Há um relato que ficou conhecido na internet como “The Lamp Story”. Não por causa de um fenómeno paranormal explícito, mas por causa de um detalhe absurdo: um candeeiro.

O autor da história, um homem norte-americano que permaneceu anónimo, sofreu um traumatismo após uma agressão. Ficou inconsciente durante poucos minutos. Nesse intervalo, segundo o próprio, viveu sete anos completos noutra realidade. Conheceu uma mulher, apaixonou-se, casou, teve filhos, construiu uma rotina inteira. Descrevia os filhos com detalhe. As expressões. Os hábitos. A sensação física de os abraçar. Até ao momento em que começou a olhar para um candeeiro da sala e percebeu que havia algo errado na forma como a luz existia. A partir daí, toda a realidade começou a desfazer-se. E acordou no chão, rodeado por pessoas, segundos depois da pancada.

O problema começou depois.

Porque ele não acordou aliviado. Acordou em luto.

Entrou numa depressão profunda porque os filhos que amava deixaram de existir no instante em que recuperou a consciência. Durante anos relatou ouvir a voz do filho no limite da perceção, como uma memória emocional que não desaparecia. E esta é talvez a parte mais desconfortável da história: o sofrimento dele era real. Neurologicamente real. Biologicamente real. O cérebro não distingue dor emocional imaginada de dor emocional vivida da forma simplista que gostamos de acreditar.

Mais recentemente, surgiram relatos semelhantes de pessoas em coma prolongado que descrevem experiências de continuidade existencial completas. Uma jovem que esteve vários meses em coma relatou ter vivido uma vida paralela inteira durante esse período. Relações. Passagem temporal. Construção de identidade. Memórias consistentes. Não estamos a falar de sonhos fragmentados. Estamos a falar de consciência organizada, narrativa e emocionalmente coerente.

Estes relatos deveriam obrigar-nos, no mínimo, a abandonar a arrogância com que falamos sobre vida e morte.

Porque nós não sabemos quase nada.

Sabemos descrever atividade elétrica cerebral. Sabemos observar neurotransmissores. Sabemos identificar regiões cerebrais associadas à memória, emoção, linguagem ou perceção. Mas não sabemos explicar consciência. Não sabemos explicar por que existe experiência subjetiva. Não sabemos por que existe um “eu”. E, sobretudo, não sabemos onde termina verdadeiramente a mente quando o corpo entra em estados extremos.

O mais curioso é que a sociedade aceita facilmente conceitos muito mais frágeis sem qualquer resistência. Aceita dinheiro digital como valor real. Aceita fronteiras imaginárias como divisões absolutas. Aceita identidades construídas socialmente como permanentes. Mas, quando alguém questiona a natureza da realidade consciente, a reação automática continua a ser descredibilizá-la.

Talvez porque isto mexe diretamente no medo mais antigo de todos: o medo da morte.

Mas como é que alguém pode afirmar com certeza o que é a morte, quando nem sequer compreende totalmente o que é estar vivo?

Nós continuamos presos à ideia infantil de que realidade é apenas aquilo que o corpo físico toca. No entanto, basta uma alteração neurológica, uma anestesia, um trauma craniano, um estado dissociativo ou um coma para a perceção do tempo, da identidade e da existência mudar completamente.

Minutos tornam-se anos.

Memórias surgem sem origem clara.

Pessoas inexistentes passam a ser emocionalmente mais reais do que muitas relações concretas.

E talvez a questão mais importante não seja se estas experiências são “verdadeiras” no sentido material. Talvez a questão seja outra: por que é que continuamos a assumir que a realidade física é a única forma válida de existência consciente?

A verdade é que nós ainda estamos numa fase extremamente primitiva da compreensão da mente humana. Falamos da consciência como quem desmonta uma máquina, mas continuamos incapazes de explicar por que existe experiência interior. Porque existe continuidade de identidade. Porque existe sensação de presença.

Talvez a morte não seja um fim no sentido absoluto que imaginamos.

Talvez seja apenas uma mudança de estado que ainda não temos linguagem, biologia ou maturidade científica para compreender.

E talvez o verdadeiro problema nunca tenha sido a morte.

Talvez tenha sido sempre a nossa necessidade desesperada de fingir que entendemos aquilo que, claramente, ainda nos ultrapassa.

Rita Joana Pinheiro Maia é doula de fim de vida, realizadora, cantora, compositora e escritora, com formação em etologia canina, cuidadora dos pais desde os 16 anos, ativista dos cuidadores informais, e fundadora e presidente da Associação Dom Bichon, dedicada ao resgate e acompanhamento do fim de vida de animais.

 

 

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