão noturna, associada à falta de educação e de cuidado dos seus frequentadores que, uma vez fora dos respetivos estabelecimentos, fazem ruídos vários, sem qualquer preocupação pelos que descansam, em nada contribuem para o bem-estar das pessoas, quer sejam da cidade, quer sejam turistas que nos visitam.
É frustrante prestar um serviço de Excelência que acaba por ser boicotado pelo barulho de terceiros que, por sua vez, apenas se importam com o seu negócio.
Fiscalização e bom senso, é o que faz falta a esta cidade.
Já tinha tido a oportunidade de sugerir ao anterior executivo, a “deslocação” da animação noturna para a beira rio, na zona do Estádio Universitário, onde não há habitação, em barcos do tipo Basófias, à semelhança de tantas outras cidades europeias. Ali há espaço para acomodar muitas pessoas, há espaço para fazer barulho, sem incomodar ninguém.
Há que inovar e fazer mudanças!
E, se a Tradição já não é o que era: o cortejo agora é ao Domingo, o Fado de Coimbra já tem vozes femininas, qual o problema de relocalizar a diversão noturna de Coimbra, sejam estudantes universitários, sejam os estudantes do secundário, seja quem nos visita à procura de noites animadas?!
Faça-se como, por exemplo, em Viana do Castelo, em que as zonas (bares e discotecas) de diversão estão fora da cidade, levando o barulho para fora do centro da cidade e da zona habitacional.
À semelhança de Viana e outras que tais, vamos transformar Coimbra numa “low (noise)-city”.
Haja vontade política…
Enquanto empresário, a probabilidade de investir de novo em Coimbra é muito reduzida, para não dizer, desde já, que não acontecerá no futuro.
Concordo inteiramente! Cidade dos estudantes, sim , mas para isso tem de haver moradores, que não podem ser sujeitos a este nível de ruído fora de horas por 9 noites consecutivas!
É tempo de alguém fazer alguma coisa por esta situação. A cidade precisa de um espaço multimodal de exposições e eventos, onde se possam realizar não só queimas mas também o projecto (perdido?) de retoma de uma feira industrial. Nenhuma outra cidade realiza estes eventos no seu centro. É espantoso que até agora nenhum presidente tenha pensado e apresentado um projecto com este fim e prioridade. É que não é só o ruído, é o lixo que fica e a degradação do espaço verde. Eu apoio e assino por baixo este protesto.
Concordo que tem que haver alterações ao atual modelo. Limite de horário é controlo do ruído tem que ser preocupação de quem licencia.
Nada contra a Queima das Fitas enquanto festa académica, tradição e fator de atração turístico para a cidade mas sujeito a regras.
Olá
É um bom ponto de partida, para refletir a cidade.
… do conhecimento, que não tem reflexo na produção de empresas e emprego!
… da intelectualidade, que não vemos, intencionalidade!
… da pequena urbe, sitiada na dependência do funcionalismo publico!
Depois temos…
Barulho, muito lixo, bebedeira, gritaria, capas e batinas dos séculos passados, na cabeça de quem as usa (ou utiliza?)
Que cidade ou cidadão queremos?
A Coimbra dos amores, do Choupal até à Lapa…
Ou uma CIDADE para a cidadania ?
Gonçalo Quadros e João Bicker – excelente iniciativa!! Concordo inteiramente com a reclamação! Subscrevo todo o seu conteúdo. Já é tempo da Câmara (e outras entidades) não cederem aos “caprichos” dos estudantes – ou parte deles. Já foi tempo em que se dizia que Coimbra não sobreviveria sem os estudantes! Provincianismo e/ou ignorância do enorme investimento que tem sido feito em diversas áreas! Já é tempo de não se contemporizar com o espectáculo degradante que alguns estudantes exibem nos concertos, no cortejo, na praxe! Não tenho ilusões. Não acredito que “a CMC torne pública a sua posição sobre esta matéria, designadamente as medidas que se propõe adotar para impedir a repetição desta situação, dando resposta transparente e célere aos inúmeros cidadãos que reclamaram do que aconteceu.” Mas creio que seria bom insistir – pelo menos questionar directamente numa reunião de Câmara aberta ao público.